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quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O peru, o galo e o violinista

A mãe veio buscar as crianças para a ceia de Natal. A caçula, que mora com ela, estava comigo desde o anoitecer de sábado e divertimo-nos muito: ela, eu e seu irmão, meu parceiro, fomos à sala de internet cheia de adolescentes barulhentos e depois dormimos após filmes na televisão. Dia seguinte, tarde já da noite de domingo, trouxe-lhes um quilo de sorvete de chocolate branco, que eles comeram com alegria. Antes, eu estivera com aquela que é mais do que namorada e musa, ela de viagem arrumada para a manhã seguinte, véspera do Natal, rumo a familiares distantes. Já a noite de segunda, passei-a sozinho a ver os filmes que a amada deixou comigo e a olhar, de vez em quando, o belo e distinto violinista de metal reciclado com que me presenteou. Vez por outra ouvi fogos de artifício perto e distante sobre a cidade, pelo menos até ali silenciosa nesta parte do bairro sem ninguém nas ruas, bares fechados, viv’alma no trânsito, raras luzes em frente a raras moradias. Durante bom pedaço o celular estrilou seus recados, entre esses o de Tony Francisco com uma profunda conjetura filosófica: “Se é o peru que morre, por que a missa do galo?”, ao que propus tratar-se de uma reivindicação das poedeiras católicas atendida pela igreja porque o galo, que Deus o tenha, fora atropelado pela ambulância do Samu. Depois muitos amigos também mandaram mensagens, eu as respondi, e enfim o celular abandonou seus piados e considerei que todos se voltaram para si mesmos e os imaginei em suas casas ou em algum lugar com festas tenebrosas para celebrar o nascimento de um menino pobre, há dois mil anos, naquela manjedoura miserável. Natal bom, mesmo – isso é que é louvar o Senhor! -, foi dos deputados estaduais que legislaram em causa própria aumentando a verba de gabinete para R$ 37 mil mensais assim como elevaram para 45 o número de seus assessores parlamentares e cargos comissionados na Assembléia Legislativa, além de aumentar o recesso parlamentar de 55 para 70 dias. Nada mais agradável do que fechar o ano com a chave de ouro forjada com dinheiro público.

Que bicho mordeu seu Xico?

O município de Marabá, que jornalistas e cronistas do Sul Maravilha confundem com um terço do Pará, embora o Estado de Carajás continue como o reino de Preste João somente no cediço terreno do imaginário, há anos não anda bem na foto nem nos comentários do Brazil, que não conhece o Brasil. Em artigo recente sobre “Quadrilha rural”, o secretário Xico Graziano, de Meio Ambiente de São Paulo, escreveu o seguinte: “Duas regiões do Pará sofrem o banditismo no campo. Um foco está em Marabá, envolvendo os municípios de Parauapebas, Canaã, Curionópolis e Eldorado dos Carajás. Outro acomete Redenção, abrangendo Cumaru, Santana do Araguaia e Pau D’Arco. Cerca de 160 propriedades já contabilizam prejuízos de R$ 100 milhões. Neste momento, 27 fazendas, com 100 mil cabeças de gado, encontram-se dominadas pelas quadrilhas rurais. Em 17 de outubro último, relatório reservado da Polícia paraense descrevia assim a situação encontrada na Fazenda Colorado: “Ao chegar, ainda no asfalto, fomos recepcionados por oito elementos fortemente armados, com armas de grosso calibre, alguns encapuzados em suas motocicletas, dizendo textuais ‘o que vocês querem aqui, não é para entrar, vocês são conhecidos do dono da fazenda?’. Em ato seguinte relatamos aos meliantes, os quais não foram presos em flagrante delito pelo fato da equipe de policiais encontrar-se naquele momento em desvantagem numérica, que apenas estávamos passando pelo local e o que nos chamou a atenção foi a faixa colocada na entrada da porteira, e nada mais, posteriormente seguimos nosso destino. Amedrontados, acovardados frente aos invasores, os policiais temem especialmente a LCP, Liga dos Camponeses Pobres, que domina a região de Redenção. Treinada, dizem por lá, por gente do Sendero Luminoso, a organização não brinca em serviço. Se os policiais fogem do pau, imaginem os proprietários rurais.” Seu Xico, que já foi articulado defensor dos movimentos rurais em tempo não tão distante assim, diz contraditoriamente que “na região de Marabá, impera o MST”, permitindo que se possa imaginar este movimento como grupo de “bandoleiros fortemente armados (que) invadem fazendas, fazem reféns e expulsam moradores. Saqueiam e depredam, roubam gado, tratores, arame de cerca. Fazem barbaridades.” E acaba confundindo bandoleiros equipados com armas de uso privativo das Forças Armadas com a luta dos sindicatos rurais e do próprio MST por uma reforma agrária efetiva que incorpore esta região miserável no mundo organizado da produção. Afinal de contas, como seu Xico mesmo diz, “perto de 15% do volume da reforma agrária brasileira aconteceu naquele canto (o sul do Pará). Cerca de 100 mil famílias receberam terras nas centenas de projetos de assentamento. Mas, ao invés de acalmar, aumentou a violência rural.” Claro que ninguém defende o banditismo rural ou urbano, este, entre nós, atualmente o mais viçoso, traduzido nas dezenas de execuções sumárias sem que ninguém vá preso. Mas é preciso não juntar na mesma cova rasa os trabalhadores organizados e a jagunçada da auto-denominada Liga dos Camponeses Pobre (LCP), quase totalmente desbaratada numa ação fulminante da polícia militar do estado. Contudo, seu Xico parece não atentar para isso. Diz ele que nesta “terra sem lei”, onde “a insegurança jurídica sobre a propriedade fermenta a cobiça”, “a situação é apavorante”. “Grave, acima de tudo, afora o conflito real, é o governo estadual afirmar, calmamente, que está negociando com os “movimentos sociais” da região. Movimentos sociais? Ora, treinamento na selva, ordem unida, comando militarizado, logística de deslocamento, esquema financeiro, nada disso pertence à história dos verdadeiros movimentos sociais. O que se vê acontecer no Sul do Pará é puro banditismo rural. Gente criminosa, organizada, se disfarça de sem-terra para assaltar e roubar. Um logro para enganar a opinião pública.”

Monopólio

A Vale assinou contrato para exploração comercial, durante 30 anos, de 720 quilômetros da Ferrovia Norte Sul (FNS), compreendendo a linha ferroviária que ligará Açailândia, no Estado do Maranhão, a Palmas, no Tocantins. "O valor de R$ 739 milhões, pago nesta data, corresponde a 50% do valor da subconcessão. A próxima parcela, correspondente a 25%, está prevista para dezembro de 2008, enquanto a terceira e última parcela será desembolsada na data de entrega do último trecho da ferrovia", informou fonte da empresa ao Estadão. Adicionalmente, segundo o jornal, a mineradora deverá investir R$ 66 milhões na infra-estrutura da ferrovia (sinalização, oficinas, postos de abastecimento etc.) até 2010. "A participação da Vale nesse projeto constitui-se em demonstração efetiva do compromisso com o investimento em sua infra-estrutura e do País e está alinhada com a estratégia de seus negócios de logística de carga geral para clientes." É a expansão e consolidação da empresa, que já detém a exploração exclusiva da Ferrovia Carajás, como monopolista do transporte ferroviário nesta parte do país.

Tucuruí

A hidrelétrica de Tucuruí opera com 21,07% da capacidade armazenada, segundo dados do último boletim do Operador Nacional do Sistema Elétrico referentes à terça-feira, 25 de dezembro. Os reservatórios do Norte atingem 29,8% do volume, informa a Agência CanalEnergia, OeM.

Assombração

Morreu a matriarca de tradicional família de São Domingos das Latas e seus herdeiros decidiram dar-lhe uma despedida digna. Um dos filhos, fazendeiro, partiu cedo para Marabá em busca da melhor urna funerária que encontrasse. Encontrou-a na Cidade Nova, caríssima, mas ele não reclamou. Aproveitou e comprou logo todos os adereços: cruz de madeira, coroas de flores, velas, e alugou os apetrechos metálicos para o velório. Tudo em ordem, os homens da funerária colocaram a urna brilhante e pesada na carroceria de camionete e as peças no banco do carona. Descendo na direção da Nova Marabá, pouco antes da cabeceira da ponte do Itacaiúnas o fazendeiro freou para atender o cidadão que lhe acenava. Era um vizinho e amigo que há mais de semana tinha vindo à cidade divertir-se. E não perdera tempo, pelo visto: ainda estava bêbado; Queixou-se de estar liso e pediu carona para voltar. Ora, assim que o bêbado aboletou-se na carroceria, começou a chover e meteu-se ele dentro do caixão confortável, fechou a tampa e dormiu. O motorista ainda zanzou algum tempo pela Velha Marabá, debaixo da chuva, depois seguiu para o Km-06, onde o aguardavam seis ou oito trabalhadores que ficaram em compras de material para a fazenda. Embarcados, seguiram viagem para São Domingos na maior embalada. Mais ou menos à altura do km-12 da Transamazônica, a peãozada entreolhou-se desconfiada, alguns já com metade do corpo fora da carroceria, quando a tampa do caixão começou a mover-se. Então, quando o bêbado sentou-se de repente dentro da urna e perguntou “A chuva já passou?”, ninguém lhe respondeu. Dizem que até hoje tem gente perdida nas matas do Taurizin. (Histórias marabanesas, inédito)

Juvenil, o Inacreditável


Este é o último post do ano de 2007.
Retrato acabado, perfeito, fiel, da política paroara.
Emblema de uma Assembléia demagógica, populista, preguiçosa, de costas para a sociedade.
A imagem que assustou os funcionários da casa que a receberam ontem, 19, grampeada no contracheque do décimo terceiro, enviada pelo presidente da casa, Domingos Juvenil (PMDB), que conduz a rena na montagem hilária de Atorres.
Ridículo é pouco. Vai rodar a web.
Tem tudo para ingressar nos anais do anedotário político do estado, embora represente a escuridão que o aflige.
(Sugado do Quinta Emenda, de Juvêncio Arruda)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Sugado do blog do Waldyr

Cientista denuncia Vale

Lideranças camponesas e agricultores do sul do Pará denunciaram esta semana que a Vale vem adquirindo ilegalmente lotes de terras de assentamentos do Incra na região de abrangência do Projeto Onça Puma, de exploração de níquel, nos municípios de Ourilândia do Norte e Tucumã. “A empresa vem "persuadindo" agricultores a venderem seus lotes. Situação completamente ilegal. Há uma pressão para que o Incra desafete áreas destinadas à reforma agrária para que as mesmas passem a categoria de "terras para mineração". Se a questão não ganhar publicidade, tenho dúvidas que o Incra resista às pressões”, diz a cientista e pesquisadora Ângela Cordeiro em correspondência a João Pedro Stédile, liderança nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Ângela Cordeiro passou duas semanas de trabalho de campo no Pará, na região da Terra do Meio e imediações, e diz ter ouvido a denúncia dos camponeses. “As organizações locais estão fragilizadas, sem recursos e sem gente. Como a questão é muito delicada, as pessoas não podem ser expostas. Como você bem sabe, todo mundo corre risco de morte por ali”, diz a cientista. De sua parte, João Pedro Stédile repassou a informação às lideranças do MST no sul do Estado para dar visibilidade ao que vem ocorrendo. De certa forma, caso seja verdadeira a denúncia, a Vale parece repetir a mesma tática usada no entorno da Serra de Carajás, a maior mina de ferro do mundo, na região de Parauapebas, quando ela comprou dezenas de lotes de colonos residentes no entorno do garimpo de Serra Pelada, no início desta década.

Câmara aprova contratação irregular de pessoal

Em sessão extraordinária convocada pelo Executivo, a Câmara Municipal aprovou a toque de caixa, à noite de terça-feira, 18 de dezembro, projeto de lei que “autoriza a contração de servidores, em caráter temporário e em situação de excepcionalidade, nos cargos e funções de desempenho nos serviços essenciais, e indispensáveis à continuidade da prestação dos serviços públicos, e dá outra providência”, cujos efeitos retroagem a janeiro de 2005. A pedido da Comissão de Justiça, Legislação e Redação da Câmara – presidida por Ademar de Alencar e integrada por Júlia Rosa e Sebastião Ferreirinha -, o Procurador Jurídico-Legislativo Valdinar Monteiro de Souza emitiu parecer contrário à tramitação do processo, ao verificar, no mérito, que não estão especificados os cargos para os quais haverá contratação temporária de pessoal e, mais que isso, o art. 8.º do projeto de lei prevê efeitos retroativos a 2 de janeiro de 2005. “Entendo, por isso, que a matéria não se enquadra na permissão do art. 37, inciso IX, da Constituição Federal, qual seja, a de contratação de pessoal por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público.” Apesar disso, a Câmara aprovou o texto por 11 votos a 1, incluídos aí os de Ademar de Alencar e Júlia Rosa, da Comissão de Justiça; Apenas Sebastião Ferreirinha votou contra, justificando sua posição com amparo no parecer da Procuradoria, desrespeitado pelos seus próprios colegas de comissão. Segundo uma fonte, causa estranheza a remessa e aprovação desse projeto de lei porque a prefeitura não tem mais tempo, nestes oito dias que faltam para o término de 2007, de contratar temporários ainda neste exercício. “Possivelmente o objetivo é justificar, nas prestações de contas do Executivo ao TCM, a contratação de pessoal sem o permissivo da Câmara e sem concurso público nesses últimos três anos, assunto que deveria interessar ao Ministério Público do Estado”, sugeriu.

