Lúcio Flávio Pinto
As dificuldades deixadas pelos antecessores e sua composição heterogênea ainda
não permitiram que o governo Simão Jatene imprimisse sua marca. A previsão é
de que este ano seja consumido na arrumação da casa. Mas logo em seguida
haverá nova eleição. A perspectiva é crítica.
O primeiro trimestre de 2011 acabou e o governo Simão Jatene, do PSDB, a rigor,
ainda não começou. O governador pode alegar que nem poderia ter começado
para valer, conforme ele pretendia: a herança maldita deixada por Ana Júlia
Carepa, PT, vai pesar pelo menos durante todo este ano. O acervo de contas
a pagar, de compromissos pendentes, de desorganização na máquina estadual
e outros complicadores resultantes de uma das piores administrações que o
Estado já teve absorverão toda a energia e inventividade da atual gestão.
Só em 2012 ela poderá mostrar sua face e colocar em prática os seus planos e projetos.
O problema é que 2012 será mais um ano eleitoral: estarão em disputa as prefeituras.
Mais uma vez, Belém será um campo de batalha. O conteúdo dos candidatos em
potencial não traz novidade, mas a disputa deverá ser bem maior do que nos últimos
anos. O PSDB dispõe de alternativas expressivas para se contrapor a nomes como
Arnaldo Jordy, José Priante, Edmilson Rodrigues, Paulo Rocha (quem sabe, de novo),
Ana Júlia Carepa, mas elas poderão se desgastar até a campanha. É o caso de Zenaldo
Coutinho, que ocupou a estratégica chefia da Casa Civil, para se beneficiar dos
dividendos de estar tão próximo do governador, mas tem se desgastado pela sucessão
de problemas e incidentes ao longo do trimestre.
Descontados os discursos, até agora não foi possível descobrir diferenças entre
o derrotado (e desastrado) governo que saiu e o que entrou. Talvez porque o que
esteja prevalecendo seja o efeito residual da gestão petista, a opinião pública convive com
situações que pouco ou nada diferem da fase anterior. Não só pela “herança maldita”: retomando
o estilo que deixou em 2007 para a sucessora, Jatene repete os erros do primeiro mandato.
A começar por manter a rotina desgastante das assessorias especiais do seu gabinete,
um sorvedouro de recursos públicos dilapidados para acomodar interesses e servir a acordos
políticos – e de outra natureza. Esse setor da administração pública se tornou símbolo do
desmazelo e da conivência com o uso doméstico do governo para fins que nada têm a ver
com o bem coletivo. Os tucanos garantem que não chegarão ao limite de mais de dois mil
assessores especiais, recorde petista, talvez ficando muito aquém. Mas o mecanismo é
o mesmo: falta de justificativa para as contratações, sigilo nas informações a respeito
e desprezo pela opinião pública.
Embora pagando o preço por suceder um governo fraco, os tucanos podem ter que arcar
com um custo muito alto pela vitória, que só foi possível graças a acordos políticos
de todos os tipos. Por isso, é visível uma divisão entre uma parte técnica na administração
e outra política, com fortes características fisiológicas. Sem um comando competente,
capaz de resolver os muitos problemas do governo, Jatene não desfará os nós que herdou.
Mas ao ceder parcela considerável do poder a políticos empenhados apenas em obter
dividendos pessoais (e com um passado nada recomendável), pode experimentar
surpresas desagradáveis.
Uma delas já veio com a acusação de que seu secretário de assuntos estratégicos,
o ex-prefeito de Paragominas, Sydnei Rosas, recorreu a trabalho sob condições
degradantes em uma fazenda que possuía no Maranhão. A cabeça do secretário esteve
prestes a ser colocada numa bandeja, mas parece que ele conseguiu se explicar e superar
o problema. Mas pode ser uma vitória parcial. Outras situações semelhantes podem se
repetir. Para tentar enfrentá-las, o governador parece estar mais empenhado em
negociações de bastidores do que em impor sua figura à frente dessa equipe ainda
desencontrada e desigual. O governo, que ainda não começou, pode começar mal.