quinta-feira, 31 de maio de 2007
Riqueza econômica e pobreza social
Na quinta-feira passada, 23.5, a Fundação Vale do Rio Doce apresentou um estudo intitulado “Diagnóstico Integrado em Socioeconomia no Sudeste do Pará”, indicando que a região é, potencialmente, a mais rica do Estado.
Potencialmente é um termo dúbio, mais afeito a oráculos que a cenários: desde quando ainda galos cantavam nos quintais, eu ouço esta coisa de que o Brasil é um país com um grande potencial.
A pujança econômica do Sudeste do Pará é vista a olhos nus, se usarmos os mesmos óculos que Adam Smith usou quando escreveu “A riqueza das nações”.
A Vale do Rio Doce talvez queira que o contribuinte interprete os dados como tendo sido ela a grande responsável pela proximidade dos números do Sudeste paraense com os da capital, que ainda concentra o maior PIB do Pará.
Vai mais longe na bondade e dobra os sinos do progresso ao anunciar que isto não é nada perto do que virá: ,mais investimentos em projetos de mineração na região, farão com que o sudeste tenha crescimento médio de 20% até 2010.
A diretora superintendente da Fundação Vale do Rio doce, Olinta Cardoso, define o trabalho como “um grande esforço de mudança” que a CVRD está fazendo para o desenvolvimento econômico do Estado. O estudo demonstra o combustível da economia do sudeste paraense: agropecuária e mineração e, ao final, conta como a mineração é uma panacéia para a economia e para a distribuição de renda; os municípios da área sob influência dos projetos minerais da Companhia Vale do Rio Doce têm o maior PIB per capita do Pará.
Um estudo da mesma Diagonal, se encomendado para mostrar a miséria, a má qualidade de vida, o péssimo IDH e o espantoso passivo ambiental do Sudeste do Pará teria a mesma confiabilidade; afinal, pujança econômica e desenvolvimento humano não estarão na mesma proporcionalidade se o modelo estiver equivocado.
A Vale do Rio Doce, em que pese os investimentos feitos no Pará, e não para o Pará, está para o Estado mais ou menos como estava a britânica Companhia das Índias Orientais para a Índia colonial: tão poderosa na colônia que até tinha o seu próprio exército. Levou luxo e riqueza à Índia, mas somente para os ingleses que lá se instalaram. Os nativos e a plebe de sua majestade curtiam a miséria de estarem à margem do PIB imperial.
O Pará não soube elaborar uma agenda inclusiva na esteira da distração desenvolvimentista do seu Sudeste. A coisa ali se deu, de novo, à inglesa, na base do laisser-faire e, até hoje, a região é terra de ninguém: o Estado não chegou lá e só contabiliza o PIB.
A agropecuária é extremamente centralizadora de renda. A renda gerada pela mineração não alcança a massa populacional. Esta nem sabe o que são estes números divididos por um valor econômico, cujo quociente lhe dá uma renda per capita de R$ 7.000,00: alguém precisa lhe entregar este salário nunca visto.
A Vale do Rio Doce precisa fazer algo mais pela inclusão social do que estudos com números verdadeiros, mas de resultados inclusivos falaciosos.
A questão social não é responsabilidade exclusiva da empresa, que precisa dar satisfação aos seus acionistas com lucros, mas alguém precisa lhes dizer que responsabilidade social vai muito além de patrocínio de eventos e saraus. (Parsifal Pontes, Diário do Pará, 27.05.07)
Cada vez pior
Divulgado na última semana, o Índice de Desenvolvimento Social (IDS) do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) indica que a região Norte, entre 2003 e 2005, sofreu redução em indicadores de saúde e educação, destoando das demais. “Chegou a ocorrer uma involução da cobertura de esgoto na Região Metropolitana de Belém, como se a população tivesse aumentado e a rede de esgoto não', disse à Agência Estado um dos autores do estudo, Francisco Ferreira.
O IDS é formado a partir de dados de saúde, educação e renda da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, que vai de zero, a pior possibilidade, a um, a melhor.
