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sexta-feira, 25 de maio de 2007

Saindo das sombras

A União dos Vereadores do Sul e Sudeste do Pará – Uvespa – participa hoje do 2º Encontro Regional de legisladores e faz assembléia geral ordinária para eleger nova diretoria para 2007/2009. Os eventos ocorrem no auditório da Sesma. Presidida pelo vereador Wenderson Chamon (PMDB Curionópolis), a quase desaparecida Uvespa pretende usar o gancho da campanha pelo Estado de Carajás para tentar sair do marasmo. Afinal, ano que vem teremos eleições para prefeito e vereadores.

O valor das coisas

O veterinário e produtor de mudas Olavo (Art Verde) Barros disse ter prestado atenção na seguinte cantoria de um tangedor de burros: “Minha mulher e meu cavalo/ eu perdi em um só dia./ Do cavalo senti pena/ da mulher tive alegria./ Cavalo bom é difícil/ mulher ruim é todo dia./

Livre-pensar

Todos, ou quase todos, os patifes presos na operação Navalha já estão soltos. Parece que foram levados à Polícia Federal apenas para se barbear.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Despotismo

Por toda a quarta-feira 23, carro de som buzinou nas ruas da Velha Marabá que a prefeitura vai contratar professores temporários para substituir aqueles em greve desde a sexta-feira 18, contra o reajuste salarial linear de 6% proposto pelo Executivo. Enquanto os grevistas exigem pelo menos 12% de aumento (e a Comissão de Justiça, Legislação e Redação da Câmara considerou inconstitucional o projeto remetido à aprovação da Casa, por estar aquém dos 8% dados ao salário mínimo), o prefeito Tião (“boa praça”) Miranda foi à Rádio Clube ameaçar os trabalhadores com corte dos dias parados e até de demissão.

