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sexta-feira, 23 de março de 2007

Deu no Blog do Alencar

Quinta-feira, Março 22, 2007 Ademir Braz, o Poeta da Marabá Parisiense Do advogado - militante e combativo - e poeta Ronaldo Giusti, amável leitor deste Blog, recebo comentário que merece ser transformado em post. Assino embaixo, em cima e nos lados. Meu caro amigo, Ademir Braz é, sem favor, o maior expoente da poesia tocantina. Está entre os dez maiores poetas do Pará. A exemplo de Nauro Machado, que jamais deixou São Luís, sua terra natal (minha também), Ademir, salvo por pequeno período, não suportou viver longe daqui e dos eu povo sofrido, matéria prima da sua poesia. Também me aventuro no exercício da poesia. Já escrevi e publiquei um livro ( Canto Inicial, 1984, Sioge, São luís/MA). Tenho outro ainda por publicar. Agradeço por dispor em seu blog notícia e idéias interessantes e importantes para o País. Um grande abraço Ronaldo Giusti Agradeço pela parte que me toca. E aguardamos todos nós o novo livro de Ronaldo Giusti.

Carajás

Deu ontem no blog do Val-André (veja link no "recomendo"):
Senador do Tocantins apresenta proposta plebiscitária do Estado do Carajás no Senado

O senador Leomar Quintanilha (PMDB - TO) apresentou o Projeto de Decreto Legislativo que autoriza a realização de plebiscito para a criação do Estado de Carajás, a partir da emancipação do Estado do Pará. Leia aqui.Quintanilha é um dos artífices que, ao lado do ex-Deputado Federal e ex-Governador, Siqueira Campos, criaram o Estado do Tocantins, a partir de desmembramento do Estado do Goiás.O senado tocantinense atendeu o pedido formulado pelo amigo e Deputado Federal Giovanni (PDT-PA).

Periferia

Zeca Menino morreu ontem na estrada com duas balas enfiadas na cumbuca; era parceiro de Domingo Sacanagem outro garoto que dançou numa arapuca. Ainda ontem os dois curtiam embaladas, jogavam bola no campinho da poeira ficaram prenhas suas duas namoradas que se escondem lá pras bandas da Mangueira Zeca dizia que seu corpo era fechado, ninguém duvida que essa coisa aconteça, mas se fecharam o corpo dele, a cabeça estava exposta ao balaço do soldado. Depois disseram que o pistola era paisano... A mesma história com fulano e com sicrano! Não tem remédio, não tem saída pra essa droga que alguns chamam de vida. (Ademir Braz) *****

Poema da escuridão

Ana de Luanda, 20jan05, 9 anos No claro do mundo as borboletas voam alegres. E de repente, puf!!, apagam a luz e a escuridão começa. Tudo sem cores, sem vida e sem enxergar. O mundo fica escuro e as borboletas vão embora. Por causa da terrível escuridão, não só as luzes dos quartos se apagam, mas as luzes do mundo também se apagam e as borboletas vão embora. Elas vão direto para a china pois lá é noite. Crianças acham que é o bicho-noite, vão dormir assustadas. Depois de horas e horas acordam para ver se ele já foi embora, mas ele ainda está lá; algumas crianças ficam acordadas, e outras vão dormir logo logo ao ouvir os cantos dos pássaros. O dia volta e as borboletas brincam no ar.