Ferreira observa que as maiores desigualdades estão relacionadas à proporção de domicílios ligados à rede de esgoto. Enquanto essa proporção é de 8,3% no Norte, no Sudeste ela é dez vezes isso: 83,5% das residências são ligadas à rede. Por isso, acredita que investir em saneamento é um dos meios mais rápidos e eficazes de diminuir as desigualdades regionais.
Seguramente os dados divulgados pela Vale do Rio Doce não levaram em conta as análises do BNDES.
Direito no contexto regional
“A formação jurídica no contexto amazônico” é o seminário que a Universidade Federal do Pará realiza dia 12 de junho, a partir das 18h00, no auditório do Campus 1. Promovido pela comissão responsável pelo novo projeto político pedagógico do Curso de Direito e visa obter informações dos intelectuais e outros segmentos da região sobre o que eles pensam do ensino jurídico local, no que o curso deve centrar a sua formação, relacionando estes itens com a nossa cidade e região (violência urbana e rural, meio ambiente, grandes projetos etc.).
Integram a mesa redonda o agrônomo e ambientalista Raimundo Gomes da Cruz Neto (Cepasp), empresário Gilberto Leite (Associação Comercial e Industrial de Marabá), advogado Carlos Nunes, Procurador Geral do Município de Marabá, sacerdote e advogado Henry des Roziers (Comissão Pastoral da Terra), e o advogado e jornalista Ademir Braz.
“Vai virar lago”
O estudo feito pelo consórcio interessado na construção da Hidrelétrica do Estreito (entre Maranhão e Tocantins) não levou em consideração os impactos que a barragem pode causar em certas comunidades que vivem próximas do Rio Tocantins. "No primeiro momento, o estudo não considerou os indígenas como impactados. Os indígenas tanto Apinajé quanto Krahô não foram considerados atingidos pela barragem de estreito", assegura a advogada da CPT, Maria Trindade, explicando que as comunidades reivindicam um novo estudo de impacto ambiental. Este assunto foi tratado em audiência pública no início desta semana (28/5) quando a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados foi a Palmas, capital do Tocantins.
Segundo o líder indígena Antônio Apinajé, o estudo de impacto ambiental do consórcio levou em consideração apenas 6 mil indígenas enquanto estima-se que existam 20 mil indígenas e ribeirinhos vivendo na área afetada. Antônio acredita ainda que o governo precisa investir em outras fontes de energia e não deve construir mais barragens. "Tudo tem um limite. Por que o governo não investe em outras formas de energia limpa que não prejudiquem tanto o meio ambiente? Desse jeito o Rio Tocantins vai virar um lago", sugere.
Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara do Tocantins, deputado Luiz Couto, é preciso chegar a um consenso. Não se pode deixar de lado as reivindicações das comunidades, mas é preciso realizar as obras de infra-estrutura, previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Nós na tevê
O violeiro Roberto Corrêa vai apresentar-se na na TV Cultura, dia 10 de junho às 09:00h, no programa “Viola minha Viola”, de Inezita Barroso. No repertório, está a música "No Giro da Folia", feita em parceria com o nosso compositor Néviton Ferreira em janeiro de 2005 em Brasília (DF).
Dedo no gatilho
Ponto de vista do prefeito Denimar Rodrigues, de São Félix do Xingu, sul do Pará, em entrevista à Agência Estado, publicada no último dia 21 de maio: a reserva indígena Apyterewa, naquele município, desperta a cobiça de empresas madeireiras e de grileiros envolvidos com a especulação imobiliária. Mas, como Pilatos, Denimar Rodrigues “diz que esse é um problema do governo federal”. Não obstante, o prefeito já tomou partido: em Brasília, onde foi pedir ajuda, criticou a Funai e afirmou que os índios andam agitados e violentos, destruindo roças e queimando casas dos colonos, porque estariam sendo "incitados" pelo administrador do órgão em Altamira, Benigno Marques.