Estado de Carajás. Inevitável

Região sudeste já responde por um terço da economia paraense A região sudeste do Pará já responde por um terço da economia do Estado e, no ritmo atual de crescimento, deverá ultrapassar em breve a região metropoliana de Belém. Enquanto em 1980 o sudeste respondia por 12% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, essa participação subiu para 32% em 2004, enquanto a da capital caiu de 48% para 40% na mesma comparação. Também registraram queda de participação as regiões do Nordeste Paraense (de 17% para 11%), do Baixo Amazonas (de 15% para 8%) e do Marajó (de 5% para 3%). O Sudoeste Paraense cresceu de 3% para 6%. Este é um dos principais dados constantes do Diagnóstico Integrado em Socioeconomia para os Empreendimentos da CVRD no Sudeste do Pará, contratado pela Fundação Vale do Rio Doce e realizado pela Diagonal Urbana Consultoria ao longo de 2006. O estudo mostra que os investimentos que a Companhia Vale do Rio Doce tem feito na região (R$ 12,3 bilhões até 2007, com projeção para chegar a R$ 25,8 bilhões até 2010) e as suas compras (R$ 8,2 bilhões até este ano, devendo chegar a R$ 12,6 bilhões em 2010) tornam o papel da empresa fundamental na dinamização da economia regional, segundo a avaliação do arquiteto e urbanista João Jaime Almeida Filho e da economista Tânia Bacelar, que apresentaram detalhes do estudo numa coletiva à imprensa nesta quarta-feira (23) na sede da Vale em Belém. O estudo mostra que o Sudeste Paraense vem tendo um crescimento econômico a taxas que, em média, representam o dobro do crescimento da China, o país que atualmente é fenômeno de crescimento no mundo. Na área de influência direta dos empreendimentos da Vale – que inclui os municípios de Canaã dos Carajás, Curionópolis, Eldorado do Carajás, Marabá, Ourilândia do Norte, Parauapebas e Tucumã -, o valor da produção atingiu R$ 12,8 bilhões em 2004 e deverá chegar a R$ 39,2 bilhões em 2010, com uma taxa anual de crescimento de 20,51%; o valor adicionado (acréscimo de riqueza), de R$ 5 bilhões em 2004, para R$ 13,8 bilhões em 2010 (taxa de 18,26% ao ano); emprego, de 202 mil em 2004, para 626 mil em 2010 (taxa de crescimento de 20,78%); e massa salarial mensal, de R$ 807 milhões em 2004 para R$ 2,4 bilhões em 2010 (20,11%). “Taxas de crescimento nesses níveis deverão atrair muitos investidores para a região”, ressaltou Tânia Bacelar. PIB per capita Outro dado que revela o melhor desempenho do Sudeste Paraense é que o PIB per capita da região atingiu R$ 6.765 em 2003, enquanto em Belém estava em R$ 5.137 e o total do Pará em R$ 4.367. Se for levado em consideração apenas o PIB per capita dos municípios da área de influência direta da Vale, o valor foi de R$ 7.272 em 2003. O PIB do Baixo Amazonas estava em R$ 3.897 naquele ano, o do Sudoeste Paraense em R$ 3.814, o do Nordeste Paraense em R$ 2.202 e o do Marajó em R$ 2.112. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) vem crescendo nos municípios com influência direta da Vale nos últimos anos, passando de 0,55 em 1991 em Canaã dos Carajás para 0,70 em 2000, de 0,59 para 0,68 em Curionópolis, de 0,54 para 0,66 em Eldorado, de 0,64 para 0,71 em Marabá, de 0,63 para 0,69 em Ourilândia, de 0,66 para 0,74 em Parauapebas e de 0,60 para 0,75 em Tucumã. O IDH do Brasil em 200 estava em 0,766, o do Pará em 0,723 e o de Belém em 0,806. Apesar da evidente importância para a economia do Estado, esse crescimento acelerado do sudeste paraense, de acordo com avaliação dos dois especialistas da Diagonal, pode causar dois problemas para o Estado. Um deles é que, em razão do aparato tributário existente hoje, cada vez mais o Sudeste Paraense vai ganhar maior peso no rateio do Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em relação à capital. O outro é um risco político: quanto mais crescer economicamente a região, maior será a pressão pela redivisão territorial, com base na proposta de criação do Estado de Carajás. Um detalhe importante do diagnóstico é que, apesar do constante crescimento da participação da indústria (basicamente mineral e com ampla predominância da Vale), é significativa a participação da agropecuária (patronal e familiar) do Sudeste Paraense. A indústria mineral dessa região respondia em 2003 por 35,5% da economia do Estado e a agropecuária, por 45,5% do total estadual do setor. Vale ressaltar que essa participação de 35,5% da indústria do Sudeste não estava longe, naquele ano, da participação da região metropolitana de Belém, que era de 49,7%. Compras locais Em 2004, a produção mineral havia atingido R$ 971 milhões em compras no Sudeste Paraense, sendo 40% (R$ 385 milhões) na própria região sudeste. E a agropecuária fez R$ 228 milhões em compras ali, sendo 98% (R$ 225 milhões) locais. Mas apesar de comprar percentualmente menos na região, o volume local de compras do setor mineral é bem maior que o da agropecuária. “Isso mostra que a mineração é um elemento importante na dinâmica da economia local”, afirmou João Jaime. Segundo ele, o grande impacto da presença da Vale é na geração de renda, mais do que na questão salarial. “Trata-se de um foco de dinamização importante para a região”. Ainda tendo por base o ano de 2004, o estudo mostra que o valor agregado pela mineração era de R$ 3,8 bilhões, enquanto na agropecuária ficava em cerca de R$ 1 bilhão. Os representantes da Diagonal mostraram também que os setores não industriais da economia daquela região serão fortemente estimulados e ganharão peso relativo até 2010, crescendo até mais que a própria mineração. Embora com uma participação projetada (17,3%) na economia regional bem menor que a da mineração (57,2%) em 2010, o setor de comércio e serviços crescerá a uma taxa maior (21,8%) que à do setor mineral (17,4%) entre 2004 e 2010. A da agropecuária deverá ser de 18,7% e a da indústria de transformação de 16,4%. No total, o crescimento da economia no Sudeste Paraense deverá ficar em 18,2% entre 2004 e 2010. Arrecadação de tributos Os investimentos que estão sendo feitos pela Vale na região possibilitarão um incremento significativo na arrecadação de tributos pelas sete prefeituras de sua área de influência direta. Sem o incremento da Vale, essas prefeituras acumulariam R$ 2,546 bilhões