Marlon vai a julgamento em 2008

O fazendeiro Marlon Lopes Pidde deverá sentar no banco dos réus no primeiro semestre de 2008. Ele é acusado de ser o mandante da chacina de seis trabalhadores rurais na antiga Fazenda Princesa, às margens do rio Itacaiunas, neste município, crime ocorrido em setembro de 1985. O caso ficou conhecido a nível nacional e internacional, em razão da crueldade usada pelos assassinos para matar as vítimas. Os seis trabalhadores foram sequestrados em suas casas, amarrados, torturados durante dois dias e assassinados com vários tiros. Depois de mortos, os corpos foram presos uns aos outros com cordas e a pedras e atirados no fundo do rio. Somente uma semana depois é que foram encontrados. Os corpos só foram localizados mais de uma semana depois. Denunciado, e mesmo com prisão preventiva decretada, Marlon Pidde permaneceu 20 anos foragido. No final de 2006, uma operação da Polícia Federal o prendeu na cidade de São Paulo. Desde então, encontra-se recolhido em uma penitenciária de Belém, aguardando julgamento, segundo alguns, ou criando gado no interior de Jacundá, segundo outros. Desde que fora preso, os advogados do fazendeiro vêm tentando livrá-lo da acusação e da prisão através de recursos aos tribunais superiores. No último dia 12, o Superior Tribunal de Justiça, indeferiu recurso dos advogados de Marlon. Com isso, o julgamento pelo tribunal do júri poderá ocorrer ainda no primeiro semestre de 2008.

O caso Dezinho: impunidade?

O Juiz da Comarca de Rondon do Pará, Haroldo Fonseca Júnior, impronunciou o fazendeiro Lourival de Sousa Costa, o Perrucha, absolvendo-o da acusação de ser um dos mandantes do assassinato do sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, crime ocorrido no dia 21 de novembro de 2000. Na mesma sentença, o Juiz impronunciou também Domício de Sousa Neto, o Raul, que estava preso há cerca de um ano, acusado de ter ajudado na intermediação do crime e de ter fornecido a arma utilizada pelo pistoleiro Wellington de Jesus. Raul foi preso em uma operação da Polícia Federal no final do ano passado. Com a decisão, Raul foi posto imediatamente em liberdade. Segundo nota divulgada ontem por Fetagri, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon e Comissão Pastoral da Terra (CPT), o mesmo Juiz, um ano atrás, a pedido da promotora Lucinery Helena Ferreira, impronunciou o principal acusado de ser mandante do crime, o fazendeiro e madeireiro Décio José Barros Nunes, o Delsão. “Logo após a impronúncia de Delsão, a promotora deixou de responder pela Comarca de Rondon”, diz a nota. O promotor que assumiu em lugar de Lucinery, requereu a pronuncia de Perrucha e Raul, mas o juiz não acatou o pedido e absolveu os dois acusados. “Se dependesse apenas da decisão do juiz de Rondon do Pará, o assassinato do sindicalista Dezinho estaria na vala da impunidade. O único condenado pelo crime seria o pistoleiro Welingon de Jesus, preso pelo próprio Dezinho, instantes antes de morrer”, ponderam as entidades. Em relação à impronúncia de Perrucha e Raul, o promotor de Rondon ingressou com recurso perante o Tribunal de Justiça em Belém. Já em relação a impronuncia de Delsão, os advogados da viúva do sindicalista ingressaram com recurso contra a decisão do juíz ainda no início do ano. O processo foi distribuído para a Desembargadora Therezinha Martins da Fonseca. Enviado à Procuradoria do Ministério Público da Capital, o parecer do Órgão foi a favor do recurso e contra a decisão do juiz. O processo aguarda o voto da referida desembargadora. Caso o parecer da Procuradoria do MP seja mantido, Delsão terá que enfrentar o Tribunal do Juri.

A sindrome de Dorothy

Condenado duas vezes à mesma pena de 27 anos de prisão pelo assassinato da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, o pistoleiro Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, teve dia 17 seu segundo julgamento anulado pelas Câmaras Criminais Reunidas do Tribunal de Justiça do Pará. O novo julgamento não foi marcado, mas deve ser no primeiro semestre. Rayfran tem direito a novo júri porque no primeiro, em dezembro de 2005, foi condenado a uma pena superior a 20 anos. Ele está preso na penitenciária de Americano, juntamente com Vitalmiro Moura, Amair Feijoli da Cunha e Clodoaldo Batista, também condenados pelo assassinato. Regivaldo Galvão é o único que não foi julgado. Diante da anulação, o Comitê Dorothy e a CPT distribuiram nota apotnando que “a decisão dos desembargadores abrange apenas uma questão de ordem técnica processual, ou seja, um suposto erro do juiz no momento da quesitação. A decisão não tem nada a ver com a questão de mérito (se Rayfran é inocente ou culpado), isso não está em julgamento. A defesa poderá usar as artimanhas jurídicas que puderem mas temos a certeza de que se 10 vezes Raifran for a juri, 10 vezes ele será condenado”. Para as entidades, “a decisão do Tribunal é um passo atrás no processo de luta contra a impunidade e a violência no campo no Estado do Pará. O Estado é campeão de violação de direitos humanos no campo (assassinatos, ameaças de morte, despejos violentos, trabalho escravo, etc.) e decisão como essa só contribui para o agravamento da situação”. Entendem que um terceiro julgamento de Raifran aumenta o descrédito da sociedade com a atuação da Justiça paraense. “A sociedade decide pela condenação e o judiciário anula a decisão. Fica a impressão de que o Judiciário paraense está sendo complacente com a pistolagem, com o crime organizado no campo e com um réu confesso que assassinou uma missionária de 73 anos a sangue frio. O Tribunal se coloca na contramão da sociedade”, diz o comunicado.

Coisas de mulher...

Com o título acima, recebi do professor da UFPA Gutemberg Guerra o poema abaixo. Guerra atribui a peça à “autoria desconhecida”, mas não sei não!... E recomenda que eu mande para mulheres que precisam rir, ou para homens que possam lidar com essa realidade... Então, tá!... “Que mulher nunca teve/Um sutiã meio furado,/Um primo meio tarado,/Ou um amigo meio viado?/Que mulher nunca tomou /Um fora de querer sumir,/ Um porre de cair/ Ou um lexotan para dormir?/ Que mulher nunca sonhou/Com a sogra morta, estendida,/Em ser muito feliz na vida/ Ou com uma lipo na barriga?/Que mulher nunca pensou/ Em dar fim numa panela,/Jogar os filhos pela janela/ Ou que a culpa era toda dela?/ Que mulher nunca penou/ Para ter a perna depilada,/Para aturar uma empregada/Ou para trabalhar menstruada?/Que mulher nunca comeu/Uma caixa de Bis, por ansiedade,/Uma alface, no almoço, por vaidade/Ou, um canalha por saudade?/Que mulher nunca apertou/O pé no sapato para caber,/A barriga para emagrecer/Ou um ursinho pra não enlouquecer? / Que mulher nunca jurou/Que não estava ao telefone,/Que não pensa em silicone/Ou que 'dele' não lembra nem o nome?”/ E diz mais o Guerrinha: “Só as mulheres para entenderem o significado deste poema! Afinal, estamos em uma época em que, segundo as mulheres: “Homem dando sopa, é apenas um homem distribuindo alimento aos pobres”; “Pior do que nunca achar o homem certo é viver pra sempre com o homem errado”; “Mais vale um cara feio com você do que dois lindos se beijando”; “Se todo homem é igual, porque a gente escolhe tanto?”; “Príncipe encantado que nada... Bom mesmo é lobo-mau, que te ouve melhor, que te vê melhor, e ainda te come!”

Marabá - cidade refém

Será que existe motoqueiro que, em vez de moto, conduz outra coisa? Em Marabá, parece que sim. Pelo menos é o que se deduz da existência da Coopermar, que se diz “Cooperativa de Motoqueiros Condutores de Motocicletas Autônomos de Marabá”. Pois bem. Presidida pelo Sr. Francisco de Souza, a Coopermar é mais um item do caos em que se tornou o transporte público na cidade, cheia de mototaxistas, motoboys e outros “motoqueiros condutores de motocicletas” que florescem da noite para o dia neste avacalhado setor. No início deste ano, o Tribunal de Justiça do Estado ordenou que a prefeitura tirasse do trânsito todos os mototáxis, em vista da anulação da lei que os criou, e nada foi feito. Nivelados todos na mesma clandestinidade e sem qualquer fiscalização do DMTU, que esta semana se disse incompetente para fazer alguma coisa (até mesmo, presumo, para chamar a polícia), a turma sobre duas rodas faz o que quer. É por isso que a Coopermar se dá ao displante de tentar intimidar autoridades e constranger a população, como se verifica no expediente que encaminhou à presidência do Sindicom. Depois de esculhambar a prefeitura e o DMTU, Francisco de Souza comunica ao economista Paulo Lopes, presidente do Sindicom, que nos dias 14, 17, 18, 19, 20 e 21 de dezembro em curso “todos os motoboys (cerca de 300) estarão empurrando suas motos pelas ruas da cidade com suas esposas e filhos”, no sentido Nova Marabá-Maraba Pioneira e Cidade Nova de 07:00 às 10:00 hs e de 11:00 às 14:00 hs, “até que o DMTU libera as motos apreendidas sem cobrança de qualquer ônus e que o prefeito nos chame para conversar sobre o assunto em pauta”. Ou seja: o senhor, a senhora, que trabalham, pagam impostos, são assaltados ou têm suas casas arrombadas, vocês saiam da frente porque o trânsito e a cidade estão entregues à desordem.

Repasse

R$ 500 mil é o valor da última liberação do Ministério do Turismo para a Prefeitura de Marabá, por conta do convênio de urbanização da VP-08, orçado em um milhão de reais. Dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) do dia 14/12/2007

Avaliação

Resultado parcial da enquete “Como você avalia o primeiro ano do Governo Ana Júlia no Pará?”, do site “Pará Negócios” do competente jornalista paraense Raimundo José Pinto, sobre o governo de Ana Júlia Carepa até 18.12.07: Excelente – 12%; Bom – 3%; Mais ou menos – 6%; Ruim – 21%; Péssimo – 59%

Me larga, porra!

Num ônibus da Transbrasiliana, logo desses que passam um dia inteiro entre o Novo Horizonte e a Nova Marabá, imagine, um anão começou a escorregar de cima do banco e o vizinho de assento, solidário, o recolocou na posição. Mas lá pela quinta ou sexta escorregada, o vizinho solidário estrilou: - Qual é, cara? Será que você não consegue ficar sentado direito?" E o anão, na maior bronca: - "Porra, meu! Tô tentando descer há cinco paradas e tu não deixa!...”

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O muro da vergonha

Desde 1989 a área urbana de Marabá foi ampliada, por lei, do km-16 da BR-222 (além da subestação da Eletronorte) até metade do Distrito Industrial, e daí, pela margem direita do rio Itacaiúnas, até o km-9 da Transamazônica, onde fica a sede da Fundação Agroambiental do Tocantins-Araguaia. É muito chão encravado no espaço triangular resultante do instrumento legal. Nele estão todos os bairros de Morada Nova ao São Félix do Tocantins; a ponte rodoferroviária, a Nova Marabá, metade do DIM, todo o Complexo Cidade Nova, o aeroporto, a Vila do Km-8 da Transamargura, a Marabá Pioneira, metade da Praia do Tucunaré e o cacete a quatro. Pois agora, caso a Câmara aprove projeto de lei do vereador Adelmo Azevedo (PTB), esse mundão de terra deverá ser cercada inteiramente por uma parede de tijolos e concreto armado, construída e paga pela Vale (ex-do Rio Doce), ficando todos nós confinados numa fantástica muralha da China, noutro inominável muro de Berlim. O vereador Adelmo, o leitor conhece: é a maior e mais severa contribuição cultural do município de Viseu para o sul do Pará. Evidentemente há aspectos notáveis no seu projeto. Fechado o muro e construídos os viadutos previstos, tudo visando “proporcionar aos moradores dos bairros São Félix, Morada Nova e km-08, melhor qualidade de vida para seus filhos”, além de reduzir consideravelmente “o barulho do apito do trem”, poderão ser instaladas torres de vigia para controlar a entrada e saída das pessoas (os viados, pelos viadutos), num controle social efetivo que impeça a chegada de indesejáveis de outros Estados. O diabo é se os rejeitados, insatisfeitos, venham a seguir o exemplo bíblico e comecem a tocar trombetas à ilharga dessa muralha de Jericó e tudo venha a ruir sobre nossas honradas cabeças. Entre os aspectos negativos está a possibilidade de que, acrescentadas grades ao muro, o negócio se transforme em hospício; ou, caso coberto, inda mais com lona colorida, a gambiarra vire circo duma vez, e aí sim!, o Adelmo poderá exibir mais gostosamente suas roupas largas e coloridas e seus sapatos de bico comprido para a platéia enfeitada com nariz de plástico vermelho.