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Diagnóstico
A Fundação Vale do Rio Doce e a Diagonal Urbana Consultoria apresentam hoje à tarde (14hs), na estação ferroviária, escritório local da mineradora, o "Diagnóstico Integrado em Socioeconomia no Sudeste do Pará". Contratado pela Fundação e realizado pela Diagonal, o estudo - diz o convite - "proporciona a gestores públicos e sociedade civil acesso a informações que podem ser usadas para potencializar o desenvolvimento integrado e sustentável da região".
Presentes na apresentação, o consultor jaime almeida (Diagonal), Liesel Filgueiras (coordenadora da FVRD) e José Carlos Gomes Soares (diretor do Departamento de Ferrosos Norte da Vale).
Floresta em terra devastada
Oficialmente, ainda restam 50% de floresta dentro do perímetro do futuro Distrito Florestal de Carajás (que abrange 25 mil hectares entre Pará, Tocantins e Maranhão). Mas viajando pela área, é difícil acreditar no número. Quem pega a estrada de ferro da Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo, que liga a Floresta Nacional do Carajás (PA) ao porto de São Luís (MA), encontra pelo caminho uma terra onde impera o pasto, pontuada por algumas plantações de eucalipto ou paricá (uma espécie nativa de crescimento rápido). Se depender dos idealizadores da proposta, levada a frente pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), as pequenas plantações de árvores serão em breve mais presentes na paisagem. Entre os dias 14 e 18 de maio, uma equipe do governo federal visitou quatro cidades na região – Marabá (PA), Paragominas (PA), Açailândia (MA) e Araguatins (TO) – realizando audiências públicas para colher sugestões e críticas à proposta, que ainda pode se modificar. O procedimento não é obrigatório, mas serve para medir o grau de engajamento da população local. “Se sentirmos que não há aceitação, pode ser que o projeto não saia”, disse nas consultas Tasso Azevedo, diretor geral do SFB. A idéia foi recebida com algum entusiasmo entre empresários e políticos da região, mas com desconfiança por movimentos sociais. Ao contrário do primeiro distrito florestal implementado na Amazônia, na região da BR-163, o distrito de Carajás não se concentrará apenas na concessão de planos de manejo para organizar a exploração da floresta. O motivo é simples: aqui são poucas as árvores a serem manejadas. E o cenário atual não poderia ser mais desanimador para as que restam. A região é uma das duas únicas onde o desmatamento cresceu no último ano (a outra é a Ponta do Abunã,na divisa entre Rondônia, Amazonas e Acre), as indústrias siderúrgicas usam carvão vegetal produzido ilegalmente e o gado ganhou na última semana o estímulo de ser considerado livre da febre aftosa (o que lhe abrirá caminho no mercado externo). O que se pretende com o distrito é propor dispositivos que facilitem o reflorestamento, para uso econômico. Um exemplo é o crédito do BNDES, que incluirá um mecanismo para compra antecipada da madeira produzida (o produtor recebe o dinheiro ao longo do período em que as árvores estão crescendo). Também será criado um centro em parceria com a Embrapa para desenvolver pesquisas ligadas à silvicultura de espécies amazônicas. O SFB estima que seja possível plantar florestas em cerca de um milhão de hectares, a maior parte com espécies nativas, para produzir anualmente cinco milhões de metros cúbicos de toras para serragem e 17 milhões de metros cúbicos de madeira para carvão. Também haverá espaço para fruticultura e biocombustíveis, com ênfase em sistemas agroflorestais e agrosilvipastoris. Há intenção de ter como parceiros assentamentos rurais, que, segundo o projeto, deverão ter licencamento ambiental (coisa prometida pelo Incra em um Termo de Ajustamento de Conduta de 2003, que tem tido o prazo para cumprimento prorrogado desde o ano passado, já que pouco foi feito). O distrito comporta mais de 400 assentamentos, grande parte dos quais começa com a total derrubada da floresta nativa.