em tributos entre 2005 e 2010. Mas com a Vale, a estimativa é de que elas recebam mais R$ 3,290 bilhões, atingindo o total de R$ 5,815 bilhões. O diagnóstico faz também uma projeção populacional para a área de influência direta da Vale, com base em dados do IBGE e projeção da Uncicamp. Em 2005, a população desses municípios estava em 423 mil e deverá chegar a 817 mil em 2010, num cenário de incorporação à população local de 50% dos empregos gerados pelos investimentos da Vale. O município mais populoso continuaria sendo Marabá, com uma população projetada de 362 mil habitantes, seguida por Parauapebas com 198 mil, por Eldorado dos Carajás com 69 mil, por Canaã dos Carajás com 61 mil, por Ourilândia do Norte com 49 mil, por Curionópolis com 40 mil e por Tucumã com 36 mil. Infra-estrutura O quadro traçado pelo diagnóstico em relação à situação da infra-estrutura urbana em cinco cidades de sua área de influência direta não é muito favorável. A que está em melhor situação é Canaã dos Carajás, com 68% de rede de água, 70% de rede de esgoto, 39% de pavimentação e 54% de iluminação pública. Mas como os outros quatro municípios, Canaã não tem destino final para seus resíduos sólidos (Marabá possui aterro, mas com condições de operação consideradas inadequadas). Parauapebas tem maior percentual de rede de água (73%), mas apenas 14% de esgoto. Marabá, Curionópolis e Eldorado não têm nada em rede de esgoto. No total, essas cinco cidades têm 697 quilômetros de rede de água, com déficit de 400 quilômetros; 129 km de rede de esgoto (déficit de 672 km), 330 km de ruas pavimentadas (déficit de 593 km) e 796 km de rede de iluminação (déficit de 127 km). O diagnóstico projeta para 2010 uma demanda nessas cidades de 82 mil metros cúbicos por dia de captação e tratamento de água e de coleta, tratamento e destinação de esgoto; de 240 mil toneladas por ano de destinação adequada de resíduos sólidos e de 98 mil unidades habitacionais. Em termos de educação, o estudo revela que a estrutura física do sistema garante o acesso aos níveis fundamental e médio. Mas aponta instalações físicas inadequadas em 53% das escolas, segmento infantil com alta demanda reprimida e formação deficitária dos professores. Na saúde, o atendimento primário é apontado como bem resolvido. O mesmo não acontece com o de maior complexidade. Há também problemas na qualificação dos profissionais, dificuldade na fixação de médicos (embora prefeituras como Parauapebas cheguem a oferecer salário de R$ 12 mil) e equipamentos e instalações inadequados, com déficit de leitos de UTI em todo o Sudeste Paraense. Quanto à segurança, a criminalidade é apontada como alta na região, com número de homicídios 2,76 vezes a média nacional e 4,07 vezes a média estadual. Informações para crescer Na apresentação do diagnóstico, a Vale afirma que, ao mesmo tempo em que amplia sua internacionalização, procura consolidar sua presença em 13 Estados brasileiros, em particular no Pará, para onde estão previstos importantes empreendimentos na região sudeste, nos próximos anos. “Para realizar estes empreendimentos de forma efetiva e socialmente responsável – atendendo aos desafios de um mercado cada vez mais competitivo e às necessidades locais de desenvolvimento integrado, equânime e sustentável – a Vale e a sua Fundação procuram conhecer melhor a região, em especial os municípios onde está presente”. Ao entregar o estudo à sociedade, a Vale ressalta que pretende “partilhar o conhecimento adquirido, validá-lo e adotá-lo como importante insumo no diálogo sobre o desenvolvimento integrado da região entre os agentes governamentais e não-governamentais”. E que o diagnóstico “é mais uma expressão do compromisso da Vale com o desenvolvimento sustentável, buscando juntamente com o poder público e a sociedade civil o comprometimento com o futuro da região”. Para a diretora-superintendente da Fundação Vale do Rio Doce, Olinta Cardoso, pela primeira vez a região sudeste do Pará tem informações projetadas para o seu futuro, “com tempo suficiente para que sejam feitas as mudanças necessárias para o seu desenvolvimento, com o envolvimento de todos as atores”. Na avaliação de João Jaime Filho, esse processo de crescimento da região contém aspectos positivos e negativos, mas com preponderância dos positivos. É um processo, segundo ele, que aponta para uma região com melhores condições de vida para a sua população, desde que a Vale, o governo e a própria sociedade façam a sua parte. E Tânia Bacelar considera que não se pode perder essa oportunidade para se alcançar o desenvolvimento regional. Para o diretor do Departamento de Ferrosos da Vale em Carajás, José Carlos Gomes Soares, apesar dos pesados investimentos feitos pela companhia na região, o processo de verticalização da produção mineral no Estado pode ser prejudicado pela limitação na oferta de energia elétrica, que será amenizada com a entrada em operação da hidrelétrica de Estreito, de cujo consórcio a Vale faz parte, e da termelétrica à base de carvão mineral que a companhia vai implantar em Barcarena. A região abrangida pelo diagnóstico é integrada por 39 municípios. Além dos que integram a área de influência direta da Vale, estão os da área de influência indireta - Agua Azul do Norte, Bannach, Bom Jesus do Tocantins, Brejo Grande do Araguaia, Cumaru do Norte, Palestina do Pará, Pau D'Arco, Piçarra, Redenção, Rio Maria, São Domingos do Araguaia, São Félix do Xingu, São Geraldo do Araguaia, São João do Araguaia, Sapucaia, Xinguara. Os demais municípios do sudeste são Abel Figueiredo, Breu Branco, Conceição do Araguaia, Dom Eliseu, Floresta do Araguaia, Goianésia do Pará, Itupiranga, Jacundá, Nova Ipixuna, Novo Repartimento, Paragominas, Rondon do Pará, Santa, Maria das Barreiras, Santana do Araguaia, Tucuruí, Ulianópolis. O levantamento dos dados secundários do diagnóstico foi feito junto a 60 instituições públicas e privadas, com uma equipe multidisciplinar com 40 profissionais, incluindo as equipes da Diagonal e da Ceplan – Consultoria Econômica e Planejamento e pesquisadores do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), da Universidade Federal do Pará, com destaque para Francisco de Assis Costa, e do Nepo/Unicamp. (Pará Negócios 23/05/2007)