Educação: fórum volta a criticar Seduc

Integrado por UFPA, MST, Fetagri, Fata/Efa, Coopserviços, Lasat, CPT, Sintepp/Marabá e Semed/Parauapebas, o Fórum Regional de Educação do Campo voltou a divulgar esta semana documento em que reitera seu entendimento quanto ao descaminho do Plano Estadual de Educação (PEE), em montagem pela Seduc, desconectado da participação popular e sem afinidade com a construção de uma educação pública de qualidade no Estado. Diz a “3ª. Carta Pública à Seduc” que muitas vezes o Fórum ressaltou, junto aos representantes da Secretaria de Educação, a necessidade de serem reconhecidas “as dificuldades na coordenação do processo e as contradições da realização de um evento tão importante em curtíssimo prazo, algo que se colocava na contramão dos processos e experiências de gestão construídas historicamente pelos movimentos e outras administrações populares”, mas “as críticas não foram ouvidas”. Não obstante, o conjunto das organizações que compõem o Fórum deliberou pela sua participação e contribuição na realização de eventos municipais e regionais de elaboração do plano educacional. “Hoje, poucos dias a véspera da realização da Conferencia Estadual do Plano de Educação, depois de um período marcado pela total falta de informação sobre transporte, hospedagem e programação do evento, diz a carta pública, somos surpreendidos com a decisão do seu cancelamento. Outro fato que se coloca como agravante dos problemas que envolvem o processo e que nos causou surpresa, foi a informação, que nos chegou por acaso, sobre a realização na mesma semana de um seminário que objetiva discutir a reestruturação do Sistema de Organização Modular de Ensino (Some), denominado no interior do Estado como Grupo de Especial de Ensino Modular (Geem).” Para o Fórum, esse cancelamento da Conferência e a realização de um novo evento “confirmam nossas críticas e preocupações anteriores. A Seduc desrespeita o debate realizado nas plenárias e propostas apresentadas pelos delegados que delas participaram, principalmente em relação a educação do campo, pois não considera as reflexões e proposições que apontaram no sentido da reestruturação do GEEM ser assumida pela coordenação de educação do campo da secretaria e pautada pelos princípios que emanam das experiências pedagógicas desenvolvidas pelos projetos de educação do campo. A secretaria adjunta de logística escolar da Seduc continua responsável pelo ensino médio no campo; os sujeitos e organizações sociais do campo continuam alijados do processo de reestruturação do Geem; não há garantia nenhuma de que os princípios e diretrizes operacionais da educação do campo serão respeitas no processo de reestruturação; e as reflexões acumuladas por este fórum que, inclusive, mantém grupo de trabalho sobre o Geem socializadas na plenária regional, não foram consideradas. Por todos estes motivos, consideramos pertinente perguntar: “O que podemos esperar do plano estadual de educação?”

Batizado

A princípio pensei que o senhor da pastoral do batismo falava um dialeto nagô, tupi, ou recitava uma ladainha em northambrian. Na verdade, percebi depois, ele apenas chamava pelo nome as crianças que no dia seguinte receberiam o sacramento do batismo. E eram Cauã, Willis, Lindayany, Kayron, Kaylon, Williamys, Williame... E eu, que me chamo José, lembrava com nostalgia as Amélias, Marias, Antônias, Josefas (e as Rosas, Margaridas, Gardênias, moçoilas com nome de flor), e os Pedros, Gregórios, Joaquins, Ambrósios de tempos não tão longínquos assim. Felizmente meu afilhado já se chamava Vinícius, em bom latim a lembrar poeta romântico e a influência românica da última flor do Lácio, inculta e bela. No dia seguinte, domingo, chegamos à igreja do São Félix depois da missa e iniciada a cerimônia sacramental. Contrafeitos, agentes pastorais e o próprio sacerdote não ocultaram seu sentimento e pareciam dizer: “Que cristãos são esses que vêm à igreja consagrar seu filho e afilhado e não participam da missa, a sagrada comunhão de mortais com santos mártires e a gloria dos santos espíritos?” Nós, de nosso lado, evitamos explicar que Vinícius estava com aguda crise de pneumonia, sob medicação sem resposta adequada, isso de nada adiantaria, não era motivo para festa nem risos nem justificações. e tão grave era o momento que saímos correndo para a clínica onde Vinícius ficou internado por três ou quatro dias.

A César, o de César

O vereador Maurino Magalhães decidiu quebrar seus votos de silêncio e abre o jogo para este repórter: o projeto básico de engenharia para a construção da travessia urbana de Marabá, com duplicação, drenagem e pavimentação da Transamazônica na área urbana, assim como a construção de outra ponte sobre o rio Tocantins, foi realizado e materializado sob a sua coordenação, em parceria com o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit). Tem, portanto, DNA definido e paternidade reconhecida. Ao custo de R$ 75,6 milhões investidos pelo Dnit, mais a contrapartida de R$ 3,98 milhões da prefeitura de Marabá, o projeto nasceu no tempo em que foi gestor interino, tendo sido aprovado no Ministério dos Transportes em 24 de agosto passado, através da portaria n. 1.354, sob n. 50602.000884/2006-95. “Vale salientar, que o Ministério dos Transportes é gerido por uma das lideranças do PR, nosso partido, e tratei pessoalmente com o ministro durante audiência em Brasília”, diz Maurino Magalhães, exibindo documentos e mapas. Ele não disse, mas a iniciativa é contrapor-se ao deputado federal Asdrúbal Bentes (PMDB)vem fazendo do projeto, como se fora seu, um cavalo de Tróia diariamente na Rádio Clube, do Jader, e nos jornais locais.

Lixão dentro da cidade

O Ministério Público, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, qualquer um ou todos juntos deveriam ir ver o que a prefeitura de São João do Araguaia está fazendo com o lixo que esporadicamente recolhe nas ruas da cidade. É que tais resíduos sólidos, que vão de lixo hospitalar a toda sorte de porcaria, vêm sendo atirados dentro da zona urbana, a menos de 80 metros do hospital e não mais de 50 da margem da estrada de acesso ao centro da cidade. “Até caminhão limpa-fossa vem despejar sua carga nojenta aqui”, disse um morador da cidade, que pediu para não ser identificado. Ligados à tradicional família local, os donos do terreno asseguram que o prefeito Marisvaldo Campos simplesmente mandou invadir a área e transformá-la em depósito de lixo sem qualquer explicação ou negociação (que não seria aceita porque o lixão está no caminho de acesso à fazenda onde residem e o fedor é insuportável). Por isso, devem recorrer à Justiça em busca de indenização e remoção dos entulhos e saneamento da área, com vigoroso ônus para a desastrada administração.

Estádio novo

Anotem: a construção da primeira etapa do novo estádio de futebol de Marabá, objeto do convênio 573559 com o Ministério do Esporte, teve a liberação de R$ 500 mil (50%), em 21 de novembro recente. Agora, dia 4 de dezembro, saiu também um dinheirinho (R$ 30 mil) do Ministério da Educação – convênio 595689 – para a realização de eventos técnico-científicos no âmbito do Programa nacional de Apoio às Feiras de Ciências da Educação Básica. É o que informa à P&D o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi)

O concreto e o rio triste

Recebi da amiga e prof. Jucilene, há anos residente em Belém: “Oi, Braz, como estás? Sinto saudades de ti. Fui a Marabá, vi o bairro do Cabelo Seco, a Santa Rosa, e fiquei pensando: certas intervenções provocam melancolia... Onde estão as lavadeiras, as tábuas de bater roupa, os quaradouros, os moleques a carregar trouxas e fazer estripulias? Só vi concreto, areia e um rio que parecia correr cansado e triste. No burburinho de suas águas, ouvi um resignado lamento.”

Livre-pensar

O cara de Redenção considera um acinte dizer-se que uma cidade tem muro baixo só porque os pilantras e cafajestes desenvolveram a arte de voar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A arte de chupar casca de bala

Foi mais ou menos às oito e meia da noite de quinta-feira, 22 de novembro. Eu seguia a pé na direção da VP-07, uma das vias principais da Nova Marabá, não muito distante da minha casa e nas ruas muita gente aproveitava o luar à frente de suas casas. No Bar do Zé e no do Gaúcho, onde se vende boa cerveja e espetinho de carne e frango, famílias inteiras com crianças ocupavam mesinhas a conversar e a ouvir música. Somos por essas bandas uns moradores que saímos cedo para o trabalho e só voltamos no fim da tarde. Há militares, profissionais liberais, professoras, trabalhadores braçais, operários, motoristas profissionais. As vias internas são calçadas e se podemos nos queixar há de ser da Cosanpa, o maior de todos os infernos sartreanos, e da insegurança que produz assaltos a residências e a pessoas qualquer no meio da rua a qualquer hora do dia. Até às nove da noite há um tráfego regular na Folha 17, principalmente de fora para dentro do bairro, no retorno ao lar. Então naquela noite, 22 de novembro, ninguém estranhou a camionete preta que veio devagar na pista e estacionou bem no trevo em frente à escola fundamental. Poucos, de fato, prestaram atenção no veículo de cabine dupla, e entre esses um rapaz que imediatamente saiu correndo em desespero na direção do bar Fim de Tarde, lotado àquela hora, inclusive com crianças de colo em seus carrinhos e suas mães. Foi só quando estrondaram os tiros – três, espaçados, medidos, tenebrosos – é que todos começaram a correr. Assim que freara a camionete, o motorista desceu já de arma em punho e começou a disparar na direção do rapaz desesperado a fugir em ziguezague. Agora imaginem o terror daquelas pessoas tranqüilas, apanhadas no meio de uma saraivada de balas. Feita a sua arte, o pistoleiro saiu queimando pneus na direção da avenida principal. Sorte que, felizmente, os disparos não atingiram ninguém. Pouco tempo depois, o pistoleiro foi visto tranquilamente estacionado noutro bar muito freqüentado, do outro lado da VP-07, como se nada tivesse acontecido. Ainda hoje há quem espere alguma patrulha da polícia para apurar o tiroteio.