Archimedes, Consulta e outras nostalgias

Grande parte de sua vida, mais de 40 anos, meu pai Valdemarzinho catou e cortou castanha nas terras de Pedro Marinho de Oliveira. Enquanto Don’Ana lavava roupas no Itacayunas, Valdemarzinho remava sua canoa Tocantins acima e ia embora: entrava pelas sinuosas curvas do Tauaryzinho até desfazer-se por longos meses nas matas do castanhal Consulta. Solitário e corajoso, meu pai gostava mesmo era de trabalhar e estar só naquelas matas de tempos verdes e duendes. Em 1974, já adulto, e meu pai mesmo idoso ainda escarafunchando a mata, fui de penta, nos primeiros meses do ano, época de cheias, conhecer a colocação. Só de ida a viagem, que seria de seis a oito horas, durou dia e meio. Celso “Pato” Brasil, Seu Rico e aquele monstruoso par de óculos escuros Fittipaldi, Zezé Rosa, seu Edésio, Tunico Braga, Ademir Martins, o piloto Diodésio, eu e outros que me fogem à memória (mas juro que Nego Quinca estava lá!), bebemos neste escasso período uma caixa, um engradado, duas sacas de sarrapilheira atulhadas de garrafas cheias até o gogó e mais alguns litros avulsos de cachaça enquanto navegávamos numa algazarra de espantar as jaçanãs. Tauaryzinho acima, quase em frente à morada de Mané Pifeiro o motor empacou. Anoitecia e tivemos de aportar na ribanceira porque era impossível continuar escuro a dentro, entre galhos que desciam de bubuia ou avançavam ameaçadores das margens estreitas do igarapé. Aparecera alguma encrenca no Archimedes, máquina sueca maravilhosa que desde os tempos épicos empurrava barcos carregados de castanha, e surpreendeu-me a coincidência: fomos dar prego bem em frente à casa do maior festeiro das redondezas. E prego dos bons, justo no martelete do cabeçote de ignição, o que forçou seu Edésio a vir de cavalo, no meio da noite, buscar peça nova em Marabá. O defeito era pura invenção! Diodésio armara a coisa para a gente passar a noite em casa do Mané Pifeiro, longe dos olhos de camiranga de seu Edésio, homem sério e da confiança do patrão. Armadas as redes, barriga cheia de frito, garrafa de cachaça ao alcance da mão, naquela noite até gato voou. Um monte de carvão ocupava praticamente metade do barracão de Pifeiro, onde as redes foram atadas à luz de uma poronga. Já meio bicados, contávamos piadas deitados e ríamos por qualquer coisa quando começaram a voar e a cair enormes pedaços de carvão sobre nossas cabeças. Penso ainda hoje que foi Tunico Braga quem iniciou os arremessos. Em resposta, planou para todos os lados uma revoada de chinelos, precatas, congas, e no meio de tanto granizo um gato caiu dentro da rede e em cima do peito de Celso Brasil. Qual dos dois uivou mais assustado dentro da noite não se sabe. Nem bem apeou da montaria, seu Edésio soube de tudo por Mané Pifeiro, o linguarudo. A cabroeira, o magote de porre, não tinha princípios cristãos nem de cidadania, disse ele. Esparramaram meu carvão de encomenda, o barracão está imundo e ainda rebolaram meu gato de estimação, onde já se viu?! Aquilo não era mesmo proceder de gente, admitiu seu Edésio, fôlego ainda célere da cavalgada noturna. Tinha a voz pausada e macia, de pelica, mas as lapadas da língua queimavam como umbigo-de-boi. E já que era para jogar rebolo, ia sapecar n’água aquela sandália que acabara de acertar-lhe o ouvido. “A sandália é minha, mestre, mas não fui eu que joguei. Até me acertaram um gato e não sei o que vou dizer em casa quando a mulher me ver todo arranhado no peito”, reclamou Celso Brasil. E o Tunico Braga ali, na bucha: “Diz que foi o gato e ela te mata!” Até seu Edésio riu do jogo de palavras. Levantamos cedo e jogamos Zezé Rosa dentro d’água. Como ele não sabia nadar, amarramos o manilhão do barco por baixo de seus braços e ele veio algum tempo a reboque, a ressaca de molho. O castanhal Consulta ficava logo após a curva do rio. Uma prainha de areias brancas, uma ponta de terra com alguma grama, o barracão meio cheio de castanha e o ressôo da mata virgem por detrás. Pulamos na água fria, cor de ouriço, e comemos galinha caipira. O arroz era muito alvo na panela de ferro, e em torno da mesa de madeira dividimos alguns goles com o cozinheiro. Da mata vinha o cheiro de seivas, folhagens e por trás do canto das aves um enorme silêncio. O sol estalava sobre as folhas do verde oceânico. Encontrei meu pai e ficamos ali, juntos, terremotos de silenciosa ternura a desmantelar o coração – sempre foi assim. Desde então a Consulta me é uma referência mágica, tal qual os extintos garimpos de diamante do Tocantins, abaixo do Itupiranga – Bagagem, Piranheira, Sumaúma, Urubuzinho – onde a saudade em correnteza levou-me certo dia em busca do meu pai também naqueles anos 70, quando ele, Zé Garimpeiro, Pedro Cascalho e outros septuagenários levaram sua nostalgia em viagem de despedida às corredeiras e seus diamantes que seriam afogados para sempre sob a represa. Se o castanhal era parte da vida do meu pai, a outra parte aflorava entre pedrais, ternos de peneira, farrachos, guriatãs e córregos por onde subiam levas de matrinchãs. Tantos anos depois e me vem esta vontade de tornar à Consulta, hoje um povoado de camponeses. Tudo porque dia desses encontrei no terminal rodoviário do km-6 o Elvan do Vale (Sadôba), que me apresentou Siliveste, daquela comunidade. Eles então me falaram que na Consulta são já moradores antigos (e me deu vontade de ir conhecê-los) o João Magro, o Chico Galinha, Rofé, Xará, Emoge, Conceição Castanheira, Maria Buchéca, Raimundo Bulacha, Maria Godóia, Antônio Neite “Mosquito”, e um artista da voz chamado Gabilanha. Tudo gente da mais fina estirpe. Como meu pai. (16nov06)