terça-feira, 22 de maio de 2007

... é índio morto?

Se você prestar atenção à premissa básica de Asdrúbal, a frase fica melhor assim: “Índio, se não existisse, não faria nenhuma falta”. Talvez, supõe-se, porque índio não vota.

Índio bom…

Do deputado federal Asdrúbal Bentes, em entrevista hoje de manhã, 22 de maio, na rádio Clube de Marabá: “A Funai, se não existisse, não faria nenhuma falta.” Tudo porque ele defende a permanência de invasores (mais 250 bois) na reserva indígena Apyterewa.

Um mal cada vez maior

Satélites registram poluição das guseiras Campinas - Há 17 anos, a pequena cidade de Piquiá, no oeste do Maranhão, era quase um ponto perdido na BR-222, a cerca de 10 quilômetros de Açailândia. Hoje é uma mancha negra, que chama a atenção nas imagens do satélite Landsat 7, processadas pela Embrapa Monitoramento por Satélite para o zoneamento econômico-ecológico (ZEE) do estado, atualmente em execução. O preto sobre a cidade não é apenas fruto das queimadas: é uma impressionante camada de fuligem, proveniente da produção intensiva de carvão vegetal para abastecer as 5 guseiras, localizadas em Piquiá. Guseiras são indústrias siderúrgicas, que produzem ferro-gusa, neste caso, exclusivamente para exportação. Sua instalação foi incentivada no final dos anos 70 ao longo da Ferrovia dos Carajás, que atravessa o Pará e o Maranhão, com a intenção de agregar valor ao minério de ferro extraído da Serra dos Carajás, PA. No final dos anos 80, os incentivos fiscais foram cancelados, devido aos desmatamentos para produção de carvão vegetal, consumido nos alto-fornos, na proporção de 800kg de carvão por tonelada de ferro-gusa. Algumas guseiras previstas deixaram de ser instaladas, mas as que já existiam continuaram produzindo. A instalação da maioria das fazendas agropecuárias da região foi financiada com a venda de carvão vegetal para as guseiras. Praticamente todas as serrarias têm fornos para transformar em carvão as aparas de madeira e árvores impróprias para a fabricação de móveis ou tábuas. "Mas, hoje, aproximadamente 80% do carvão vegetal utilizado nas guseiras vêm do Pará e viajam até 500 km até chegar em Piquiá, porque muitas serrarias fecharam", diz Pedro Dantas da Rocha Neto, gerente do governo maranhense para a região de Açailândia. Segundo ele, as cinco guseiras de Piquiá produzem cerca de um milhão de toneladas de ferro-gusa por ano, com o carvão do Pará e de florestas plantadas (800 mil ton/ano).