Estrebushismo na literatura do Pará

Salomão Larêdo, escritor e jornalista Estrebucham os que têm vergonha de ser paraense, de falar no Pará, de valorizar o que é nosso e continuam valorizando só o que vem de fora achando que o que temos e produzimos aqui não presta, não serve, não é bom e nesse sentido, certamente, estão redondamente enganados os adeptos do bushismo, embora tenham todo o direito de estrebuchar e estrebushar. Daqui desta Amazônia, da região norte, do Pará, continuarei defendendo o que é nosso. Refiro-me a literatura local. Continuo também defendendo a Feira do Livro do Pará que começou nos tempos em que a bibliotecária Valdéa Cunha era diretora de biblioteca da FCPTN e que se efetivava no espaço Ismael Néri, do Centur, faz tempo ( e depois virou, com outra numeração, Pan-Amazônica) há memória disso, é só consultar. Analisando tanto quanto pude, escrevi (em minha dissertação de mestrado em estudos literários a respeito do esquecimento que se dá ao escritor Raymundo Moraes, como metáfora do nosso proceder com tantos escritores de valor que temos) , que a UFPA, de há muito, aboliu a disciplina Literatura Paraense – recordo que o professor José Arthur Bogéa esperneou e telefonou aos escritores para que reagissem a essa tirania -, por entendê-la restritiva e já inclusa dentro do que se chama Literatura Brasileira e aí nomeou de expressão amazônica,sem dúvida, bonita, porém, nada nomeia se não identificar o estado, a localidade. E o mais grave, ficou sem ser estudada na graduação e na pós, pasmem ! Vamos assim, abolindo, deixando de falar, omitindo e não divulgando o que é nosso, do Pará, quando se trata de literatura, pois nas outras vertentes da arte até que não há tanto esse preconceito. E o Pará perde divulgação também através do açaí, da castanha, cupuaçu,do tacacá e outros produtos. Não defendemos, perdemos. Minha identificação: sou paraense que nasceu na Vila do Carmo, município de Cametá e ardoroso defensor da cultura da minha região e de meu estado, o Pará. Então sou adepto do paraensismo, sem nenhum tipo de xenofobismo. Amo o Pará e procuro defender o que é nosso e então nesse sentido, sou contra o separatismo, embora adepto do pluralismo cultural, do compartilhar, da interlocução, da diversidade. Logo, sou consciente das defesas que faço a respeito do Pará. Para mim, existe e vai continuar existindo a Literatura Paraense. Adoto o termo porque é uma forma de chamar a atenção do público aos escritores de nosso terra, pois estamos distantes do eixo sul/sudeste que destaca ,através de um cânone preconceituoso, de um lóbi de editoras,apenas quem quer. Existe sim, preconceito lá que começa aqui por quem tem vergonha de falar do que é seu e até de dizer que é do Pará. Somos e muito discriminados e há tanto preconceito porque somos caboclos parauaras do Norte.É uma luta constante que travamos contra tudo e contra todos que querem nos ver pelas costas, sem nos dar chance de mostrar o que produzimos, o que somos. Percebo que a situação é a mesma no Rio Grande do Sul. Leio matéria publicada na revista “Entrelivros”, deste mês de novembro, que tem por título – Literatura Brasileira – a ficção do sul profundo, em que Marcelo Backes, no lead, comenta: “conheça 11 escritores gaúchos, pouco conhecidos além dos limites regionais, que merecem atravessar a divisa do Mampituba”. Marcelo informa que “nas universidades, há disciplinas de literatura do Rio Grande do Sul [...] E sempre fomos gaúchos acima de tudo [...]. Estamos começando a nos mostrar solidários. Se a lenda dizia que um cesto de caranguejos baianos tinha de ser trancado rigorosamente porque uns ajudam os outros a subir, deixando-o vazio em poucos segundos, enquanto o cesto artístico de caranguejos gaúchos podia ser deixado aberto, porque assim que um subia o outro se encarregava de puxá-lo pra baixo, agora não é mais assim. Estamos começando a nos unir!”. E aí então o autor do texto começa a apresentar os 11 escritores e comenta que “alguns dos melhores autores continuam nas beiradas, ou às margens editoriais, midiáticas e geográficas”. E encerra comentando que “muitas vezes é na franja que um tecido se apresenta mais encorpado e complexo, e nós, o leitor, certamente não queimaremos a boca se comermos pelas beiradas o mingau da façanhuda literatura gaúcha”. Devíamos seguir o exemplo, nos unir e quem sabe, começar cavando ao menos uma matéria similar a essa que aqui citei. A lenda do cesto de caranguejo é muito conhecida no meio artístico paraense. Aqui, fez sucesso, o outro se morde, acha ruim e procura destroçar o outro, puxa mesmo para o fundo da lata ou do cofo. Nem solidariedade intelectual temos, com exceções, claro, é só lembrar de José Veríssimo, José Eustachio de Azevedo e do que reclamava Dalcídio Jurandir. É a união que faz a força. Os gaúchos nomeiam sua feira de livro de: Feira do Livro de Porto Alegre, como fizeram recentemente Manaus e São Luis e já fazem Frankfurt, Nairóbi, Paris, Bogotá, Curitiba, Parati, Bahia, Pernambuco e outros, todos, se ufanando do que é seu . Então, nomeemos assim a nossa : Feira do Livro do Pará. Por que será que para os adeptos do bushismo, é proibido, indevido, revela insensatez, mesquinhez, provincianismo, falar da Literatura do Pará ou Literatura Paraense? Livro, leitura e literatura são direitos também dos pobres e não apenas da elite, dos ricos, dos mandarins, dos donos do cânone literário, dos que se acham no direito de dizer o que serve,o que presta. Devemos deixar ao povo essa escolha democrática. A discriminação não é um caminho de transformação social. O escritor do Pará, o artista paraense, tem talento, produção e merece nosso estudo, nosso respeito, nossa estima e nossa divulgação. Viva a Literatura do Pará!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Vaqueiro

______________________ Ademir Braz Seu moço, a minha história não é de mais nem de menos: nasci na barra do vento, filho do deus sem memória. Mas não me queixo, seu moço: eu tanjo aquilo que posso; entre patrões e a boiada, sou bem melhor na laçada. Se assim viver não é vitória, que me importa a glória, essa novilha arredia? Tenho por lar e sustento o lombo da montaria, e sobre o chapéu de palha a luz de Deus me alumia. Eu não conheço outro mundo além dessas pradarias; e desses campos, seu moço, desse verde verdejante que não se farta de grande, visto a minha fantasia: eu não conheço outro mundo além dessas pradarias.

Lá dentro

O CD "Canto a Canto" de Dauro Remor e Néviton Ferreira, parceria com o poeta Ademir Braz, pode ser encontrado no site do também poeta e compositor Marcus Quinan (www.ladodedentro.com.br), loja virtual especializada na divulgação e comercialização da arte brasileira.

A morte de Dezinho faz sete anos

Nessa quarta-feira (22) completou-se o sétimo ano do assassinato do sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho, assassinado em Rondon do Pará, área de influência da BR-222 (ex-PA-70), em 2000. Dezinho era um dos mais conhecidos e combativos sindicalistas da região sudeste do Estado, dedicando sua vida na defesa corajosa dos direitos dos trabalhadores rurais, principalmente o direito ao acesso à terra e à Reforma Agrária. Inconformados com o que consideram “descaso do poder judiciário de Rondon” com o processo que apura este e outros assassinatos de lideranças camponesas no município, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura – Fetagri Regional Sudeste, a Comissão Pastoral da Terra – CPT diocese de Marabá, e a Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos – SDDH - divulgaram, na data, nota pública em que repudiam a impunidade e exigem a penalização dos responsáveis. “Se não fosse o próprio Dezinho – diz a nota - que, instantes antes de morrer, conseguiu segurar o assassino, o crime teria ficado totalmente impune, a exemplo de tantos outros sindicalistas já assassinados no sul e sudeste do Estado. Após sete anos, o único condenado pelo crime foi o pistoleiro Wellington de Jesus, preso pelo próprio Dezinho. A polícia do Pará nunca fez qualquer esforço para prender os principais intermediários do crime (Ygoismar Mariano e Rogério Dias).” Para as entidades, o principal acusado de ser mandante do crime, Décio José Barroso Nunes, o Delsão, “teve sua absolvição pedida pela promotora Lucinery Helena Ferreira e confirmada pelo juiz da comarca Haroldo Fonseca. Uma decisão escandalosa, pois, tanto o pedido da promotora quanto a decisão do Juiz reflete mais os aspectos ideológicos em favor do fazendeiro e contra os movimentos sociais do que os fundamentos jurídicos”. Em razão disso, os movimentos sociais que acompanham o caso ingressaram com um pedido de suspeição da promotora para que ela deixasse o processo por entender “que ela não possui isenção necessária para representar o Ministério Público na ação. Outro fato que causou surpresa aos movimentos é que a promotora Lucinery assumiu o processo semanas antes da sentença de pronúncia e, logo após seu pedido de absolvição do fazendeiro ter sido acatado pelo juiz ela deixou de responder pela comarca de Rondon.” No dia 09 de abril este ano, os advogados da assistente de acusação ingressaram com recurso no sentido estrito contra a decisão do Juiz de Rondon que impronunciou o fazendeiro. “Sete meses e doze dias se passaram e não há registro no Tribunal de Justiça do Estado da chegada do processo em Belém. Um total descaso da justiça de Rondon”, acrescenta a nota. O documento reitera também a paralisação de outros processos, como o que apura a execução do sindicalista Ribamar Francisco, há quatro anos, e o do trabalhador Reinaldo Félix, assassinado há 10 anos. “O fazendeiro Delsão é acusado de ter participado de outros quatro homicídios na cidade e não se tem notícia do andamento de nenhum desses processos. Com esses exemplos, fica a impressão para os movimentos sociais que, quando se trata de assassinato de trabalhadores rurais ou lideranças sindicais não há interesse nem da polícia e nem da justiça de Rondon em apurar”. Nesse contexto, e sem acreditar e sem esperar nada da justiça de Rondon, Fetagri, CPT e o STR de Rondon estão encaminhando os casos à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Com respeito a Dezinho, o governo brasileiro já foi intimado para responder e no caso Ribamar deverá ser intimado em breve.

Miúdas desventuras na terra do sol

Dona Maria Ester observou o reloginho de pulso mais uma vez. Entre 10:30h e 11:00h de uma segunda-feira, 4 ônibus passaram à sua frente numa única direção: um atrás do outro, seguiam apressados rumo ao ponto de partida na Folha 15. Há pelo menos 20 minutos D. Ester e outras 14 pessoas já esperavam o coletivo em frente à antiga companhia telefônica, antes que ela começasse a anotar a própria angústia de passageiro dependente e desprotegido. No período, mais de 20 mototáxis passaram devagar, apanhando fregueses inconformados, enquanto no abrigo – sujo e sem conforto – multiplicavam-se as comparações entre um e outro meio de transporte, com elogios para os motociclos embora o receio de utilizá-los por falta de segurança. “Deus me livre andar na garupa desses doidos”, disse uma velhinha. Nenhum táxi, é verdade, circulou por lá; é que em Marabá o transporte público regular ainda é uma Bastilha inexpugnável. Às onze, o coletivo embicou na curva em frente ao colégio estadual. Acolheu, sem pressa (passinho à frente, por favor!), os quase desesperançados moradores do cubículo imundo, juntou mais de duas dezenas de outros em frente à unidade de saúde e parou de vez, sem fôlego ou ânimo, apropriadamente à entrada da emergência do hospital. O céu estava cheio de fumaça e o hospital público lotado de crianças e idosos com infecção respiratória aguda causada por fumaça. (Como estariam os meninos sem-terra acampados no Incra?) D. Ester não sabe quanto tempo levou para retomarem a viagem nem se foi necessária a providência médica, mas acha que não demorou muito: o ônibus tossiu, rosnou, mugiu, trotou aos arrancos. No km-6, bem à entrada da Nova Marabá, o carro entupiu-se de gente. O motorista ainda sugeriu que parte da multidão esperasse, “atrás vêm ônibus mais vazios”, mas não deu certo: era fim de expediente, hora de voltar da feira. O vizinho de cadeira de D. Ester contou 4, 6, 8 sujeitos mal-encarados, muito juntos dois a dois, formando estranhas duplas siamesas. Todos de pé, olhos ariscos, uma das mãos ocupada com pasta de papelão e elástico. Espalhavam-se claramente de forma ordenada na patuléia espremida entre o motorista e o cobrador. Um deles – sarará com cara de mucura – parecia ter dormido num buraco de olaria entre gambás: sujo, fedia à longa distância. Quatro desceram às pressas no terminal rodoviário e às pressas tomaram outro coletivo. “Roubaram minha aposentadoria”, lamentou um velhinho. D. Ester, coitada, apertava trêmula a bolsa contra o peito. Tinha visto como um dos safados, Deus me perdôe, colava-se no corpo de um passageiro enquanto o outro bulia no bolso do coitado. Um pequeno tumulto formou-se dentro do coletivo, do que se aproveitaram os demais siameses para descer, inclusive o gambá com bigodes de arataia. “Bandido aqui, dá no meio da canela; só ontem contei 16 nesse mesmo horário”, dizia passageiro que acabara de subir pela frente. “E a polícia, cadê a polícia?”, indagava uma senhora. “Tá de greve, madame”, disse uma voz impotente. Não era verdade: a polícia militar desapareceu das ruas por qualquer outro motivo, não esse. Antigamente os guardas andavam de dois em dois, a pé ou montados, em patrulha. Diz-que depois da mortandade de Eldorado, em abril de 96, eles se afastaram não só do patrulhamento, mas de qualquer outra atividade, numa espécie de clausura imposta por inelutável força superior. A civil? Esta igualmente não se vê; sem carro, sem gente, sem armas, onde já se viu? Até à Cidade Velha, passageiros lamentaram a situação de insegurança na cidade. Domingo, no furdunço do Vavazão, mataram um a facadas, lamentou um rapaz; e ficou um silêncio de repente. De um e outro lado do bambual do aterro, entre as olarias e a lagoa, subiam labaredas. No horizonte, um avião lutava entre nuvens brancas e pesados novelos de fumaça das queimadas.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Pedra fértil

Pedro Castro é um anjo só riso e asas. Menino, corre em cadeira de andar e sobe nos telhados como um pássaro a assuntar os ventos. Tem Pedro Castro o pranto largo e a linguagem assinalada das coisas contidas nessas coisas do pranto e do amor como faces e peixes ocultos na ilha que o avaro e ciumento mar jamais revela. Se Pedro não existisse, careceria reinventar as árvores, corrupiões, guriatãs; recompor o que excede, mas não basta, a memória do chão e do rio que nos atam ao tempo, à terra mesopotâmica e amada, aos filhos que não tiramos do ventre seco das deusas. ( Ademir Braz, 09.11.2007)

Sábias palavras!...