Carvão plantado
O Pólo Carajás é o maior produtor de minério de ferro do mundo. São 14 usinas num raio de 150 quilômetros, que consomem 14 milhões de metros cúbicos de carvão ao ano – três a menos do que o SFB estima ser possível produzir sustentavelmente. Hoje, pelo menos 60% desse total têm origem ilegal, marcada por uso de mão-de-obra análoga à escrava, com péssimas condições de trabalho. Com a imagem cada vez mais desgastada e tendo em vista operações do Ibama que apreenderam 200 mil metros cúbicos de carvão ilegal só no último ano (o que equivale a três mil caminhões), a perspectiva é que a produção seja atingida em breve. A falta de combustível legal tem deixado inquietos os produtores. “Não dá mais para viver nesse país”, reclamava ao fim da audiência de Marabá o presidente da Associação de Produtores de Ferro Gusa de Carajás, Afonso Albuquerque Oliveira.
Azevedo não vê muita saída para a crise, no curto prazo. Segundo ele, é provável que a produção diminua enquanto não houver oferta de carvão legal suficiente para suprir a demanda das indústrias. Associações de carvoeiros apostam na idéia do distrito, assim como o setor siderúrgico. Mas até que as árvores cresçam, lá se vão no mínimo sete anos de espera (no caso do eucalipto, por exemplo). Com isso, marca-se para 2015 a legalização do setor no nível atual de produção. Enquanto isso, (levando-se em conta o esforço do setor em abandonar a ilegalidade) há também possibilidade de que as empresas comecem a empregar carvão mineral (coque) no processo, um combustível mais poluente e caro. Outra opção será o corte do pouco que ainda resta de floresta fora de reserva legal em propriedades regularizadas.
Resistência A consulta de Marabá, no Leste do Pará, foi marcada por pedidos para que o distrito fosse aumentado. O governo do Pará propôs formalmente a inclusão de mais de 20 municípios. Já em Açailândia , na segunda rodada de discussões, aconteceu exatamente o oposto. A proposta foi recebida com desconfiança por movimentos sociais, que a viram como uma medida imposta à região pelo governo federal e criticaram o estímulo de espécies de rápido crescimento, como o eucalipto (conhecido por gerar impactos ambientais quando plantado em regime de monocultura). Também era clara uma certa desinformação quanto ao teor do projeto. “Isso é uma forma do governo seguir com as obras do PAC”, disse um representante de povos indígenas, Diego Janatã. Logo que a palavra foi aberta ao público, choveram reclamações indignadas. “As quebradeiras de côco de babaçu repudiam essa proposta”, dizia em alto tom a presidente da Associação Interestadual de Quebradeiras de Côco de Babaçu, Maria Adelina Chagas.
Para Adriana Carvalho, superintendente do Ibama em Imperatriz do Maranhão, a posição dos movimentos reflete o trauma da população local com uma série de grandes projetos do governo para a Amazônia, que sempre prometeram o desenvolvimento da região. “Na prática, só se refletiram em mais desigualdade social e degradação do meio ambiente”, diz. O clima da audiência foi “esquentado” por aparelhos de ar condicionado que não davam conta do recado e por cadeiras de plástico que, de tempos em tempos, cediam ao peso de seus ocupantes. Nada propício para uma conversa calma. O SFB quer que o distrito seja decretado na primeira semana de junho, pelo menos no que diz respeito aos estados nos quais as audiências foram mais tranqüilas. Mas Azevedo planeja mais diálogo com os movimentos sociais no Maranhão antes consolidar a idéia ali. “Nada impede que o estado entre depois”, diz ele. (Eric Macedo – O ECO)
P.S. - Os negritos são meus (A.B.)
domingo, 27 de maio de 2007
Babaçu: riqueza inexplorada
Uma das mais antigas referências ao babaçual existente na região de Marabá está no relatório da Viagem ao Tocantins do então secretário de Estado Deodoro Machado de Mendonça, no ano de 1926. Ao referir-se, pela primeira vez, à flora marabaense “uma das ricas e mais bellas da Amazônia”, o autor acrescenta que as palmeiras “contam-se por dezenas de espécies em todo o município, desde o assahy, a bacaba, o patoá, até o prodigioso babassú, de que há extensas florestas ao longo dos rios”. E prognostica que resolvido o problema do transporte, “o babassú constituirá a segunda fonte de receita do município, que já hoje o exporta em pequena escala para a praça de Belém, sobretudo no verão, finda a safra da castanha”.