Sobre índios e outros estorvos

História natural: a memória tribal narrada por um sobrevivente ei parceiro tem um pássaro verde no teu ombro e uma flor de sapucaia em teus cabelos. não os espante, parceiro. não os destrua, parceiro. foge com eles, minino, que tem grileiro no muro faz fogo onde foi roçado somos raça em extinção. ave verde e sapucaia já quase num dá pra ver o boi comeu nossas matas casa tapera mandinga a fé cega do terçado já num tem o que cortar o fogo feio do truste fez fugir fera mambira o mangangá a mucura seo jabuti seo preá a onça mais roncadeira não rosna mais ao luar. desculpa nossa pobreza. um dia já fomos ricos: a tribo, pra suas festas, vestia-se toda de cores: vinha a buiúna das águas do Pirucaba o murmúrio (que mora na profundeza); tinha matinta-perêra de madrugada na rua; o cupelôbo, na mata, deixava riscos no chão. alma penada era tanta que tropeçava na gente! pra se prender uma bruxa, fazia-se oferta de fumo, dava três voltas na chave durante seu canto noturno. desculpa nossa pureza. eita, parceiro minino, peita no mundo dipressa que inté a língua perdemos! o juquireiro é peão, conforme dizem os senhores; a posse, onde nascemos, em tempo de matas virgens, não é mais posse, é grilagem e a gente somos grileiro invasores turbadores. “Saia do meu latifúndio senão eu chamo a polícia pra estourar o aparelho!” (ai, mai frendi parceiro, tá dando pra entender?... vou rir que está doendo!) tijolo da minha casa não é mais tijolo: é tejolo; e por me sacar a lajota, a tijolada final quem leva em rabo sou eu) ai, saudades!... antigamente, à noitinha, a gente ia pra porta conversar com os vizinhos; botava cadeira em roda, cobrindo toda a calçada e haja histórias de fada, do casarão assombrado, da visagem beradeira que assustava os meninos... agora, é televisão... até da vida alheia já se deixou de falar! desculpa nossa aparência. pistonar, hoje é paquera. amar, por detrás dos muros, virou coisa de museu; papa-anjo é cocoteiro, meu samba virou sambão. a zona, com seus puteiros, foi à França e não voltou: é cabaret, é boite, é rendez-vous e madames... suicidaram o pecado e fiquei a ver navios. Ai, boemia!... Pau-d’urubu... Zonzeira... Rua do Poço... Vou eu subindo, entre menino e moço, pro Pindura-Saia, a flor do lodo. Nenhum amor noturno aí me espera. Mas, na sala infrene, a vã quimera, de repente me envolve o corpo todo. Ó frenesi de peitos que a blusa das mulheres expõe à luz difusa... Eu sonho seios coxa amor maduro (enquanto um preto canta com voz rouca, e ganem os metais presos à boca, meus olhos incendeiam no escuro)! (às vezes, a lembrança me torna vergonhosamente lírico...) desculpa nossa incerteza. a gente só queria estar sozinho: ver na matinê – em plenos anos 60 – os seriados do zorro os filmes de boris karloff com os olhos da primeira vez; o king-kong encardido... a louca vida de cristo... tão mutilada a fitinha que a cada ano passava um poucochinho mais curta... (ah, a nostalgia que leva o burguês ao cine-clube!) a gente roubava moça pra se casar no outro dia; a gente só via gente quando os barcos de castanha voltavam da capital. então a gente corria, só pra ver os estrangeiros. o catalina de guerra pousava n’água e subia carregadinho de carne pros ricos da capital; os filhos dos nossos ricos estudavam em belém, e quando vinham de férias, com suas roupas estranhas, a gente olhava pra eles como chegados do céu. (honra se lava com sangue, aprendemos em menino; e um dia nos pagarão todo o mal que nos fizeram.) desculpa nossa tristeza. vassoura, detrás da porta, mandava embora a visita; pra que não chovesse à noite, atrapalhando o programa de encontrar namorada (que já tava no Marrocos, reservando duas cadeiras) prendia-se a chuva num copo; o cabilouro do boi, se comido atrás da porta, fazia ficar bonito. perdoa nossos mistérios. somos sobreviventes tribais. extinta a tribo, restou-nos o botequim. não me pergunte que fim levou seo Santos, o plantador dos mortos, nem onde está Ceará boista-de-boi ou o Cururu-tem-tem que dava carreiras olímpicas atrás dos moleques, xingando a mãe, a puta que pariu, azuado com o apelido tido aos berros por