Antes de desabar em mais uma coma alcoólica, o cara de Redenção entrou em transe e mandou um recado às jovens casadoiras da região: “Cabra que anda com gaiola, usa tamanco, assiste novela, cata arroz, diz “Xô, galinha!” e dá dinheiro pra mulher guardar... Xiiiii!... Pode largar que não presta.”

Açulando

Como quem não quer nada, volta e meia O Liberal tenta atiçar os órgãos de segurança pública contra a atuação de movimentos camponeses no sul do Pará. O pretexto é sempre o mesmo: a suposta Liga dos Camponeses Pobres, que até hoje por aqui ninguém sabe, ninguém viu. Nessa quarta-feira (14), o Repórter 70 sugere a requisição da Força Nacional “para acabar com os grupos que estão assaltando e saqueando fazendas” na região. Ora, grupos armados por aqui, e muito bem armados e organizados, só as quadrilhas que assaltam nas estradas. Esta semana mesmo, segundo a imprensa, pelo menos dez bandidos armados até com metralhadoras assaltaram um coletivo na Transamazônica.

Meio Ambiente

De 7 a 9 de março de 2008 será realizada em Belém a III Conferência Estadual do Meio Ambiente, cuja plenária, após os pertinentes debates e aprovação de resoluções, elegerá os delegados e delegadas do Pará que participarão da III Conferência Nacional do Meio Ambiente, a ser realizada em Brasília no mês de maio. Com o intuito de discutir a organização da Conferência Municipal do Meio Ambiente em Marabá e em outros municípios do Sudeste do Pará, o coordenador do evento, prof. Pere Petit, está convocando representantes dos movimentos sociais, sindicatos, ONGs e outras entidades que defendem os interesses e representam à sociedade civil de Marabá e da região, para a reunião que acontece nesta sexta feira, dia 16, às 17hs00 no Campus da UFPA em Marabá.

Pescaria

João, o pai, chamou o filho Luís e lançaram no Tocantins os espinhéis. O rio estava calmo, a pescaria uma sonolência, e bem mais tarde, quando os dois já cochilavam após terem atado a ponta da linha no banco da canoa, o menino sobressaltou-se com um socavão e acordou o velho. Era um peixe enorme, pressentiu o pai, recolhendo a poita para deixar a canoa solta, ao sabor da fúria apanhada no anzol. E tão enorme era o fisgado que arrastou os dois, noite a dentro e rio abaixo, até perto da corredeira do Capitariquara, enquanto o velho mal segurava o jacumã. Seja o que Deus quiser, rezava, enquanto o menino choramingava deitado no fundo da montaria. Muito, muito lá embaixo, o peixe fez um rodopio e voltou cortando água em velocidade espantosa. E do jeito que veio subiu a ribanceira, avançou pela rua central do povoado, atravessou a mata quebrando paus com estrondos, até livrar-se dos anzóis e desaparecer no meio do descampado. Durante anos especulou-se com espanto e terror na vila que visagem seria aquela – o nego d’água, a buiúna, ou a própria alma do Tocantins. Mas foi assim que se abriu o primeiro ramal ligando Itupiranga à Transamazônica. (Histórias marabanesas, obra ainda inédita)

A culpa é tua!...

Empresa de vigilância e segurança patrimonial instalada há mais de dois anos em Marabá teve suas atividades encerradas pela Delegacia de Policia Federal, a pretexto de atuação não autorizada. Tanto aqui quanto nas suas filiais, a empresa teve armas, munições e equipamentos apreendidos e recolhidos à unidade regional da PF. Tudo estaria posto em sossego se não fosse um porém. O setor competente da Polícia Federal está distribuindo, a empresários e pessoas físicas que contrataram da empresa seus serviços de vigilância nesta cidade insegura e cada vez mais violenta, um Auto de Notificação em que ameaça responsabilizá-los penalmente por haver contribuído “de qualquer modo, para a prática de crimes tipificados nos arts. 205 e 330 do Código Penal Brasileiro.” É como se cada empresa ou cidadão, ao buscar onerosa guarida privada por causa da ausência do Estado no seu dever de garantir a segurança pública, também fosse obrigado a fiscalizar se a empresa supostamente idônea e regularmente constituída está ou não autorizada por quem de direito.

MP altera acordo coletivo

O Sindicato do Comércio de Marabá (Sindicom) e o Sindicato dos Empregados no Comércio de Marabá e Sul do Pará (Sindecomar) entraram esta semana em nova fase de negociações em torno da convenção coletiva que vai reger as relações trabalhistas entre ambos até de 30 de julho de 2009. Este ano, há um elemento novo a ser considerado: a Medida Provisória n°. 388, em vigor desde 5 de setembro recente, alterou o art. 60 da Lei nº. 10.101, de 19.12.2000, e agora autoriza o trabalho aos domingos nas atividades do comércio em geral, observada a legislação municipal, assim como nos feriados, desde que acordado na própria convenção coletiva. Em razão disso, a cláusula que nos acordos anteriores suspendia o trabalho nos feriados nacionais e estaduais, foi acrescida, em Marabá, daquelas em que se comemora o aniversário da cidade (5 de abril) e seu padroeiro, São Félix de Valois (20 de novembro). Uma fonte disse que o sindicato dos comerciários estaria discordando da abertura dos estabelecimentos comerciais aos domingos e se mobilizando para que lei municipal seja criada neste sentido, com amparo no art. 30, inciso I, da Constituição Federal. Contudo, segundo a fonte, ancorada em parecer jurídico, se a jurisprudência é uníssona no sentido de que efetivamente os municípios podem legislar sobre o horário de funcionamento do comércio, “a legislação municipal não poderá conflitar com as normas federais ou estaduais”. O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) já fixou, através da Súmula nº. 419, que essa competência do município só ocorre no vario de legislação federal e estadual. “Qualquer lei municipal que regule o horário de funcionamento dos supermercados de forma restritiva, proibitiva ou condicionada, já nasce fulminada pelo vício da inconstitucionalidade”, diz o parecer técnico coletado pelo Sindicom. A convenção coletiva 2007/2009, com efeito retroativo a 1º. de agosto passado, dispõe sobre três faixas salariais distintas: a primeira, de balconista vendedor não comissionista a promotor de vendas; a segunda, de repositor de mercadorias a empilhadores; e a terceira, dos zeladores aos office-boys. Excetuam-se dessas regras as empresas com até cinco trabalhadores.

Camponeses querem unidade na luta

Proposta por organizações do Pará, Maranhão e Tocantins, reunidas na Via Campesina e outros fóruns de debates da região, diversas assembléias dos movimentos sociais da Amazônia estão sendo articuladas para o início do ano que vem. Segundo Charles Trocate, uma das lideranças do MST, “a Assembléia dos Movimentos Sociais da Amazônia é a forma que encontramos para criar unidade de análise, de lutas e de princípios, e que, embora distantes geograficamente, possamos organizar um sentido unitário de lutas na região.” Leia, a seguir, o inteiro teor da convocatória: Estimados Companheiros e Companheiras. A carta circular que escrevemos a vocês é fruto de uma reflexão coletiva de um conjunto de organizações que hoje compõem a Via Campesina Pará, Tocantins e Maranhão. Escrevemos para juntos propormos um espaço de debate e reflexão mais amplo do que esse por nós vivenciado nesse último período que é a construção da Via Campesina no Pará, Maranhão e Tocantins. Estamos avançando na compreensão dos desafios e no estímulo organizativo que as lutas devem ter, como forma de politizar a questão da Amazônia e os desafios atuais a serem enfrentados por cada organização. Sobretudo queremos sugeri uma metodologia de trabalho organizativo para o ano de 2.008 como um esforço conjunto para a realização da ASSEMBLÉIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DA AMAZÔNIA. Um espaço de debate e deliberação que extrapole o que já estamos construindo em nossos estados e em nossas organizações. Que seja um espaço da diversidade Amazônica, político, étnico e cultural, mais seja também um espaço da construção da unidade e da formulação das lutas. A rigor, o inimigo é único em todas as partes, possui diversas características mais o projeto de dominação é o mesmo. O nosso entendimento é que as Assembléias ajudarão a compreender os dilemas enfrentados na organização da luta dos trabalhadores frente aos inimigos centrais que hoje atuam deliberadamente no esmagamento dos interesses dos trabalhadores e da biodiversidade da região. Estão se tornando hegemônicas políticas e práticas de saque pelos governos e pela força brutal do capitalismo selvagem e imperialista em marcha na Amazônia. Como também as Assembléias ampliarão através do debate e reflexão o sentido da luta nesse momento conjuntural, que estimule uma ofensiva por nós debatida e organizada em todos os níveis. A luta da terra, da água, da floresta e da sociedade em geral. Certamente um segundo elemento que nos alertou para essa possibilidade é a realização do Fórum Social Mundial e a Realização do Fórum Social Pan Amazônico em Belém do Pará em janeiro de 2.009, daí, nossa preocupação de nos mobilizarmos para construirmos uma linha de enfrentamentos, hoje ignorados por amplos setores da sociedade. Temos como preferência reunir diversas organizações, Fóruns específicos, localizados ou não. Dirigentes, intelectuais militantes homens e mulheres e etc... que pautam suas lutas e tarefas no enfrentamento concreto, diário, ao modelo dos grandes projetos e do capital imperialista na região. O esforço que iremos fazer é impulsionar um espaço para aprofundarmos a análise política e a construção da estratégia e táticas coletivas. Esse espaço estamos chamando, de Assembléia dos Movimentos Sociais da Amazônia para irmos acumulando para além do Fórum Social Mundial que ocorrerá em 2.009 na nossa região. . 1. ENTEDIMENTOS IMEDIATOS O nosso cuidado primeiramente foi de formular uma linha de raciocínio, em que pudéssemos responder duas perguntas fundamentais: o que é a Amazônia para os Amazônidas? E que tarefas políticas devem desenvolver de forma permanente, a sociedade e os movimentos sociais da Amazônia? Dessas perguntas e outras tantas questões colocadas pelo padrão da luta política nessa região nos ajudarão a formular os desafios mais imediatos. A necessidade de construirmos um projeto de análise coletiva, do que somos e representamos; Onde estamos e quais são os bloqueios políticos que nos impedem de avançar na formulação teórica e construção de táticas de lutas que responda o atual nível de enfrentamento político e jurídico na região. Em síntese, formulamos essas questões como ponto de partida: 1. Toda luta política na Amazônia, independentemente da nossa vontade se transformará numa luta antiimperialista, o modelo de desenvolvimento agrário, mineral exportador hegemonizado pelo grande capital não permitirá o avanço de outra pauta, de um outro modelo de desenvolvimento econômico político e social. 2. As diversas frentes desse modelo, a pecuária, a soja, a madeira, o mineral, siderurgica e hidro-negócio estão impondo um novo comportamento jurídico sobre a região. Alimentam a idéia que são a direção moral política e intelectual desse novo ciclo econômico da Amazônia. 3. Que parte significativa da sociedade amazônida está cooptada e embrutecida por esse novo ciclo de desenvolvimento. Imobilizada por não portar uma visão utópica de si mesma, alienada do que poderia ser. 4. E por último em marcos mais gerais é que o campesinato, entendendo suas diversas vertentes, indígena, Quilombola, Ribeirinha e etc foram rebaixados da luta política, pelo excessivo grau de violência que sofreram. Ou porque suas organizações, suas táticas de lutas foram alcançadas pelo estado ou porque se retiram do conflito opcionado, ou não. Os camponeses na sua ação política cotidiana construíram com esforço e desprendimento enorme, suas organizações sindicais, suas federações e etc, assistiram nesse ultimo período essas organizações passarem da negação do inimigo ao consentimento do inimigo. A natureza institucional que essas organizações foram assumindo, de luta coorporativa e economicista, freou o projeto político emancipador, deixando-os órfãos no terreno do enfrentamento. Isso fez com que a burguesia agrária dessa região aliada ao capital impusessem-lhes sucessivas derrotas, rebaixando-os da centralidade da luta política da Amazônia. 2. ENTEDIMENTOS EM CURTO PRAZO Nessa perspectiva a análise que estamos formulando é que a nossa tarefa principal nesse novo período histórico é formar um novo bloco histórico de organizações camponesas na Amazônia. Um novo bloco histórico pressupõe a organização de três questões: a) Unidade de analise histórica e conjuntural; b) Unidade nas linhas políticas e de ação; c) principio de ação – que toda a luta produza conquistas econômicas culturais e sociais, que produza organização da classe trabalhadora e acumulo de força política para o projeto de sociedade que queremos construir. Porém, não se trata de travar lutas ideológicas e metodológicas com outras organizações camponesas indígenas e Quilombolas e Ribeirinhos, partimos do principio que é necessário fugir a esse preceito, porque estamos em um vasto território geográfico e político e que estamos fundamentado uma tática e uma estratégica já negada por determinados grupos e organizações. Pra que serve um novo bloco histórico? Para disputar a centralidade da política, com lutas e uma nova concepção de desenvolvimento político econômico e social na nossa região. O outro bloco histórico formado anteriormente e que hegemonizou a luta camponesa nessa região não tem mais disponibilidade para continuar o processo. Acham inclusive que já cumpriram sua missão histórica. O novo bloco histórico que se propõe, tem a tarefa de estimular uma analise política e histórica da nossa região e inaugurar novas formas de lutas. O esforço de gerirmos a construção desse espaço de debates e encaminhamentos que é a Assembléia dos Movimentos Sociais da Amazônia vem da clareza de que não podemos avançar sozinhos e mais do que em outros momentos as condições estão dadas. Percebe-se a disponibilidade das organizações e seus dirigentes, a clareza do nível de enfrentamento, por fim o momento histórico conjuntural que estamos vivendo. 3. METODOLOGIA DA ASSEMBLÉIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DA AMAZONIA. Olhando nossa região, a Amazônia Brasileira, percebemos as distancias que possuímos mais claramente, por isso estamos estimulando um calendário de reuniões primeiramente regionais e depois uma data para realização da grande assembléia. As reuniões regionais têm a tarefa de estimular reflexões e encaminhamentos políticos. Por isso construirmos os seguintes objetivos e aprofundamentos dos desafios; Objetivos: a) Cada Assembléia regional tem que ser Massiva (entorno de 300 participantes) b) Representativa das organizações das diversas regiões. c) Que estimule a análise política e encaminhamentos concretos das lutas. Desafios: d) O desafio da territorialização das organizações. e) O desafio da organicidade das organizações, das novas formas de lutas. f) O desafio da formação de quadros, dirigentes e militantes, para fazer avançar a luta política. g) O desafio das lutas em defesa da Amazônia por um outro modelo de desenvolvimento econômico e social. O calendário de reuniões que definimos segue a lógica das grandes regiões; a primeira reunião será em Imperatriz do Maranhão de 22 a 24 de fevereiro de 2.008, participarão as organizações do Sul e Sudeste e Nordeste do Pará. Tocantins e o Maranhão. A segunda reunião ser em Santarém de 25 a 27 de abril de 2.008; participarão as organizações do Baixo-amazonas, Transamazônica e do Estado do Amazonas. A terceira reunião será em Rondônia; de 27 a 29 de junho de 2.008 participarão as organizações de Rondônia, Acre, Roraima e Amazonas e Mato Grosso. E por último a grande Assembléia dos Movimentos Sociais da Amazônia com (500 participantes) em Belém de 28 a 30 de novembro de 2008, que será resultado dos debates anteriores nas regiões. OBSERVAÇÕES; Em cada região, as organizações locais têm a tarefa de assumir a construção das Assembléias, a infra-estrutura e todo o material pedagógico. Um coletivo de dirigentes e militantes acompanharão todas as Assembléias regionais, como forma de ajudar a dar organicidade aos debates e os encaminhamentos gerais de cada assembléia regional. Esperamos sinceramente com essas idéias expostas possam avançar na construção dessa jornada de debate, que julgamos importante para a articulação da luta política na nossa região. Contra o Imperialismo; Soberania Popular na Amazônia! Marabá 15 de novembro de 2.007