Este mesmo relatório, de autoria não definida, dedica um capítulo inteiro á “riqueza inexplorada” do babaçu, que então espraiava-se em ambas as margens do Tocantins a partir de Arumatheua, e “infelizmente toda essa formidável fonde de renda jaz ainda improductiva ao longo do grande rio, à espera da resolução do grande problema tocantino e quiçá brasileiro – o transporte.”
Barruel de Lagenest, sacerdote francês e pesquisador que viveu em Marabá na segunda metade do século XX, também se refere ligeiramente à floresta de babaçu e ao raro aproveitamento de suas amêndoas. Não obstante, seu livro – Marabá, cidade do diamante e da castanha, publicado em São Paulo em 1958 – assinala que na cidade, à época, 73% das casas eram de taipa e coberta de palha.
O que Barruel não esclarece é que essa palha era tirada do babaçuzeiro, tanto para as paredes externas quanto para as divisórias internas e a cobertura da moradia.
Da palha do babaçuzeiro fazia-se também os abanos, as esteiras, os cestos para armazenamento ou transporte de mandioca, farinha, milho e outros produtos agrícolas desde a zona rural até o mercado consumidor na cidade. Brinquedos de palha de babaçu são feitos ainda hoje em certas regiões do interior do município.
De Tucuruí ao extremo sul do Pará, o babaçual ocupava uma longa e larga faixa no meio da floresta densa dos castanhais. Muito dessa vegetação extraordinária foi destruída, juntamente com as castanheiras, para a formação de fazendas de gado.
Importa dizer que a extração manual e o beneficiamento da amêndoa do babaçu foi uma atividade de pouco valor econômico: atendia mais ao consumo doméstico das famílias camponesas de origem nordestina, na forma de leite ou azeite, porque na culinária urbana predominava a gordura de porco.
Em 1976, em viagem à cidade de Tocantinópolis (então Goiás, hoje Tocantins) conheci a Tobasa – Tocantins Babaçu S.A. – que produzia e enlatava óleo e fazia bebida a partir do fermento da levedura existente entre a casca e o caroço do babaçu.
Na segunda metade dos anos 90 do século passado, com a crescente demanda de carvão vegetal pelas siderúrgicas no Distrito Industrial de Marabá, houve um início de carbonização dos cachos de babaçu – sua utilização menos nobre – para a redução do minério de ferro nos altos-fornos. O custo elevado da produção desse tipo de insumo parece haver desestimulado sua continuidade.
A indústria do babaçu seria uma alternativa excelente para a base produtiva do sul do Pará, se os investidores não tivessem olhos apenas para o umbigo do boi.
Já não é aceitável dizer que falta tecnologia para o beneficiamento em larga escala de derivados da castanha do babaçu quando, efetivamente, a produção dessas amêndoas é uma forte geração de emprego e renda principalmente para as trabalhadoras camponesas. O que não se permitirá é a exploração dessa mão de obra em trabalho semelhante à escravidão, como ocorre com os produtores de carvão.
Leitura complementar
As 985 mil toneladas de cascas do coco babaçu obtidas anualmente com o aproveitamento industrial de castanhas, no norte e nordeste, poderiam gerar o equivalente a 104 mW por ano, o que corresponde a 5% da matriz energética nacional. É o que revelou uma tese de doutorado defendida ontem (26) na Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp. Incluindo as cascas que as quebradeiras de coco jogam no mato, a biomassa de babaçu chega a 2,9 milhões de toneladas por ano, o suficiente para produzir 260 mW de energia em sistema de co-geração.