mil bocas risonhas sob o sol; nem queira saber de Zabelona, a louca municipal, ou do cara que passava o dia inteiro imitando instrumentos ácidos, cantando e assobiando e batucando com uma lata de querozene esso jacaré vazia sobre o ombro, encostada à face, e a sonoridade pura do prazer se despejando da lata e de seus olhos vesgos. eles estão mortos. Nós todos estamos mortos. a cacofonia da lata em meus ouvidos chama-se saudade. restou-nos talvez algum canto ancestral uma eterna panela de ferro em tripé um caroço de ouriço (duro, áspero, sujo, carregado de frutos leitosos – a imagem mais concreta de nossa alma trucidada); talvez ainda um paneiro de castanha pendurado entre peles de obra, chapéus de palha, arco e flecha, cocares trágicos - fósseis roubados ao dilúvio – e que hoje, destroçada a essência, decoram como escalpo a sala dos conquistadores. entenda a nossa miséria. era gostoso votar, eleger o mandatário. era tudo rica gente, quem usava o microfone. nesse tempo, de repente, a gente era importante: ganhava muda de roupa, comia carne no almoço, bebia cerveja às pencas, andava de roupa branca e ar de festa na cara... tudo por conta dos ricos. o voto, uma coisa cara; a gente se corrompia, enchia a pança de pinga, brigava na putaria pra pagar uma rodada, fazia puta chantagem com os donos de nossa vida (êta vingança paidégua!) alcança nossa alegria. a vida exposta no muro sempre em pasquim gozador de vez em quando fazia esc6andalo doce e feroz: “o pai do fulano é corno” (geralmente um boçal) e lá vinham as coisas podres (que a gente sabia há tempo) escrita em letras cruéis na porta do mercadinho. de melão-são-caetano a gente fazia judas. um dia, dois lambanceiros, carregando um desses monstros, deram de cara com a justa. era escuro e era tarde: - onde vão, rapaziada? - - levar o porre pra casa. - muito bem, se a gente pega leva logo pro xadrez. entenda nossa virtude. (a vida é um trem-expresso; a noite, meu sonho aceso; a luz do sol, o meu medo, coisas que trago e não calo) dona Totó, matriarca, levou a vida em chinelos. Tinha medo de feitiço e se pegava nos santos. Somente para assustá-la, sal pimenta e pião-roxo em sua porta deixou-se; levou a velha um mês, lavando a porta com banhos (e nós, por trás, sisbaldando) sic transit gloria mundi! amas a morte, parceiro? Ai, que saudade que eu tenho Dos tiroteios de outrora!... Geraldina cangaceira mandou matar o marido nos garimpos do pedral. depois comprou um cavalo todo arriado e fogoso, vestiu uma calça de homem e bebia em botequim. tinha papo e andava armada. era o terror dos meninos. um dia foi encontrada cravada à faca no chão; do coração decepado não lhe saiu uma gota! então as pedras choveram durante um mês no lugar. poetas desesperados escreviam e se matavam. na casa de Vó Floripes, Luís, Jacundá e Getúlio morreram só de beber. Até hoje ninguém sabe quem matou o cara estranho que foi achado no rio, com a tez tirada à faca. perceba a nossa herança. a nossa pouca vergonha, nossa desordem astral, sempre humilhou a Cultura. eis o espanto dos sábios: “Desde o Piauhi, todo o sertão exportou víveres, carne de boi e de porco; toucinho,farinha sêcca e de puba, assucar, cachaça, tabaco, doces, queijos, gallinhas,ovos, bois vivos, porcos e vaccas paridas,até laranjas, aboboras e inhames para a phantastica e maravilhosa Marabá,surgida de repente como obra de magia na foz do escuro tio Tacai-una”. e a delícia que fomos!... “Marabá brotara da ganância do dinheiro; logo,totalmente alheia a qualquer preocupação religiosa e moral. Principiou sendo o que chamam currutela, nome bem significativo, empregado com muito acerto nas regiões de garimpos, e que não carece comentários (...) Algumas das pragas morais e sociais mais comuns Eram a mancebia e a poligamia, por meio sobretudo do casamento civil. Quantos desses seringueiros, castanheiros, esqueciam-se de suas famílias legítimas,E tentavam construir outro lar, servindo-se do contrato civil passado sem as menores garantias, perante funcionários sem conhecimentos jurídicos e sobretudo sem moral! Não se respeitava nem casamento religioso, nem contrato civil efetuados anteriormente