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segunda-feira, 25 de julho de 2011

O pano de fundo das mortes na Amazônia

Ayala Ferreira, da Direção Estadual do MST/PA
Jornal Sem Terra*

FAZ MAIS DE trinta dias que tivemos a fatídica notícia dos assassinatos de José Cláudio Ribeiro da Silva e de Maria do Espírito Santo da Silva, além de outras destacadas lideranças que foram assassinadas na região da Amazônia, em uma onda de violência contra trabalhadores rurais (veja box abaixo).
Nos últimos 24 anos, o casal se empenhou em implementar no projeto de Assentamento Agroextrativista onde residiam, em Nova Ipixuna, sudeste do Pará, experiências agrícolas com uso sustentável da floresta amazônica. Logo nos primeiros dias após os assassinatos, diferentes versões foram apontadas pelas investigações e divulgadas nos meios de comunicação.
Uma delas relacionava o episódio a um “acerto de contas” por desentendimento entre vizinhos. Como nesta região a barbárie social está estabelecida, parece “impossível” imaginar níveis de sociabilidade entre as pessoas que não seja pelo uso da violência.
O que presenciamos foi a execução sumária com requintes de perversidade de duas lideranças defensoras da floresta e dos camponeses do Pará e da Amazônia brasileira. Eles vinham se contrapondo insistentemente ao modelo de desenvolvimento capitaneado por fazendeiros, madeireiros, empresas de exploração mineral e de siderurgias, tendo o Estado brasileiro e paraense como os seus maiores organizadores.
A partir de 1970, a Amazônia brasileira – e em especial o Pará – passou por profundas transformações gestadas e implementadas pelo Estado, que consistiu em grandes obras de infraestrutura (estradas, hidrelétricas e ferrovias), incentivos fiscais e de créditos para a instalação de empresas para exploração dos recursos minerais. Além disso, orientou a migração desordenada para colonizar essa terra tida como região desabitada, atrelando-a em definitivo aos interesses do grande capital.
Nas cercanias desses projetos e nas cidades que se expandiram desordenadamente pelo intenso fluxo migratório, houve a substituição gradativa da floresta amazônica e de comunidades tradicionais, que deram espaço para a presença das madeireiras, das fazendas de pecuária extensiva e de monocultivo de eucalipto. Os eucaliptos alimentam os fornos das siderúrgicas que mais recentemente se instalaram na região, uma vez que as carvoarias não davam conta de manter a oferta do carvão vegetal (produzido pelo desmatamento da floresta).Para completar, a utilização de tecnologia de ponta para a extração do principal minério: o ferro, que sai de nossa região sem nenhum valor agregado.
Outro paradigma
Pensar e propor alternativas que se contraponham a esse modelo de desenvolvimento hegemonizado no Pará se tornou perigoso, porque confronta os interesses de acumulação de determinados grupos, que têm seus tentáculos na iniciativa privada do grande capital, nos governos e no judiciário. Todos indiscutivelmente agem em comum acordo para manter o status quo, condição indispensável para a continuidade da usurpação da biodiversidade amazônica, que a princípio deveria estar a serviço de toda a sociedade. José Cláudio e Maria do Espírito Santo foram silenciados porque discordavam desse modelo de desenvolvimento.
Mais do que incorporar o discurso do “desenvolvimento sustentável”, eles ousaram experimentar na comunidade onde residiam práticas extrativistas sustentáveis ambiental e economicamente. Tornaram-se exemplos de que é possível reproduzir a própria existência e desenvolver a região a partir de um outro paradigma.
Os fazendeiros, madeireiros, carvoeiros e empresas privadas da mineração, souberam silenciar pelo uso da pistolagem esses bravos companheiros. Conseguiram inseri-los na dolorosa estatística da Comissão Pastoral da Terra, que revela que em 26 anos (1985-2011) na Amazônia brasileira, 795 pessoas foram assassinadas por ousarem pensar e defender outros interesses que não seja o da acumulação do grande capital.
Revelar essa realidade que intencionalmente tem sido camuflada, denunciar os riscos e malefícios dos projetos governamentais – como o Programa Terra Legal e o novo Código Florestal –, seguir na organização dos camponeses e na ampliação de experiências agrícolas atreladas ao extrativismo são formas de reconhecer o legado deixado por José Cláudio e Maria do Espírito Santo. E por que não dizer a todos aqueles que por amor a floresta amazônica e aos seres humanos ousaram lutar e doar a própria vida.