Com aftosa, pode?

Está no informativo da prefeitura: "As secretarias municipais de Agricultura e Saúde aguardam para esta quarta ou até sexta-feira uma nova decisão judicial do Tribunal de Justiça do Estado acerca da inspeção e fiscalização da carne bovina comercializada em Marabá, suspensas por decisão da juíza Maria Aldecy Pissolati. Segundo a juíza, a carne deve ser vendida sem inspeção, obedecendo ao costume da população, não devendo essa prática ser suspensa abruptamente como desejam os órgãos de inspeção/fiscalização. A decisão contrariou o serviço de inspeção e o Ministério Público do Estado que também, a exemplo da Prefeitura, entrou com ação no sentido de revogar a decisão de Maria Pissolati."

sábado, 10 de novembro de 2007

Alforge

Arrumo os livros, consulto a agenda, defino o trabalho (farejo na pele seu cheiro de musgo). Assim me conduzo à triste jornada (ainda a verei?) dos dias que chegam. Choro sobre o café da manhã. (Ademir Braz)

Canção para ela

Aquela estrela matinal, aquela igual ao brilho da janela dos teus olhos, quando me olhas, é kaaru mbija entre as folhas da selva e o céu guarani. Dela nasceu por ti esta nova canção que espalha teu amor bem-vindo a soletrar-me num arranjo infindo, nesse dizer-se que te quero tanto, mais que a lua, és o meu encanto, desaprendi a solidão. Ah, minha amada, ouve minha voz! maior que o oceano, o amor em nós é uma lua cheia em noite de verão. (Ademir Braz)

Pela perda da inocência

A cada vez que em Marabá ocorre um crime que chama atenção pela barbaridade e por ter acontecido de uma forma mais pública, a cidade fica num estado de “deus nos acuda”, em vão. Mas por que em vão?. deverão me perguntar os “inocentes”. Porque os apelos não são capazes de chegar a sensibilizar os deuses da desgraça. Hoje, a guerra e as desgraças fazem parte da mais recente estratégia de acumulação capitalista. As armas e as bombas são mercadorias, assim como o arroz e o feijão. Precisam ser consumidas e comercializadas para gerar riquezas para poucos, e para tanto precisam cada vez mais de um mercado garantido. Como os Estados Unidos tratam o planeta e, especialmente, o Brasil? Como seu grande espaço de manobra para garantia de sobrevivência de sua economia. Que todos países possam receber seus produtos e conceder-lhe o direito de apropriação dos recursos naturais (petróleo, carvão, minério...). Os EUA tratam os governos dos demais países como capachos. Os países se tornam cada vez mais vulneráveis, por negociarem suas soberanias. Mas não é só por isso que os países se tornam vulneráveis, mas também pelas suas políticas internas. O que faz o governo brasileiro para manter-se no cargo? Alianças. Com quem? Com a escória da política brasileira. Passando por calheiros, sarneys e barbalhos. O PT precisa cada vez mais de delúbios. Os governos não estão preocupados com a organização da sociedade de modo a garantir harmonia e tranqüilidade para a população. A ordem do dia é desenvolver planos estratégicos que possibilitem suas permanências por um longo período na condição de governo. Tudo se torna fantasia e de caráter publicitário. Mas tudo isso faz muito bem para uma pequena parcela da sociedade, que concentra a riqueza gerada pelos trabalhadores. Parcela esta que concentra poderes, define políticas e gerencia o Estado brasileiro, enquanto o governo ocupa seu tempo com o gerenciamento e manutenção de cargos. É pura ignorância acreditar que a democracia burguesa seja capaz de atender os anseios da população pobre e desamparada. Esta população ainda tem que lutar muito pelas transformações necessárias para construção de uma outra realidade. Tem que deixar de acreditar nas ilusões espalhadas pelos politiqueiros. Sem transformações radicais, os pobres e desamparados só tendem a aumentar. Nos últimos cem anos a população mundial passou de 1,6 para 6 bilhões de pessoas. Para ser mais claro: passou de UM bilhão e SEISSENTOS MILHÕES para SEIS BILHÕES de pessoas. Deste universo da população, 850 milhões são ricos, 2,75 bilhões são de pobres e classe média, e 2,4 bilhões são de miseráveis, para os quais o mundo capitalista já tem como fora da humanidade, considerando que para estes só resta a morte. Percamos a inocência e vamos à luta. (Raimundo Gomes da Cruz Neto)

Gente fina

Ele é uma simpatia, o cara de Redenção. Inteligência aguda, excelente humor, filósofo primoroso. Eu não sei de onde veio nem o que ele faz, além de viver discretamente bêbado nos bares da cidade. Tradição de família, segundo ele. É que o pai do pai do pai do cara de Redenção errou de garrafa certo dia e suas últimas palavras foram “Puta que pariu!” Recentemente, o cara de Redenção disse, do alto da sua sabedoria turbinada, que aguardente com unha de caranguejo impede o câncer de próstata e a caspa. Ele sabe o que diz.

Xô, corrupto!

Dia 19 de novembro, uma segunda-feira, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) lança os Comitês contra a Corrupção Eleitoral, envolvendo todas as seccionais do País na campanha “Voto não tem preço, tem conseqüência”. O objetivo é alertar o eleitor para a importância de eleições transparentes e a denúncia de irregularidades praticadas por candidatos. A Lei n. 9840, de 28.09.1999, que ampara os comitês, foi a primeira aprovada no Brasil resultante de Projeto de Lei de Iniciativa Popular, ancorado em abaixo assinado com mais de um milhão de assinaturas dos eleitores, colhidas em campanha encetada pela CNBB, OAB, CUT, Força Sindical e outras entidades civis. A lei dispõe que constitui captação de sufrágio o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de mil a cinqüenta mil Ufir, e cassação do registro ou do diploma.

Cozinhando galo

Os bastidores da sucessão municipal “andam como uma galinhada mineira, que se põe no fogo à noite inteira para o almoço do dia seguinte”. A comparação, deliciosa e apropriada, é de um cidadão que, por viver no meio, sabe o que diz. Há mais disse-me-disse do que fatos, segundo ele. Assim, vive-se em Marabá uma espécie de dança (um passinho pra lá, dois pra cá), ao som do velho piano de saloon, antes que cheguem as dançarinas airadas e os vaqueiros empoeirados e sedentos. É a paz que antecede o tiroteio.

Privilégio?

Leitor e colaborador histórico, residente na Cidade Nova, manda dizer como anda o trânsito em seu bairro. “O DMTU – diz ele - tomou uma decisão no mínimo arbitrária, visando exclusivamente beneficiar o Supermercado Alvorada/Cidade Nova, não se sabe a pretexto de quê. Para facilitar a descarga dos caminhões no depósito dessa empresa, o departamento promove diariamente uma bagunça na rua Frei Raimundo Lambezart: proibiu o estacionamento de carros no lado direito, sentido Sesi, o que é correto, mas liberou estacionamento no lado esquerdo. Ou seja, o que era legal virou infração e vice-versa. Como uns baixam a cabeça e obedecem e outros não, vêem-se carros estacionados dos dois lados da rua. E haja multas e haja bate-boca entre condutores e guardas do DMTU. Se o prefeito Sebastião Miranda não sabia, a partir de agora sabe, porque ele e sua assessoria têm esta página e seu blog como leitura obrigatória. Logo, o mínimo que deve fazer é revogar o “favorzinho” e mandar cancelar as multas aplicadas em razão desse absurdo. Se eu bem conheço o Tião, ele vai fazer isso”.

A relação dos submissos

“Companheiro Ademir Braz: Fiquei maravilhado com o conteúdo da tua página no Correio do Tocantins, de número 1.672. Primeiro, por ver como tu estás bem na produção poética, o que precisa ser publicado, e deves continuar publicando. Os lúcidos não sobreviverão com tanta mediocridade que está por aí. Segundo, a realidade de Tucumã e Ourilândia, que nada mais é do que o resultado de uma política nefasta que atinge toda esta região, a Amazônia e os países da América Latina, África e Ásia, onde ainda existem os recursos naturais (minérios, energia, água...) que o centro capitalista procura se apropriar. Mas por fim, gostaria de tecer alguns comentários sobre as perguntas que o seminário promovido pelo Estado do Pará deveria responder, que está na tua matéria denominada “Modelo Mineral questionado”. Como estimular as produções menores, que envolvem um maior número de produtores? Isto não é possível, porque o Estado não define mais políticas, quem as define são as grandes empresas. O Estado se submeteu ao papel de implantar infra-estruturas, financiar e oferecer incentivos fiscais à expansão do capital, reduzindo os investimentos em educação, saúde, cultura e lazer. Como fazer com que a relação com as grandes mineradoras se dê de forma mais ampla, com mais vantagens, por exemplo, para o entorno das áreas de exploração? Ora, não existem grandes mineradoras, só existe uma, a Companhia Vale do Rio Doce. E com esta a relação é de submissão, porque é ela que financia parte das campanhas dos(as) atuais eleitos(as), de deputados a governador. E, por último, como mapear todo o setor, identificar os gargalos e elaborar uma política de Estado que desenvolva todo o setor? Isto, sim, o Estado faz, porque é a sua função diante do que impõe o capital. Usar dinheiro público para possibilitar a intervenção dos interesses privados. Por tudo isto é que devemos procurar compreender e apoiar a iniciativa do MST em desenvolver acampamento ao longo da ferrovia. Porque só a sociedade civil organizada e disposta à luta será capaz de questionar a intervenção capitalista e imperialista nesta região e neste país. Vamos à luta!” (Raimundo Gomes Neto)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Deus protege os bêbados e os poetas

A sequência de fotos cobre a homenagem que professores e alunos da Escola "Jonathas Pontes Athias" prestaram a este poeta durante a "IX Galeria do Conhecimento", espécie de feira de ciências que este ano reuniu 22 temas - da Amazônia ao aquecimento global - trabalhados por 120 dos seus 1.500 estudantes.
A homenagem foi coordenada pela professoras Sandrelli e Helcineide e realizada pelos alunos do 7 ano B (6a. Série). A apresentação do homenageado foi feita pela diretora Tereza. A seguir, houve dramatização de textos, declamação de poemas, e o aluno Lucas Paraguassu, de 12 anos, personificou o poeta relatando fatos de sua existência.
Inesquecível!