em outros lugares”. mas não ficava só nisso... ouçamos a voz de outros: “Marabá” - palavra mágica: luminosa e sombria evocando contos fantásticos ou narrações de aventureiros. (...) Mas, que habitantes! Aventureiros arriscando a sorte, colhedores de castanha, que são também, conforme a sucessão das estações, caçadores de diamantes. (...) Em Marabá encontram-se todas as raças e todas as paixões. A prostituição aí é intensa. Os casais em absoluto não se conformam com as promessas definitivas sancionadas pela Igreja ou pela lei civil. A proporção de botequins bate sem dúvida o recorde do mundo: um, para cada 17 habitantes.” O nomadismo é inerente a essa raça: instabilidade inata, tanto do sertanejo como do garimpeiro, hoje aqui, amanhã acolá, com ou sem razão. Vontade de “ver o mundo”, desejo nunca satisfeito de melhorar de vida. (...) Essa instabilidade da população só pode prejudicar gravemente a humanização e a “civilização da cidade, pois, que interesse há em constituir uma família, em construir uma casa, em dar uma instrução séria às crianças, se a vida, hoje “arrumada” aqui, tiver de ser amanhã transportada acolá e, depois de amanhã, ainda alhures? ... Entremos numa dessas casas. Cuidado em não esbarrar logo na entrada, pois há no chão uma fileira de paus curtos enfiados na terra erguendo-se ameaçadores, tal qual dentes de ancinhos; servem, na ausência de porta, para interditar a entrada aos porcos da vizinhança (...) Tanto as paredes como de palha de uns dois metros de altura, que esboçam uma divisão da casa em cômodos, são recobertos de jornais. Esse revestimento, julgam os moradores, é muito mais bonito do que um leite de cal ou a simples palha trançada. “Só branco, não interessa”, disse-me um deles certa vez. Para passar o tempo, basta se aproximar da parede e ler o jornal. E, se não souber ler, pode-se ao menos olhar as gravuras. (...) (...) a rede é sempre individual. Mas ninguém sabe, de tarde, quantas pessoas irão dormir de noite na casa. Talvez somente a família: os homens de um lado do tabique e as mulheres do outro. Mas, muitas vezes, parentes e amigos que vêm do “centro do comércio” pedem para arranchar e ficam semanas, meses a fio. É a lei da hospitalidade. (...) Não seria luxo, é claro, consertar essas casas (na medida do possível), tapar os buracos das paredes, trocar a palha do teto, instalar uma mesa na cozinha? Mas, para quê?” Barruel velho de guerra num entendeu porra nenhuma! E que pensavam os barqueiros deste médio Tocantins? Eles cantavam, cantavam... Quem me dera eu vê hoje de quem m’alembrei agora quem eu trago no sentido retratado na memora vou mimbora, vou mimbora as águas vão me levano eu nem sei quem fica atrás mas meus zoios vão chorano acabou-se, acabou-se quem eu amava com firmeza cobriu o corpo de luto e o coração de tristeza vou mimbora, vou mimbora lá pra baixo, pro Pará, não chore por mim, morena, eu vou e torno a voltar rio abaixo, rio abaixo remando minha canoa encostando em todo porto ganhando coisa boa rio arriba, rio abaixo remando na montaria coisa que acho bunito canoa aqui leva Maria cantei onte, cantei hoje, querem que eu cante travez meu peito num é de aço nem foi ferreiro qui fez essa noite não drumi cuma marreca piano o marvado desse bicho é gente qui tá criano vou mimbora, vou mimbora de hoje tô m’aviano o cavalo que vou nele tá no mato si criano... ai, as súcias de outrora!... eu vi, meu mano, eu vi, eu vi o acamadô onde o Fonseca apanhou... quantos tiros deu na onça, Luizãlo? Dei um, dei dois, mas o bicho foi-se embora E p í l o g o então, meu mano, o mundo pegou de raiva com a gente: abriu a tranca do inferno tirou seus monstros de ferro cortou o verde das matas rasgou a casca do ovo e despejou nossa história. depois, os seus cavaleiros entraram portas a dentro cortaram nossos cabelos comeram nosso feijão botaram fogo na roça e semearam colonião. morreu quase todo bicho esvaiu-se todo encanto visagem caiu no mato - pernas, para que vos quero? – passarinho foi embora dizer pra onde não sei; só ficamos nós, coitados, presos no arame farpado bando de bois entre bois. calcule nossa tragédia. (Ademir Braz )