Cronologia da violência
24 de maio – Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio Ribeiro da Silva são assassinados no Projeto de Assentamento Extrativista, Praia Alta Piranheira, no município de Nova Ipixuna
27 de maio – Adelino Ramos, conhecido como Dinho, sobrevivente do Massacre de Corumbiara (agosto de 1995), foi assassinado em Vista Alegre do Abunã, na região da Ponta de Abunã, município de Porto Velho (RO)
28 de maio – O assentado Herenilton Pereira dos Santos, do assentamento Praia Alta Piranheira, Nova Ipixuna, PA, foi encontrado morto.
2 de junho – É assassinado Marcos Gomes, por homens encapuzados na zona rural de Eldorado dos Carajás, no Pará.
11 de junho – É encontrado o corpo do trabalhador rural Obede Loyola Souza, no acampamento Esperança, município de Pacajá, PA. Foi executado dois dias antes com um tiro de espingarda dentro do ouvido.
(*Com informações da CPT, Postado por MST/Pará)
* Edição junho/julho 2011

domingo, 24 de julho de 2011

Um fiasco

Suárez, Muslera, Lugano e Forlán (Uruguai); 
Haedo Váldez e Justo Villar (Paraguai);
 Guerrero e Vargas (Peru); 
Arango (Venezuela) e Lionel Messi (Argentina).
Esta, a seleção dos melhores jogadores Copa América, encerrada neste domingo com a vitória do Uruguai sobre o Paraguai (finalista sem nenhuma vitória).
Nenhum destaque da seleção brasileira.
A Vale sob ataque
iSTOÉ DINHEIRO Nº EDIÇÃO: 720 | Negócios | 22.JUL.11

Siderúrgicas apostam alto na mineração para melhorar os resultados
 e, mais do que obter a autossuficiência, querem disputar o mercado externo
Por Tatiana Bautzer

A Vale, segunda maior mineradora do mundo, está sendo atacada por rivais inusitados: seus próprios clientes, as siderúrgicas nacionais. As companhias investem cada vez mais em produção própria de minério de ferro, não apenas para suprir seu consumo, mas também para exportar o excedente ao aquecido mercado mundial. O movimento de verticalização, que começa a ameaçar o mercado da companhia liderada pelo executivo Murilo Ferreira, começou de maneira defensiva, há alguns anos, como reação à forte alta de preços de matéria-prima. “Os investimentos em mineração vieram para ficar”, afirma o presidente do Instituto de Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes. “Em todo o mundo, só serão rentáveis as siderúrgicas verticalizadas.” 
Mais recentemente, cresceram os investimentos para expandir a atividade mineradora além das necessidades de produção: são mais de R$ 22 bilhões previstos para os próximos quatro anos, pelas quatro grandes siderúrgicas que operam no País: a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Usiminas, a Gerdau e a ArcelorMittal. A razão para a euforia em torno do minério é a alta de preços muito superior à dos produtos siderúrgicos. A tonelada de minério disparou 160% nos últimos dois anos, com o apetite chinês pela commodity. O cenário é inverso no setor siderúrgico: o laminado subiu apenas 30,9%, com a sobreoferta mundial de aço. 