“Nem estrangeiros, nem famintos”

Acampados há mais 20 dias à margem da Estrada de Ferro Carajás, da Companhia Vale do Rio Doce, n assentamento Palmares II, município de Parauapebas, sudeste do Pará, trabalhadores rurais avulsos ou assentados, garimpeiros e campesinos vindos de várias regiões resistem às pressões e lutam por cidadania e dignidade. Nesta quinta-feira, 1º de novembro, distribuíram manifesto em que expõem os principais itens da sua pauta de reivindicação e avisam “A reforma Agrária é problema do Estado brasileiro e de quem impõem o agronegócio. Não aceitaremos mais esse modelo de exportação e de acumulação de riqueza baseado na morte da nossa biodiversidade. Queremos resolvida a desapropriação dos latifúndios que praticam violência, trabalho escravo e crime ambiental. Não aceitamos mais a representação política do congresso nacional.” Leiam, a seguir, a íntegra do documento: MANIFESTO DAS FAMÍLIAS SEM TERRA ACAMPADAS ÀS MARGENS DA ESTRADA DE FERRO CARAJÁS Escrevemos a vocês do acampamento às margens da Estrada de Ferro Carajás-Ponta da Madeira, no Assentamento Palmares II no município de Parauapebas no sudeste do Pará. Estamos em milhares, vindos de outros acampamentos, do garimpo, de lugarejos distantes, dos assentamentos, das cidades, das periferias, enfrentamos as terríveis contradições do modelo imperante da fronteira. Não somos estrangeiros e nem famintos ainda que a miséria seja algo sempre insuportável, estigma que os dominantes utilizam sempre para nos deslegitimar, dispensamos tratamento desse nível, tacanho preconceito e vil obscurantismo cultural. O que queremos? Numa única palavra, exercer soberania sobre nossas riquezas. Decidimos ser gente, cidadãos nessa região onde o capital quer que seja apenas sua fronteira em expansão! Por isso, enfrentamos os impasses da terra, da floresta e das águas. As negações de direitos. Os agiotas. O Estado. Os governos. Os Tecnocratas, que seqüestram pela força e violência a nossa soberania e vendem para o capital internacional nossa região. Vivemos a mercê das circunstancias no segundo maior Estado da federação, região norte do país. Para o mundo, a Amazônia maior área de floresta nativa do planeta hoje impactada por projetos econômicos altamente erosivos à sua biodiversidade. Aqui estamos mobilizados a mais de 20 dias na –Jornada de luta pela Reforma Agrária e em Defesa dos Recursos Naturais do Povo Brasileiro. Escrevemos para que nos ouçam e recoloquem a verdade onde ela foi deturpada, desmoralizada. Saibam, o que chega sutil dos centros de poder é o que esmaga silenciosamente. É o que nos faz ignorar, comungar pela coletividade o que é justo e verdadeiro. Os meios de comunicação social e a direita ideológica desse país satanizam a pauta política dos trabalhadores, suas formas de luta e resistência.. Ensinam à sociedade que não é assunto de Sem Terra, de Garimpeiros, estudantes, pequenos produtores e aos pobres: o funcionamento da economia, a instabilidade política, a lei de patentes, as sementes geneticamente modificadas, as altas taxas de juros, o neoliberalismo. Ensinam à sociedade que não é assunto de Sem Terra, de Garimpeiros, de estudantes, dos pobres: à extrema desigualdade social do povo, a soberania nacional, a bolsa de valores, os destinos da nação, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, o aquecimento global, a agricultura e a defesa da Amazônia. Estamos fartos das mentiras e anunciamos: 1. A nossa pobreza é um problema do Estado brasileiro e de quem governa suas instituições. Queremos que seja resolvida e não aceitamos mais saídas individuais. 2. A nossa fome é problema do Estado brasileiro e de quem manipula em favor de uma classe social - a burguesia -, toda a riqueza. Queremos resolvido o desemprego e não aceitaremos mais o nervosismo do mercado e do capital internacional determinando sobre o destino do povo. 3. A nossa ignorância é problema do Estado brasileiro, da elite medíocre e subserviente. Não aceitaremos mais as altas taxas de juros, a ditadura do modo de vida capitalista, o pensamento único e imperialista. Queremos resolvido o analfabetismo. 4. A reforma Agrária é problema do Estado brasileiro e de quem impõem o agronegócio. Não aceitaremos mais esse modelo de exportação e de acumulação de riqueza baseado na morte da nossa biodiversidade. Queremos resolvida a desapropriação dos latifúndios que praticam violência,trabalho escravo e crime ambiental. Não aceitamos mais a representação política do congresso nacional. 5. A nossa favela – pré-cidades - é um problema do Estado brasileiro, da elite “donatária” e especulativa que hoje através dos serviços públicos se apropriam da mais-valia social. Queremos resolvida pela vontade popular a reestatização da CVRD e que se estabeleça o seu controle social. Não aceitamos mais o superávit primário como fórmula perfeita de governabilidade. 6. A nossa doença é um problema do Estado brasileiro e de quem mantém subjugado pela indiferença e pela força a vontade do povo. Queremos resolvida a falta de soberania nacional e não aceitamos o poder judiciário contrariando os interresses da sociedade. 7. A nossa dor é problema do Estado brasileiro, de uma elite que joga a sociedade numa crise sem precedentes na história e na barbárie social. Queremos resolvida em forma de expulsão todas as empresas multinacionais que atuam no Brasil e, não aceitamos as falácias palacianas, queremos direitos. Contra o Imperialismo; Soberania Popular na Amazônia! Reforma Agrária: Por Justiça Social e Soberania Popular! Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MST-PA Acampamento permanente Ás Margens da Estrada de Ferro Carajás. Assentamento Palmares Parauapebas, sudeste do Pará. 31 de outubro de 2007

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Para meditar

“Das 23 mil pessoas que trabalham atualmente em Carajás, apenas 10% é de contratados diretamente pela CVRD. mais de 20 mil trabalhadores foram recrutados por 175 empreiteiros, que terceirizaram a maior parte dos serviços, sobretudo os mais pesados e menos qualificados. Há turnos de seis,, oito, e 12 horas. Os intervalos para descanso e convivência familiar ficam ainda mais reduzidos porque os empregados perdem de duas a quatro horas indo ou voltando para suas casas. A distância, no caso dos que moram fora do núcleo residencial de Carajás, passa de 390 quilômetros. Para a Vale, o cenário é como se fosse de uma cidade comum. Por isso, se recusa a pagar o trajeto como hora extra de trabalho. Esse é o principal motivo de mais de 90% das 8 mil reclamações protocoladas na 1ª. Vara da justiça trabalhista de Parauapebas nos últimos 18 meses (o congestionamento já provocou a criação de uma segunda vara para o município). A empresa não reconhece a alegação dos reclamantes de que, a caminho do trabalho numa região pioneira, entre a portaria da mina e cada uma das frentes de lavra, deviam ser remuneradas por estarem “in itinere”, a expressão técnica dada ao tempo de transporte para local de trabalho de difícil acesso, que não é servido por transporte público. Nesse caso, as horas de deslocamento devem ser computadas na jornada de trabalho. Além de não partilhar esse entendimento, a CVRD diz também que tal benefício não consta dos contratos assinados com os empregados. E não se impressiona com a contradita do MP do Trabalho, de que essa hipótese se enquadra na renúncia a direito previsto em lei, cujo cumprimento pode ser cobrado pela autoridade competente na defesa de um direito que o cidadão deixa de exercer. Há muitas queixas também contra o excesso de trabalho nos turnos. Todas as causas somadas, a empresa e suas terceirizadas teriam que pagar aproximadamente 70 milhões de reais. Esse valor equivale à receita de pouco mais de um dia de produção bruta em Carajás. Pagar em juízo, assim, se tornou um negócio mais rentável do que cumprir no ato as obrigações trabalhistas. E ainda possibilita a legalização das infrações, pela via do acordo em juízo, apagando o passado.” O texto acima é parte da matéria “Ela enriquece. E nós?”, de Lúcio Flávio Pinto, no Jornal Pessoal n. 403, 2ª. quinzena de outubro.

Candidato

A imprensa de Belém o chama de Newton, mas o nome desse marabaense é Neuton. Neuton Miranda, ex-deputado estadual, comunista histórico e honorável. Atual Gerente Regional do Patrimônio da União, ele vai disputar a prefeitura de Belém como candidato próprio do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), decisão tomada dia 27, sábado, durante a décima edição da conferência municipal do partido, realizada em Belém.

Cumprimentos

Comovido, acuso e agradeço o recebimento, nessa quarta-feira, 31 de outubro, de gentil cartão do deputado federal Giovanni Queiroz manifestando seus votos de saúde e prosperidade pela passagem do meu aniversário, aliás ocorrido no dia 7 de setembro.

Literatura

Lançado não faz muito tempo, o livro autobiográfico do vereador Maurino Magalhães (sobre vencer ou vencer - de jegue até à prefeitura) está em nova tiragem. Pela segunda ou terceira vez este ano, os donos de bancas de revista estão tirando os encalhes da prateleira. Por outro lado, não é verdade que exista, nas Terras de alocer, um movimento pela sua canonização.

Inquérito

O Supremo Tribunal Federal informa que recebeu, nessa segunda-feira (29/10), da Procuradoria Geral da República (PGR), parecer pelo recebimento da denúncia contra o deputado federal Asdrúbal Bentes (PMDB-PA), por suposto crime contra o planejamento familiar praticado através da laqueadura de trompas de várias mulheres em troca de votos no pleito de 2004, em que foi candidato à prefeitura de Marabá.É relator no Inquérito n. 2197, o ministro Menezes Direito.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Olhares.com

De súbito, umas lembranças!...

Cantávamos no coral desde a nave suspensa da igrejinha de São Félix nas manhãs ou noites de domingo. Era parte do conteúdo de canto orfeônico da escola mas foi assim, talvez, que me apaixonei pela música soturna e medieval das igrejas, o canto gregoriano, o som do cravo, da pianola de pedais tocada por Joãozinho Sariema. Ele também dedilhava acordeon em sua casa e ensinou-me, eu ainda menino, a datilografia na velha Remington inglesa. O Santa Terezinha era ali mesmo no centro: a entrada estreita pela Praça Duque de Caxias e os fundos, uma área livre com mangueira e sala de aula, para os lados da Avenida Antônio Maia, que chamávamos Rua Grande. Estudar no Santa Terezinha era um privilégio raro para jovens pobres. Quando terminei o primário na escola pública e fui aprovado no exame de admissão, a família descartou qualquer esperança: não tinha como pagar o estudo no único ginásio da cidade. O pai castanheiro, a mãe lavadeira, o irmão operário que abandonara os estudos para ajudar na despesa da casa, essa a realidade. Naquele tempo, 1961, bem em frente nossa casa havia uma pitombeira jovem no meio do descampado que abria imensa janela para o rio. Foi lá que o velho Plínio Pinheiro, desbravador de castanhais e garimpos de diamantes, me encontrou aos prantos. Constrangido e assustado com a figura impressionante daquele homem enorme, firme e gentil ao mesmo tempo, contei-lhe a causa do desespero. Ele ouviu pacientemente e disse com a maior naturalidade “Vá fazer sua matrícula, veja os livros e o uniforme, e vá em casa buscar o dinheiro”, enquanto eu o olhava com espanto, sem entender, as lágrimas, de súbito, uns grãos de gelo. Em seguida, atravessou a rua, entrou em casa e conversou com mamãe, até que ela veio abraçar-me também em prantos. Velho Plínio não gastou comigo um único centavo. Através de prova seletiva, ganhei meia bolsa da prefeitura e meia do Estado, ambas com a condição de não repetir o ano nem tirar nota abaixo de sete. Isso não excluía, naturalmente, a força da família na compra de calçado, roupas, livros, transporte, mas era uma ajuda inestimável para manter-me no ginásio. Depois de tudo fui à casa do velho Plínio, aquele homem extraordinário, agradecer-lhe a generosidade e olhá-lo de perto uma outra vez para nunca mais esquecê-lo. Quando mudamos em 1962 para o alto da colina, na margem esquerda do Itacaiúnas, arrancamos com as mãos raízes e pedras do solo ingrato e cercamos de jardins toda a extensão do ginásio, enquanto, na frente, erguemos um bosque, o “bouissonet”, como lhe chamavam as mestras dominicanas. O colégio mesmo, em boa parte, fora erguido com tijolos comprados e levados um a um pelos estudantes nesse trabalho de carreiro cotidiano de formigas. Nos canteiros usamos sementes e mudas, muitas, vindas do inefável sertão goiano, trazidas pelas freirinhas de lá originárias. Mas valemo-nos, com desenvoltura, dos recursos ao alcance, flores amarelas da acácia silvestre, a passiflora roxa em rama sobre latadas, o flamboyant a esvair-se em sangue sobre gorgulhos. Um mamoeiro crescera bem ao lado de uma das janelas da nossa sala e quase podíamos alcançar com as mãos seus frutos voluptuosos.

