terça-feira, 3 de abril de 2007
PDT em desacordo sobre DRT?
Reunidas em Belém no final de semana, as principais lideranças do PDT decidiram, segundo o blogger santareno Jeso Carneiro, o nome que irá ocupar a Delegacia do Trabalho no Pará - que até poucos dias era naco do PCdoB. Pelo acordo, sairia o advogado Jorge Lopes de Farias e entraria o também advogado Fernando Coimbra, integrante do quadro de pessoal do TCM (Tribunal de Contas dos Municípios) e presidente do diretório do partido em Belém.
Outras mudanças previstas seriam no comando das três Subdelegacias de Trabalho existentes no Estado: Santarém, Castanhal e Marabá.Os nomes para Santarém e Castanhal não foram ainda definidos. Apenas o de Sérgio Corrêa para Marabá.
Acontece que no apagar das luzes da sua gestão, o delegado regional Jorge Lopes de Farias nomeou Fred Silveira, auditor do Trabalho, para a sub-DRT em Marabá, decisão que embolou o meio de campo do setor.
Na terça-feira, Sérgio Corrêa confirmou a Política & Desenvolvimento sua indicação ao cargo, apenas dois dias após a posse de Fred Silveira. Corrêa é o nome do deputado federal Giovanni Queiroz que, inclusive, o conduzira à direção do pólo regional do Detran, com sede em Marabá, cargo que Corrêa exerceu até início deste ano, por conta da cota do PDT na coligação do ex-governador Almir Gabriel. Com a eleição de Ana Júlia (PT) Corrêa foi substituído pelo ex-prefeito de Itupiranga, José Milesi, indicado pelo deputado federal Asdrúbal Bentes (PMDB).
Agora, com a nomeação de um representante do PDT para o Ministério dos Transportes, pelo menos no sul e sudeste do Pará todos os cargos da área federal terão pessoas ligadas à militância da sigla e ao deputado federal Giovanni Queiroz.
Já o blogueiro Juvêncio Arruda (5ª Emenda) diz, segundo fonte, que a parada pela chefia da Delegacia Regional do Trabalho no Pará não está decidida em favor de Fernando Coimbra: “Tem chances de atropelar, na reta final, um pedetista histórico, da zona bragantina, com trânsito na coalizão estadual. Podem chamá-lo de Napoleão Braun.”
Domicílio
E por falar em Giovanni Queiroz, ele chegou à tarde desse domingo em Marabá e à noite reuniu-se com meia dúzia de pecuaristas, empresários e técnicos que assessoram projetos agropecuários na região e, claro, com Sérgio Correa. Na pauta, a exigência do georeferenciamento, há dois anos uma exigência legal para a regularização de terras rurais e que o Incra de Marabá não tem a menor condição de fornecer, por falta de estrutura. Por isso, agricultores e fazendeiros estão sendo prejudicados porque, sem o reconhecimento da posse da propriedade, não podem receber financiamento bancário para investir em agricultura ou pecuária. "No Sul do Pará, não existe um único projeto certificado pela SR-27, a maior superintendência regional do Incra no Estado", reclamou o parlamentar.
Por conta da emancipação do Estado de Carajás, Giovanni Queiroz decidiu fixar residência também em Marabá (além de Redenção), e aqui vai montar um escritório de apoio à campanha.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
A arte em grãos: Jorge Luis Ribeiro
Arremedo de biografia
Nasci em Inhapim, Minas Gerais, em 68, filho de um 25 de dezembro chuvoso. Mas fui nascer de novo, mesmo, foi em Marabá, já faz tanto tempo que fiquei antigo de Rios e sol. Este é meu lugar que acolheu meus amores, amigos, abrigos e saudades. Fiz-me advogado só para experimentar desentortar leis e tentar ajudar companheiros de sonhos a regar sementes de justiça. Andei de avião pela primeira vez e vi que somos pequenos demais para tanta arrogância.
Depois fui fazer mestrado no Sul, passei frio, saudades e fui assaltado, além de trazer um diploma que guardei longe da parede. Ah, também passei por Coimbra por uns meses, vi poesias nas paredes medievais de Portugal e visitei parentes que passam frios e fomes pela parca moeda estrangeira.
Vi que o mundo se comunica mais na dor que nas glórias. Andei um pouco e reaprendi a amar nossa casa e nosso café da manhã, voltar apaixonado pra casa e pintar juntos um armário velho e expulsar cupins, plantar uma nuvem azul na cozinha.
Mas minha maior tristeza ainda é não ter tempo de andar com os pés nelas: nas nuvens...
*****
Maneiras mineiras
Morrinha de janeiro na roça.
Biscoito de polvilho que explodia com pipoca e chuva.
Moinho de café rodando café torrado com estórias
de assombração dentro de xícaras esmaltadas.
Arreio no esteio mofando de umidade da cangalha
velha rangendo de frio. Broa de milho assando rezas
de acalmar temporal com mato bento nos mistérios
do assoalho vistoriado em segredo de cômoda branca
espiando a tia solteira com seus quebráveis sonhos de guarda-louça.
