sexta-feira, 26 de março de 2010
Olha ele aí!...
Você conhece alguma pessoa que ameaça dificultar sua vida se você não fizer o que ela quer? Que sempre se diz perseguido por todos que a contrariam – o sindicato dos funcionários, o promotor de justiça, o juiz da aldeia? Se você respondeu sim, saiba que está frente a frente com um chantagista emocional.
A análise desse tipo de pernóstico é objeto de livro da terapeuta Susan Forward (Chantagem emocional, tradução de Aulyde S. Rodrigues), em que demonstra como a chantagem emocional opera e por que algumas pessoas são mais vulneráveis a ela. Demonstra também como o medo – da perda, da mudança, da rejeição, de perder o poder – é a base comum aos que se tornam chantagistas. Ela lembra, como diz resumo da obra, que a chantagem requer a participação de duas pessoas e procura identificar em que a vítima contribui para essa prática. Ela também mostra uma série de estratégias para enfrentar a chantagem, como listas com tipos de comportamento, exercícios simples e roteiros para ensaiar técnicas de comunicação não defensiva. Em outras palavras: um verdadeiro guia para enfrentar questões de importância vital, éticas, morais e psicológicas, com as quais todos nós lutamos quando enfrentamos a chantagem emocional.
Um dos pontos mais importantes para se livrar da manipulação é saber identificar onde começam e onde terminam nossas responsabilidades para com os outros.
Memória faz bem
“Ademir Braz:
Gostei muito do momento de nostalgia que você nos proporcionou neste sábado, 20/03, ao escrever uma das muitas historias do Velho Dino. O Dino foi como um herói na infância de vários de seus primos e vizinhos: o seu jeito de ser e o humor misturado com a cachaça tornavam o Velho Dino uma pessoa especial. O contexto histórico da época narrada por você mostra que precisamos resgatar fatos e historias de uma Marabá que tem identidade cultural. Por exemplo, o Cururu tem-tem, o Pé pro mato, o Manteiga podre, Aristides, Edgar o seu rolamento, o Sarará bosta de boi, o Turrão, o Prefeitura, as músicas do Alcidin, entre outros.
A família Sousa lhe agradece.
Otávio, Maria José (Mary Jhow), Sebastião e Lauro.”
Loucos por dinheiro
A Secretaria da Fazenda do Pará (Sefa) informa que o vencimento do IPVA Cidadão, política pública que garante descontos no Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) para os finais de placa 04 a 34 encerra na segunda-feira, 29 de março, embora o vencimento do licenciamento anual para estas placas junto ao Detran seja somente no dia 28/05.
Só com o pagamento integral do imposto dois meses antes do prazo final do licenciamento junto ao Detran, o proprietário de veículo garante os benefícios do IPVA Cidadão, que dá desconto a quem não tem multas de trânsito.
Doidos pela Alpa
Conselho Estadual de Meio Ambiente (Coema), reunido dia 24 recente, antecipou e reconfirmou a necessidade imediata imediata da concessão da Licença Prévia (LP) para a instalação da futura fábrica Aços Laminados e Planos do Pará (Alpa), empreendimento da Vale em Marabá.
O Coema, formado por 13 conselheiros que representam a sociedade, é um órgão autônomo à estrutura institucional da Sema, e registrou a presença de 11 titulares na reunião. Mas o suplente do Ministério Público do Estado (MPE), promotor Milton Gurjão, pediu vistas do processo, com o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima). Pelo Regimento do Coema esse recurso suspende a votação para apreciação do voto, em separado, numa sessão seguinte, a qual imediatamente foi marcada para o dia 29 deste mês, segunda-feira.
Em conseqüência, o representante do MP levou um esparro do conselheiro Maurílio Monteiro, titular da Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia (Sedect), para quem "o Ministério Público foi convocado a se manifestar sobre esse processo há mais de um ano, para se antecipar a um debate construtivo e democrático, e não o fez". Maurílio Monteiro questionou se a atitude do Ministério Público "contribui para fortalecer ou fragilizar o órgão diante da sociedade".
Educação: de mal a pior
O sindicato dos trabalhadores em educação no Pará – Sintepp – observa em nota desta sexta-feira que em menos de quatro anos já passaram quatro secretários pela Seduc. “Esse é o retrato da política do governo do estado em relação à educação, diz a nota. As justificativas para a exoneração da secretária Socorro Coelho ainda não estão bem explicitadas, mas haveria descontentamento da governadora Ana Júlia com uma reforma interminável em uma escola em Breves (já adiantamos, caso a governadora não saiba, há muitas outras na mesma situação) ou com falta dos famosos Kits escolares em escolas da Marambaia (em Belém). Entretanto fontes de dentro da Seduc alegam que além destas justificativas haveria outras, de caráter mais administrativo, que dizem respeito à não liberação de pagamentos das “reformas” nas escolas estaduais e que em muitas dessas obras não teria sido cumprido o rito licitatório exigido pela legislação. Não podemos afirmar como verídica essa versão, mas ela anda solta pelos corredores da Seduc.