A World Steel Association calcula que sobrem no mundo 550 milhões de toneladas de aço. “A rentabilidade com mineração é pelo menos o triplo da siderúrgica”, afirma Wilson Brumer, presidente da Usiminas. Para Luciano Borges, consultor da Adhoc e ex-secretário de Minas e Metalurgia, a tendência é mundial. “As siderúrgicas chinesas estão liderando esse movimento para tentar contrabalançar a influência das maiores mineradoras na formação de preço.” No Brasil, o modelo que todas parecem querer seguir é o da CSN, que sempre se abasteceu com suas próprias minas e hoje já lucra mais com a venda do minério de ferro do que com os produtos siderúrgicos.
A empresa, que faturou R$ 14 bilhões no ano passado, pretende investir nada menos que R$ 13 bilhões para expandir a exploração de minério pelas subsidiárias Casa de Pedra e Namisa, dos atuais 26 milhões para 89 milhões de toneladas anuais. Cerca de 75% do total de minério produzido já é exportado em contratos de longo prazo, principalmente para a Ásia. Outros R$ 3 bilhões serão investidos em cobre, estanho, calcário, ouro e “terras raras”, metais usados na fabricação de componentes eletroeletrônicos. “Hoje a empresa já é uma mineradora, além de siderúrgica”, afirma Carlos Rangel, diretor de programação e embarques da CSN. “Os compradores querem diversificar o fornecimento concentrado na Vale.”  
A estratégia motiva a recomendação da CSN, por analistas do mercado financeiro, como investimento preferencial no setor siderúrgico. “A CSN escapa da tendência negativa para a siderurgia, com sua força em mineração”, afirma Marco Saravalli, analista da corretora Coinvalores. A diferença na rentabilidade dos dois negócios fica clara no balanço. No primeiro trimestre, a receita de siderurgia foi o dobro da de mineração:     R$ 2,3 bilhões ante R$ 1,2 bilhão, mas o lucro na mineração foi maior, de R$ 792 milhões contra R$ 693 milhões, considerando o resultado antes de juros, impostos e depreciação. 
 Ainda longe da autossuficiência, a Usiminas, que faturou R$ 13 bilhões no ano passado, aplicará R$ 4 bilhões para quase quadruplicar sua produção de minério, dos atuais 8 milhões de toneladas para 29 milhões de toneladas em 2015. O excedente para exportação deve chegar a 20 milhões de toneladas. Há pouco mais de uma semana, a empresa arrendou novas minas no quadrilátero ferrífero mineiro da MBL, com estoque de seis milhões de toneladas. Outro projeto é uma planta de pelotização, que exigirá investimentos de US$ 1 bilhão para produzir 7,5 milhões de toneladas. De acordo com Brumer, a Usiminas busca um parceiro estratégico para esse projeto. Embora a atividade mineradora ainda seja pequena, já no primeiro trimestre rendeu mais do que a siderurgia: R$ 138 milhões ante R$ 133 milhões.
Gerdau e ArcelorMittal têm projetos de investimento mais modestos. A Gerdau, que faturou no ano passado R$ 35 bilhões, já conta com produção própria de 75% do consumo de sua siderúrgica Açominas e espera ser autossuficiente em 2012, com sete milhões de toneladas. Poderá expandir para vender a produção excedente. Já a ArcelorMittal espera chegar a suprir  75% de suas necessidades de minério nas operações no Brasil e está investindo US$ 75 milhões numa planta de beneficiamento de minério da Mina do Andrade para produzir 1,5 milhão de toneladas anuais. 
Uma das vantagens da alta lucratividade é facilitar o financiamento dos projetos de mineração. A subsidiária Mineração Usiminas, criada no ano passado, recebeu um aporte de US$ 1,9 bilhão da Sumitomo Corporation, por uma participação de 30% em seu capital. “O próprio negócio gera recursos para sua expansão”, diz Brumer, da Usiminas. A CSN, por seu turno, avaliou por um bom tempo a alternativa de abertura de capital da Casa de Pedra, mas essa perspectiva não está colocada a curto prazo. O negócio atrai o interesse não apenas de investidores estratégicos, mas também de fundos de investimentos.
No entanto, com investimentos com prazo de maturação longo, as siderúrgicas não correm o risco de ser pegas no contrapé do ciclo e enfrentar uma baixa no preço do minério? As empresas afirmam esperar que os preços se mantenham em alta por cinco a dez anos. “Não enxergo a médio prazo queda de preços de minério de ferro nem de carvão”, diz Brumer. Outros analistas são mais cuidadosos e acreditam que a alta se sustenta por dois ou três anos, quando entram em produção novos projetos que podem pressionar os preços. A Vale, a grande produtora nacional, está sentindo o peso da concorrência no mercado interno, embora ainda seja pouco afetada nas exportações, que chegam a nada menos de 311 milhões de toneladas por ano.
Recentemente, por exemplo, Ferreira revelou que a participação da mineradora no mercado interno caiu de 70% para 50%, atualmente, e sua previsão é de que fique em menos de 30% em 2014. A constatação desse problema estaria na raiz da estratégia de verticalização “para cima”, da mineradora, que prevê investimentos pesados em siderurgia para fazer frente à verticalização “para baixo” dos seus clientes locais. Entre os projetos previstos estão a participação na Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), no Ceará, e a construção da Aços Laminados do Pará (Alpa), em Marabá. 
Ao contrário do que acontece com a verticalização promovida pelas siderúrgicas, o movimento da Vale está sendo visto com algum ceticismo pelos analistas, preocupados com a baixa rentabilidade de novos investimentos siderúrgicos. O consultor Luciano Borges vê na iniciativa a influência do governo, que pressionou pela mudança no comando da Vale. “É bem clara a intenção de fomentar a política industrial”, afirma Borges. Consultada pela DINHEIRO, a Vale não comentou o assunto.