A arte em grãos – VI: Xavier Santos

Marabaense nascido em 3 de dezembro de 1955, numa rua que se chamava Itacayunas em placa de latão esmaltada em azul e letras brancas e que, sabem lá Deus e os conquistadores, porque rebatizaram de Benjamin Constant – sem placa e sem letreiro. Filho de canoeiro e chacareiro do Quindangues, terra sagrada de cajus e encantamentos, só podia ter virado poesia e música, mais esta que aquela, coisas que faz como ninguém. Achou pouco e resolveu chamar-se Javier di Mayr-abá. É formado em Educação Física pela Universidade do Estado do Pará. Os poemas a seguir foram tirados do seu livro inédito Sob as luzes de Argos. Medidas O cálice da luz Tem que ser sorvido Em pequenos goles, A despeito da sede E das luzes. Só quem chega ao fundo do poço Sabe a exata distância Que o separa da superfície. A escuridão existe Para medir a intensidade da luz Que não lhe coube sê-la. Castanheiras Esperei-te séculos! Ergui-me viçosa e bela até que apareceste com ares senhoriais. Eu sempre pensei nosso sexo assim mesmo: sem nexo. Mas essa motoserra foi demais. Infâncias O mundo fez piruetas com o pé de manga-rosa pintou as bolas-de-gude com as sobras do arco-íris. Brincavam de amarelinhas felizes muricizeiros. Curiós, xexéus e sanhaços faziam o maior furdunço nas frutas, nos arvoredos. Os anos de todos eles a gente contava nos dedos. Com argamassa dos sonhos, a terra forjava os homens: era Bruno, Erick, Carol e Rafa brincando de lobisomem. Auto tessitura Habitam em mim duendes e ninfas que se embalam ao som das águas dos igarapés e rios... Sonhando com os mares sabem das enchentes e vazantes; deduzem marés e preamar. Brotam dos meus olhos a alegria da luz do nascer do dia e a tristeza de não-sei-bem-onde adornada pelo vôo das gaivotas e andorinhas nos finais de tarde a povoar meus olhos. Coexisto escárnio e mistério; convivo a cada segundo com a hipótese do fim; em cada curva gume da afiada lâmina a esperar por mim. Meus líquidos – mel e fel, são taças a inundar-me os leitos. As dores, na carne ínvia, Agem ambíguas em viagens e lendas. - Os sons roubam-me a cena. É sempre assim! Sou tantos nessa moldura de carne e ossos... A música que me habita ronda em minha mesa farta de canções impossíveis. Olho o horizonte e tento resumir o céu aos pedaços que alcançam minhas retinas. Os dias parecem-me tão curtos já não me bastam; sou pouco demais para mim mesmo! Talvez porque ainda procuro rumos em minhas velas enfunadas. O tempo é um novelo: nem novo, nem velho, basta-se a si mesmo. É só tempo, a esmo, sem antagonismos... sem dilemas... O mundo que nos rodeia é um abismo de sorriso largo e o reino fugidio do sonho não contém a magia do passo que decide. Os sonhos são mais caprichosos que a musa que amei. *******