quinta-feira, 22 de março de 2007

Vinicius

Não deve demorar a chegada em casa, para acalanto do pai Silvio Damasceno e da mãe Luciana, meu futuro afilhado Vinícius. Ele nasceu às 21h00 de 15 de março com 3,270 gramas e "desconforto respiratório" causado por um princípio de pneumonia. Por enquanto Vinícius está ainda sob cuidados médicos e os pais andaram com nós atados na garganta. Mas quem andou sofreu um repentino surto de falta de ar fomos todos nós, amigos do casal, de sorte que, pelo menos no meu caso, preciso urgentemente de uns goles de aguardente e uma porção de piabanha assada na brasa para dar cobro ao coração.

Cruz credo!

Texto remetido pela amigona Hélida Joanes, que publico sem saber se o diabo desse dialeto é goiano, mineiro, mandarim ou o primeiro linguajar do pithecanthropus erectus: “Sapassado, era sessetembro, taveu na cuzinha tomano uma pincumel e cuzinhando um kidicarne com mastumate pra fazê uma macarronada com frangassado. Quascaí de susto quando ouvi um barui vindo de dendufornu, pareceno um tidiguerra. A receita mandopô midipipoca denda galinha prassá; u fornu isquentô, o mistorô e ucu da galinha ispludiu! Nossinhora! Fiquei branco quinein um lidileite. Foi um trem doidimais! Quascaí dendapia! Fiquei sensabê doncovim, proncovô, oncotô. Ói procevê quilucura...”

Aí tem...

Empresária vai ao Bradesco/Nova Marabá com um cheque de R$13.000,00. Procura a gerência, passa o cheque, paga algumas duplicatas e pede R$ 2.000,00 em espécie. Quem a atendeu vai ao caixa, providencia os pagamentos e traz o dinheiro em cédulas de R$50. Satisfeita, a empresária pega seu carro e vai para o seu escritório, também na Nova Marabá. Assim que chega, sua irmã pega o mesmo carro e vai saindo, quando é abordada por um motoqueiro assaltante que leva sua bolsa com o celular e documentos. Passado o susto, a moça liga para o seu celular, o bandido atende e ela, então, pede-lhe que devolva os documentos. - “Só se você me der aqueles dois mil com que você saiu do banco”, respondeu o bem informado assaltante.

Ana de Luanda

Minha filha Ana de Luanda fez onze anos neste 20 de março. Duas velinhas azuis ornamentaram as quatro fatias de bolo de chocolate e cupuaçu, compradas numa casa de doces, e agasalhadas num prato comum sobre uma cadeira, porque a mesa de refeições estava - como sempre! - atulhada de livros, máquina datilográfica, ferro de engomar, uma penca de bananas e outros trastes que a solidão e a cabeça distraída dispersam em qualquer parte. Na volta das aulas, muito depois do meio-dia, Giordano Bruno ajudou nos “parabéns pra você”, e tirou fotografias. Tudo bem. Sei que a pobreza não é mal irremediável, nem existe força divina capaz de modificar uma sociedade que divide as pessoas conforme a profundeza e volume de suas posses. Mas isso foi tudo que pude dar à minha filha e ela contentou-se tanto com tão pouco que quando foi embora tinha os olhos cheios de brilhantes.

Chega de barbárie!

Maria Ivete Bastos é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém. Ela tem se destacado na resistência contra o processo de grilagem de terras, expulsão de pequenos agricultores e desflorestamento para a plantação de soja naquela região do Pará, e foi homenageada em Nova Delhi, na Índia, em setembro do ano passado, com o prêmio Mahatma Gandhi, tanto por esta luta sócio-ambiental quanto por representar as mulheres da Amazônia. Agora, exatamente por sua atuação, Ivete está sendo ameaçada de morte por fazendeiros e madeireiros da região que tiveram seus interesses ameaçados. Não apenas ameaçada de morte, mas de ser torturada até a morte. Na tentativa de impedir que esta barbaridade ocorra, o Conselho Nacional dos Seringueiros elaborou um abaixo-assinado internacional, solicitando ao ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, que Maria Ivete Bastos seja incluída no Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, que ela possa escolher a equipe de proteção de sua confiança, e que outros líderes da luta por reforma agrária e Direitos Humanos da região também recebam proteção. É preciso que o Brasil não se envolva em mais este ato de barbárie, como o que sacrificou Dorothy Stang.