“O estudo demonstrou que a biomassa de babaçu é uma alternativa energética altamente viável”, diz o autor da tese, Marcos Alexandre Teixeira. De acordo com ele, o aproveitamento da casca do coco como fonte energética poderia ser adotado principalmente em centros comunitários de beneficiamento da castanha do próprio babaçu. O fruto ocorre naturalmente em toda a Amazônia Legal além dos estados do Piauí e Maranhão. Todos os dias, as catadeiras de coco deixam nas matas de 5 a 7 quilos de casca.
Segundo Teixeira, a tecnologia para geração de energia a partir do babaçu é a mesma usada em relação à biomassa de cana-de-açúcar. “São necessários apenas algumas ajustes nas caldeiras”, explica. Além disso, segundo o pesquisador, o babaçu apresenta como vantagem adicional uma densidade 2,5 vezes maior e um teor de umidade menor, de 15% a 17%, enquanto o teor de umidade do bagaço de cana fica em torno de 50%.
Isso significa que as cascas de babaçu armazenadas em um metro cúbico produzem 2,5 vezes mais energia do que o bagaço de cana e queimam melhor porque estão mais secas. “Outra vantagem é que o babaçu ocorre em abundância em áreas onde normalmente a cana não vai bem”, diz Teixeira. Segundo ele, trata-se de um sistema de geração de energia ecologicamente correto em locais onde a cana não é uma boa opção.
Na tese, orientada por Luiz Fernando Milanez, o pesquisador fez um cálculo custo/benefício, concluindo que a melhor alternativa seria produzir vapor de alta pressão a 4,56 Mpa (Mega Pascal) a 420 graus centígrados. Mega Pascal é uma unidade de pressão de fluidos que pode ser genericamente traduzida por força sobre a área. O vapor de alta pressão alimentaria as turbinas para gerar energia elétrica.
Teixeira conta que a energia gerada poderia ser usada na própria cadeia produtiva do babaçu, alimentando máquinas de centrais de beneficiamento, onde se extrai o óleo das castanhas. “Ainda teríamos um vapor de média pressão, que poderia ser usado no aquecimento da pasta de babaçu, para separar o óleo, usado na indústria, e a torta, fornecida como ração animal”.
Babaçu: Alternativa de Geração de Renda na Amazônia
Uma palmeira muito comum no norte do Brasil pode ser a resposta às preces do Governo, dos ambientalistas e dos moradores de áreas remotas da região amazônica. Graças a uma nova tecnologia denominada "aproveitamento total", desenvolvida na tese de doutorado de Edmond Baruque Filho, do Programa de Engenharia Química (PEQ) da COPPE, o babaçu (Orbygnia martiana) pode transformar-se em fonte de renda para a população e matéria-prima para a produção de álcool.
Enquanto as indústrias tradicionais de produção de óleo de babaçu só utilizam 7% do coco, através da tecnologia desenvolvida na COPPE os frutos da palmeira são aproveitados integralmente na produção etanol, óleo e carvão. A nova tecnologia vem sendo colocada em prática pela empresa. Fundada em 1970, em Tocantinópolis, a Tobasa é a primeira destilaria de álcool de babaçu do país a operar em nível industrial. Para implantar a tecnologia de aproveitamento total, a infra-estrutura da fábrica foi toda reformulada e o projeto concebido na COPPE, em parceria com a Tobasa, pelo próprio pesquisador.
Na contramão da história
Apesar de conhecido o potencial do babaçu como matéria prima para uma ampla gama de produtos, a palmeira continua sendo subaproveitada. Segundo Baruque, até hoje só se produzem, basicamente, óleo e torta extraídos das amêndoas. "Isso representa apenas cerca de 7% do peso do coco. O restante é desperdiçado"- critica o pesquisador, alertando para os resultados que a otimização da utilização do produto poderia representar em termos de economia em divisas ao País.
Atualmente o setor tradicional de produção de óleo de babaçu está passando por uma crise muito séria. Óleo de palma, conhecido no Brasil como dendê, importado da Ásia, tem esvaziado o mercado nacional. "Sem investimento ou política industrial relativa ao produto, o processo de produção ainda é muito artesanal e a maioria dos produtores não consegue competir com uma produção mecanizada e uma mão-de-obra muito mais barata" explica Baruque.