Para o sindicato, independente de quais sejam os motivos alegados “uma coisa fica evidente: a falta de compromisso do governo do Estado com a educação”, do que resulta que o Pará amarga “o pior IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do ensino médio de todo o Brasil”.
E conclui: “Embora não questionemos a responsabilidade do titular da pasta da Educação sobre as políticas (ou falta de políticas) para a educação, é mister reconhecer que as constantes mudanças, além de não resolverem o problema, evidenciam que a responsabilidade, em última instância, é do próprio chefe do poder executivo, no caso a governadora Ana Júlia Carepa.”
Chega de Maurino!
Gente, esse prefeito que temos, Maurino Magalhães, parece ter o propósito firme de arruinar esta cidade para sempre. Não bastasse a irritante rotina de escândalos e desserviços que presta desde seu primeiro dia de administrador (eleito pela maioria que tem o seu mesmíssimo perfil carente de qualificação), ele não para de produzir desacertos.
Esta semana começou a circular na cidade (porque não sai nos jornais locais)a informação de que o "Gênio" Benvindo, importado do Tocantins para a secretaria de Planejamento, divulgou que a prefeitura contratou uma empresa chamada CIMEBRAS, do sul do País, para fazer um diagnóstico do sistema de abastecimento de água em Marabá.
A intenção, segundo teria dito ele, o "Gênio", é o propósito de Maurino em privatizar o sistema, em face da falência ou incompetência da Cosanpa.
Até que seria interessante ver isso, mas da forma que está proposta, é preciso definir de onde sairão os recursos para indenizar os R$ 180 milhões que o PAC está investindo no sistema de distribuição de água e rede de esgotos, via empreiteiras e pagamento através da CEF.
Há mais. Esta semana, em entrevista a um informativo da tevê, o deputado Asdrúbal Bentes se disse preocupado coma possibilidade de Marabá vir a perder R$ 3,5 milhões de recursos que ele conseguiu liberar em Brasília e que Maurino nunca se interessou em apresentar o projeto e credenciar-se ao recebimento. São recursos prioritários para a saúde, ampliação, reforma e construção de hospitais e posto avançado na zona rural, neste segmento falido e sucateado.
Se alguém souber o que foi feito do projeto de construção do estádio de futebol à margem da Transamazônica, por favor, informe a opinião pública.
Será o benedito?
Parece praga...
Vocês lembram de Anapu, o lugar onde bandidos e pistoleiros mataram Dorothy Stang? Lá também falta um prefeito decente. E tanto falta que os trabalhadores da educação municipal vão manifestar-se dia 1º de abril, dia nacional dos maus gestores, por melhores condições de trabalho e, também, contra o atraso no pagamento de seus perdimentos.
Enfim...
A prefeitura de Marabá publicou esta semana aviso de edital de licitação para a contratação de empresa especializada em concursos públicos. A abertura das propostas está prevista para 11 de maio.
quinta-feira, 25 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
Pequena história de uma assombração
Supõe-se que os rapazes chegaram à aguardente na convivência com os descarregadores do porto, uns sujeitos que passavam todo o inverno a subir e descer, noite e dia debaixo de chuva, paneiro encharcado de castanha nas costas, os degraus da escadaria de madeira inclinada entre o rio, onde aportavam os barcos, e o depósito de madeira, onde as pás e os hectolitros juntavam e mediam a produção. Os motores de popa vinham carregados de muito longe, dos igarapés e castanhais no fim do mundo – Poção do Óleo, Some-homem, Deus me livre, Vai quem quer, Refúgio dos pecadores. Para suportar o trabalho e o frio insanos, quase nus em gongós esfarrapados eles se encharcavam da cachaça pura vendida na fieira de botequins ao longo da ribanceira do Tocantins, entre as casas comerciais dos galegos. Enquanto eles iam e vinham um após outro enregelados de frio e cansaço, em algazarra para se animar mutuamente, garotos aos magotes saltavam n’água atrás do bago caído dos barcos e pentas, entre a carregação e o descarrego. Depois vendiam o apurado dessa catação no próprio depósito do dono do motor e das castanhas, e com o dinheirinho empanturravam-se de balas, pirulitos da Zeni, bombons cala-a-boca do Antônio Gemus – umas bolotas enormes de açúcar colorido na ponta de um palito -, e gibis e filmes no Cine Marrocos.