Destinos

Para a pequena grande amada) Ademir Braz “Amanhã teremos cinema”, dizíamos na infância, e o Marrocos enchia a tela de bang-bangs. “Também vamos ao Pirucaba, saltar n’água entre ariranhas e chupar tanta azedinha até dar cica nos dentes!” “Quero ver Nega Tereza bubuiar no serrotão”, vibrava Diabo Louro sob a croa sarará. Serrotão era o encrespado de pedras e corredeira no meio do Takai-una de saranzais e mandingas. Nega Tereza, a parceira de mão grande e alvos dentes, mais parecia menino que doce nega fulô. E que coragem e ousadia que nos enchia de orgulho! Vivíamos assim largados, lagartos no paraíso. E sonhos não nos faltavam, pejados de alvoroço... Quando a gente crescer – todos moços, nos propomos - eu, Diabo Louro e Mariano vamos ser escafandristas nos garimpos do Alencar. E Nega Tereza vai? Garimpo, será que agüenta? (Nega Tereza vai não... Ela vai ficar em casa cuidando da negralhada que eu e ela teremos. E pra ela um diamante, grande como uma pitomba, vou trazer no picuá, vou mandar encastoar). Então a gente cresceu e fez-se coisa do mundo. Nega Tereza morreu (de filho que não era meu). Mariano King Kong virou fumaça na vida. Diabo Louro matou-se de solidão e cachaça, e foi ser craque, o que era, nos campos do infinito. E eu, que ia embora pra Escócia ou Martinica, Perdi-me tanto entre amores que dei por mim assim mesmo: a falar grego sozinho nas ruas de Istambul. (De “Confissões à lua”, in “Lua de Jade”, inédito)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Sobre anjos e menino

II A mocidade, sepultei-a em dunas numa ilha, entre o céu e o mar revolto. Foram dias de procura em meio a conchas, sereias e noite escura, onde quer me tenham levado o vento e a quilha. Foram tempos suicidas, de manhãs sem razão. Mendigo, descansei à sombra dum campanário, onde acordei, raiado em signos, no santuário entregue às urtigas e à hera febril da solidão. Por onde andei perdi-me, achei-me ou sonhei haver-me tido numa esquina ou num botequim. Apenas vivi. E para isso, eu nunca me programei. Não sei sequer quem fui entre os tantos de mim! Caleidoscópico, deram-me a vestir algumas faces - máscaras de baile, que usei indiferente -, até o dia em que larguei, pelos salões, enfeites e disfarces, cansado dos convivas e sua bronca fantasia. III Muitos anos depois, quando nada mais importa, exceto o amor, talvez, e talvez a chama da revolta, falam-me que a idade é uma ânfora de dores... A maturidade, como chamam a isso, dá-me risos! Pela janela, sobre telhados, vejo ângulos precisos, quadriláteros, embaúbas, reentrâncias, cores... Olhando mais acima, no horizonte, descubro Um pássaro azul ao acaso no céu de outubro.

Mobilização nacional

Anda na internet um pedido de socorro segundo o qual o o PCC seqüestrou um grupo inteiro de deputados do PSDB, PT, PTB, PL, PPB e PMDB, e está solicitando um milhão de dólares para sua libertação. Se o resgate não for não pago em 24 horas, os bandidos vão banhá-los com combustível e queimá-los vivos. Informa a nota que a pretexto de ajuda, já foram coletadas as seguintes doações: 580 litros de Gasolina Aditivada; 320 litros de gasolina Premium; 125 litros de diesel; 175 de gasolina convencional; 38 caixas de fósforos e 21 isqueiros. “Não mandem álcool, por favor!, que os deputados podem consumi-los”, diz a nota. Mas “aceita-se também botijão de gás”.

Vale inicia corte de fornecimento a guseiras

A Companhia Siderúrgica do Pará S/A - Cosipar; a Ferro Gusa do Maranhão Ltda – Fergumar; Siderúrgica do Maranhão S/A – Simasa; e a Usina Siderúrgica de Marabá Ltda - Usimar terão a rescisão imediata dos seus contratos de fornecimento de minério de ferro pela Vale do Rio Doce. É o que informou à tarde de ontem a assessoria de imprensa da mineradora. Segundo a nota, em em 28/08/2007 a Vale enviou correspondência a oito empresas produtoras de ferro gusa, solicitando que apresentassem informações e documentação suficientes para atestar que operam na mais absoluta conformidade com as leis ambientais e trabalhistas. Após a análise da documentação apresentada pelas oito empresas, ela decidiu suspender a entrega de minério às guseiras acima relacionadas. Itasider Usina Siderúrgica Itaminas S/A – Itasider; Siderúrgica Ibérica do Pará S/A – Ibérica; Siderúrgica do Maranhão S/A – Viena; e Siderúrgica Marabá S/A – Simara, têm 15 dias, desde ontem, “para que apresentem novos documentos, de forma a permitir uma análise mais adequada e conclusiva”, diz a nota da empresa. Lucros e investimentos A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) dará entrevista coletiva hoje, sexta, a partir das 13h00, em sua sede no Rio de Janeiro. O Diretor-Executivo de Finanças, Fábio Barbosa, falará sobre os resultados da companhia no terceiro trimestre de 2007 por videoconferência com tradução simultânea para o inglês e francês. A multinacional vai anunciar que um ano após inaugurar a maior mina de ferro a céu aberto do mundo, a Brucutu, em Minas Gerais, abrirá outra ainda maior, a poucos quilômetros de distância. Segundo relatório da corretora Link, a nova mina 'gigante' receberá investimentos da ordem de US$ 2,2 bilhões, e deverá ser construída num prazo de cerca de 36 meses, segundo o engenheiro responsável pela área de ferrosos da empresa em Minas. A Vale talvez anuncie também, como fez esta semana em carta circular ao governo federal e à governadora Ana Júlia, do Pará, que investirá US$ 45,5 bilhões no Brasil, chegando a um total de cerca de 148 mil empregos próprios e terceiros em 2012. Os investimentos sociais para 2008 devem chegar a US$ 260,3 milhões, aumentando em cerca de 42% em relação a 2007, de US$ 183,3 milhões. Na área ambiental, entre 2008 e 2012, a projeção de dispêndio será de US$ 1,8 bilhão. “Somente no Pará, acrescenta, os dados são o seguinte: US$ 20 bilhões no estado do Pará, chegando a um total de 68 mil empregos próprios e terceiros até 2012. Os investimentos sociais para 2008, também no estado do Pará, devem ultrapassar US$ 98 milhões, aumentando em mais de 37% em relação àqueles realizados no ano de 2007, de US$ 71,6 milhões. Na área ambiental, a projeção de dispêndio, entre 2008 e 2012, é de mais de US$ 690 milhões.” No primeiro semestre deste ano, a Vale obteve lucros líquidos de 11 bilhõ0es de reais contra R$ 14 bilhões em todo o ano passado, “decorrente da competência da empresa, dos preços elevados das commodities no mercado internacional e do surgimento de novos compradores, ou sobretudo, das taxas de crescimento da China”, segundo o jornalista Lúcio Flávio Pinto, mas também em razão da “isenção de impostos, os créditos favorecidos, a colaboração financeira oficial e o baixo valor da remuneração do trabalho.”

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A Vale e o MST: um enfoque

Pedro Carrano,de Curitiba (PR) Cerca de 2.600 famílias, entre trabalhadores e trabalhadoras do MST, do sindicato de garimpeiros de Serra Pelada, pequenos produtores rurais e juventude urbana do Pará, ocuparam na quarta-feira (17) um trecho da Estrada Ferro Carajás (EFC), cuja concessão de uso é da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). O ato é parte da Jornada de Lutas pela Reforma Agrária e em defesa dos recursos naturais do povo brasileiro. A estrada transporta os minerais da maior jazida de ferro do mundo, a mina de Carajás. A paralisação da ferrovia se deu próxima ao assentamento do MST Palmares II, localizado a 20 km da cidade de Parauapebas. A política da CVRD de apropriação do meio-ambiente com o destino de exportação, bem como a contradição entre os altos índices de produção da empresa e, por outro lado, as duras condições de vida do povo local, foram as principais denúncias dos movimentos. Dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - demonstram que, na região Amazônica, 295 mil pessoas dominam 11% de toda a riqueza produzida, enquanto 11 milhões de habitantes, metade da população da Amazônia, possuem 16% da renda per capita. As denúncias da mobilização vão mais longe. Estão direcionadas ao modelo capitalista exportador de matérias-primas, que se reflete na região na forma de expansão das monoculturas da soja e do eucalipto. A mobilização se insere na ofensiva das organizações sociais que defendem a nulidade do leilão de privatização de venda da Vale do Rio Doce. Em um plebiscito popular com a participação de mais de 3,7 milhões de eleitores brasileiros, realizado no início de setembro, 94,5% dos brasileiros votaram pela retomada da companhia privatizada pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Reivindicações A manifestação na ferrovia gerou uma pauta política direcionada para o governo federal, para a governadora Ana Julia (PT-Pará) e para a companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Entre as 15 exigências na pauta dos movimentos estão a reestatização da CVRD, assim como a criação de um imposto para os estados onde a mineradora desenvolve atividades (uma vez que a Vale hoje não aplica o Decreto-lei datado de 42 que prevê 85% dos lucros investidos em 14 estados). Outra pauta é a da participação popular nos rumos da companhia, por meio de um Conselho Deliberativo com representantes do Estado, da CVRD e da sociedade civil “para discutir e deliberar sobre os projetos de mineração e de uso de recursos ambientais da região”. Os manifestantes exigem o aumento do pagamento de royalties para os municípios mineradores, que passem dos 4 aos 10% sobre a riqueza produzida. Os movimentos querem também mais investimentos nas áreas de saúde e educação em municípios na região de influência da Vale, como Paraupebas, Tucuruí e Marabá. A manifestação mira também o fim da Lei Kandir, que exonera as empresas exportadoras de impostos, e ocorre ao mesmo tempo em quae a Vale é questionada pelo Ministério Público em duas frentes: a primeira com processos trabalhistas; a segunda pela ampliação da produção de carvão mineral. Um ponto importante toca na questão dos mineradores de Serra Pelada, que, segundo o manifesto dos movimentos sociais, sofrem repressão da CVRD, buscam autonomia em relação à empresa, e exigem a aprovação no Congresso Nacional de um estatuto do garimpeiro. Por sua vez, a companhia deixou o silêncio que a caracterizou ao longo do Plebiscito Popular realizado entre 1º a 9 de setembro, exigindo a nulidade do seu leilão. Em nota de divulgação, a companhia clama pela retirada dos manifestantes com uso da força policial. Existe a possibilidade de intervenção da Polícia Federal e Militar, a partir de autorização judicial, requerida pela companhia. “A CVRD está comunicando a invasão à Justiça Federal para que sejam tomadas as medidas judiciais cabíveis, inclusive quanto à mobilização de força policial, para retirada dos manifestantes. A CVRD espera que as autoridades tomem, o mais rapidamente possível, as providências necessárias para pôr fim à invasão e destaca sua perplexidade por ser alvo de manifestantes que apresentam reivindicações que não têm qualquer vínculo com a Companhia, como a “defesa da reforma agrária e protesto contra o imperialismo”, diz o item 7, da sua nota. A CVRD informa que transporta diariamente 1300 passageiros pelos seus trilhos – ainda que relatos apontem precariedade na condição de transporte para passageiros sem recursos. O apelo à presença policial para retirada dos manifestantes já havia sido feita pela companhia noutro momento. No dia 22 de agosto, em Belo Horizonte, durante ocupação pacífica de empresa pertencente a Vale, 136 manifestantes foram presos.