Mas o que é que o Babaçu tem?
Por conter amido, o babaçu é a única palmeira no mundo que pode ser utilizada na produção de etanol. Na floresta nativa é possível encontrar, em média, 200 palmeiras por Km2. Cada planta, sem receber nenhum cuidado especial, produz no mínimo 2,5 toneladas de frutos por ha/ano. Quando as plantas são tratadas, a produção chega a 7,5 toneladas por ha/ano. Para se ter uma idéia, uma tonelada de frutos processados resultam em 80 litros de etanol, 145 kg. de carvão, 40 Kg. de óleo e 174m3 de gás. "Se considerarmos toda a reserva disponível de babaçu no país, o potencial de produção de energia chega a 5 mil Mega-watts. O que equivale a mais de 10% de toda a capacidade de geração de energia de origem hidrelétrica no Brasil", ressalta Baruque.
O custo de produção de etanol do babaçu é elevado porque o amido tem que ser transformado em açúcar para poder produzir o álcool. Mas a experiência da TOBASA demonstrou que os outros subprodutos conseguem compensar este déficit, tornando este etanol competitivo e até mais rentável que o produzido através da cana-de-açúcar. O óleo de babaçu, por exemplo, é um produto muito utilizado na fabricação de cosméticos, gordura e sabão de coco, entre outros. O carvão e os gases são utilizados na geração de energia. Já a qualidade do etanol extraído do babaçu é tão superior à de outras fontes que este é utilizado até na produção de licores finos. "Parte da produção da TOBASA é destinada a estas indústrias", confirma o pesquisador.
Social e Ambientalmente Correto
Segundo Baruque, a exploração do babaçu pode ser uma alternativa para dois problemas cruciais da região amazônica: desemprego e degradação ambiental. A indústria do babaçu gera muitos empregos e sua produção é auto-sustentável, não ameaça o meio ambiente. "Esta palmeira não poderia entrar num processo industrial de produção, pois seu plantio não compensaria o investimento. Cada planta demora entre 12 e 15 anos para dar frutos". O babaçu é uma fonte energética renovável que apresenta balanço favorável entre a fotosíntese e a combustão, removendo dióxido de carbono da atmosfera e gerando oxigênio. O beneficiamento da palmeira representa um enorme potencial de geração de postos de trabalho para a população de áreas isoladas. "Só na TOBASA, considerada uma empresa de médio porte, foram criados 2050 postos de trabalho", garante Baruque. (Jornal Coppe 27/2/2003)
Só Jesus salva?
A invasão e ocupação por cerca de 600 pessoas do núcleo central da hidrelétrica de Tucuruí traz à tona uma série de questões, algumas que deveriam interessar à mais alta administração brasileira.
A UHE Tucuruí é um equipamento estratégico para a Nação, e em breve seus tentáculos chegarão ao extremo norte do país. Embora nos falte uma política mais agressiva de interiorização da energia ali produzida (a usina foi construída para alimentar prioritariamente a Albras-Alunorte, agregar insumos à alumina para exportação), mesmo de forma precária o "Luz para todos" está saindo do papel.
Sei que não existe eletricidade ali mesmo no entorno da hidrelétrica, mas a culpa é de quem - além dos sucessivos governos do Estado que fazem de conta que os mega-projetos aqui existentes na verdade foram implantados em Saturno?
Aterrador, mesmo, é a ausência de segurança numa empresa com tamanho significado para a economia e o desenvolvimento nacionais. Foi uma ação doméstica de terrorismo, sem dúvida, mas a facilidade de acesso ao coração da usina nos faz imaginar como seria desastroso se - em vez de um grupo de sem-teto - fossem terroristas treinados ou soldados de um país inimigo.
E as usinas nucleares brasileiras, construídas próximas de centros urbanos desenvolvidos, na costa do Atlântico, ao alcance de qualquer míssil lançado de um submarino nas águas territoriais?
Sabe com que instrumento se pode derrubar uma torre da Eletronorte? Uma simples chave de boca!
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