Dino era um desses meninos mergulhadores. Vivia-se o início da década de 1960 e ele entrara já na adolescência; mas tinha o corpo miúdo de um idoso, e daí o apelido Velho Dino. Morava com a mãe numa rua próxima ao cemitério, freqüentava escola pública e adorava tomar banho na cachoeira do Pirucaba. Àquela época, era já comum os adolescentes se agruparem por afinidade e vizinhança. Assim, havia a turma do Canto Verde, onde ficavam o cemitério, a oficina mecânica, o estaleiro, o campinho do Granito, a piranheira do Buraco das Moças e o rio Itacaiúnas; e os meninos do Cabelo Seco, bairro de pescadores e bons músicos, ali onde se juntam o Itacaiúnas e o Tocantins. Canto Verde e Cabelo Seco se pareciam muito, seus meninos mergulhavam juntos, batiam bola, e nada tinham a ver com a luxuriante classe média da Rua Grande. Nem com a molecada encrenqueira do bairro da Santa Rosa.
Velho Dino tinha um jeito engraçado: gostava de rir e fazer rir com piadas e seu franco bom-humor. Quando começou a beber, parece que foi ao mesmo tempo em que toda a turma das redondezas do cemitério. Juntavam-se em grupos num botequim qualquer, pediam meia garrafa de cachaça Vale e um refrigerante, ou só a cachaça mesmo, ao alcance de suas moedas. Alguém arranjava um caju, limões, uma carambola, um punhado de sal. Sim, eram dias inteiros de riso, de horas que se iam sem pressa nos botequins.
Um dia, porém, a turma do Canto Verde excedeu-se; entrou pela noite na boemia e quebrou a regra geral de estar em casa ao fim da tarde, penteada e limpa sob as luzes recém-acesas, para o jantar em família. Dino desceu cambaleante a Rua Nova falando sozinho, quase meia-noite, na rua mal iluminada. Ia dizer o quê para a mãe, certo da surra já ganha? Mesmo assim bateu devagar na porta de madeira com os nós dos dedos, trêmulo e desesperado. A taca ia ser monstra! De dentro, a mãe deu o maior esturro: Eu não vou abrir a porta, moleque, vai dormir na casa dos teus pareceiros! Mas, mãe, tá frio, me dê pelo menos meu lençol!... A mãe meteu o lençol branco por um vão da porta, um escracho atrás do outro, e Dino embrulhou-se e olhou para um lado e outro da rua sem saber o que fazer. Lembrou-se então da capelinha do cemitério de São Miguel, ali na esquina, e nem duvidou: saltou o muro, avançou pelo corredor entre os mausoléus e deitou-se na pedra erguida bem no meio da sala, onde as pessoas velavam os amigos mortos antes do sepultamento. Deitou e dormiu.
Lá pelas quatro da manhã, irado de fome, acordou com a voz do padeiro. Naquele tempo, muito antes da aurora os entregadores saíam a pé nas ruas da cidadezinha com um cesto enorme cheio de pães quentinhos às costas, deixando encomendas de porta em porta. Padêêêêro!, ó o pããããoo! diziam, numa voz soturna e melancólica que ecoava na madrugada. Mas quando o padeiro viu aquele vulto enrolado no lençol branco a gritar Ei, padeiro, peraí!, e a correr em sua direção, vindo do fundo das sepulturas, terrou os pés no mundo, de sorte que do portão do cemitério até à padaria no centro distante da cidade as ruas ficaram coalhadas de pão.
Sem entender nada, Dino catou uma ou duas bisnagas, comeu, e voltou à pedra dos insepultos.
E deu-se que pelas sete da manhã chegaram os dois homens encarregados de abrir covas e zelar sepulcros. Ao verem Dino enrolado no lençol sobre a pedra, reclamaram que o Sesp estava, que absurdo!, a mandar cadáver de indigente até de madrugada. Naquele tempo, quem morria sem parentes para reclamar o corpo no hospital era mandado enrolado em lençóis diretamente para a sepultura, sem o privilégio sequer de um caixão barato. E como chegava, era jogado com pano e tudo na cova rasa. Zangados e reclamões, os dois passaram à parte de trás da capelinha, onde havia uma trempe no chão. Cataram gravetos, acenderam, juntaram o pó torrado, e o cheiro do café, ao perfumar a manhã, penetrou até à alma de Dino. Agachados em torno do fogareiro, os dois não o viram chegar. Só ergueram a cabeça quando ouviram alguém pedir em voz rouca um cafezinho e viram aquele vulto branco e magro atrás deles, enrolado até à cabeça e com um pedaço de pão na mão. Na corrida, os dois derrubaram parte do muro ao saltar aos gritos para a rua detrás do cemitério, e dizem que até hoje não voltaram sequer para receber o salário.
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