Bica de imbaúba jorrando água de enxurrada tocando moinho
d'água que passa debaixo da mosca azul na privada.
Cana assada para tosse de friagem tecendo balaio de taquara
sob guarda-chuva de cabo de chifre espiando a galocha
sentada no pilão que dorme.
A mão tira com colher de pau o cheiro de rapa de angu
na fumaça de almoço com palmito de indaiá.
Chapéu molhado do Pai cuida da cuia de milho de planta
na terra estocada para arar com a junta de boi cangada.
Tempo tecendo uma colcha de retalhos colorida
na máquina de costura cros lux, Mãe,
o pedal que roda o carretel de silêncio
de goteiras de sonhos que não têm fim,
Eu.
Como assim?
Agora perdi o encalço da palavra prometida ontem
Mas não me preocupo
A merda é que as desculpas desorganizam a gente
Para o que eu sei não há emprego
Tô na rua e vou zoar aí...
Irrito as horas mascando chicletes
Colo a goma no vidro rachado
A janela do ônibus vai dar no orifício do mundo
Onde um camaleão de chicletes escorre mole
A rosa de sua cor estaciona nos olhos do meio-dia
Minha imagem quase derretida descamufla a forma
Alguém sacaneou nosso sonho, veja os pedintes!
- mundo fodido!
E ninguém faz motim
Mas eu, de boa, não estou magoado não!
É que fico também assim,
Resistindo sem atitude, entende?
Enquanto a rua
Passa por mim...
Quando a libélula faz amor com a água
Quero te amar com a impaciência das neblinas
Que aprendem a não serem mais virgens
Ter-me preso entre suas pernas e em meu corpo domada
O mapa de sua pele navegada que viajo
Aos cantos mais secretos teus
Te ver gozar com o fremir das borboletas que encontram as asas
Nem que eu te perca em teu vôo – (por um instante só!)
Janela
hoje amanheceu um pombo cinza enrolado no telhado da história
... era Coimbra
Coletivo
Os trabalhadores dentro do ônibus no fim do dia
olhos de uma vida inteira parecem velhos
olhos de um dia inteiro parecem vermelhos
sono e cansaço de um dia de trabalho
que uma vida em-batalha
os olhos parecem lesados
o corpo parece pesado
olhos de uma vida de dia-a-dia
no trabalho de um dia
o que sustentaria a loucura e a mais valia
senão o pescoço e ombros adequados
mas hoje é sexta-feira e o horizonte cai embriagado
e assim vamos todos
todos enlatados na palavra POVO
até que se ouça o grito
de todos os silêncios somados.
Conspiração
Essas velhinhas que olham o tempo das janelas altas
As ruas pontilhadas de pessoas que o tempo todo passam
Eu acho que elas conjuram um pacto de parar o tempo
E os que passam com o tempo não percebem que elas ficam...
Enquanto todos passam o tempo todo
Sobre desvelocidade intemporal da solidão
Elas suspiram um cheiro de sono
Um tempo que infelizmente não pára no interior da gente
Nelas até a luz fica estacionária nas asas de moscas vacilantes
Antes de serem de um tempo museu que move ao detrás
Elas guardam um presente que perdeu seu rumo lá atrás
Ou que seguiu outro rumo por escolha
É por isso que chegam até nós
Num agora com cheiro de tempo dormido
Não sei o que segredam com o tempo...
São de um passado que moveu noutra direção
Mas que, não sei por que, nos ultrapassa
Eu queria saber de que matéria é feita
A sabedoria de silêncios que elas conspiram.
Sérgio Correa na Sub-DRT
Deu ontem no blog do santareno Jeso Carneiro, 1º de abril
PDT escolhe novo titular da Delegacia do Trabalho no Pará
O PDT bateu o martelo.
As principais lideranças do partido, reunidas em Belém neste final de semana, decidiram o nome que irá ocupar a Delegacia do Trabalho no Pará - que até poucos dias era naco do PCdoB.
Sai o advogado Jorge Lopes de Farias e entra o também advogado Fernando Coimbra, integrante do quadro de pessoal do TCM (Tribunal de Contas dos Municípios).
Fernando é filiado ao PDT. Preside o diretório do partido em Belém.
Também haverá mudança de comando das três Subdelegacias de Trabalho existentes no Estado: Santarém, Castanhal e Marabá.
Em Marabá, o nome escolhido foi de Sérgio Corrêa.
O subdelegado de Santarém ainda não foi definido. Nem o de Castanhal.As mudanças tem ligação estreita com o agrado feito por Lula ao PDT, que ganhou o Ministério do Trabalho."
Até final do ano passado, o advogado mineiro e pedetista Sérgio Correa respondia pelo pólo regional do Detran, com sede em Marabá, colocado pelo deputado federal Giovanni Queiroz (PDT), onde foi substituído na gestão Ana Júlia pelo ex-prefeito de Itupiranga, José Milesi, indicado pelo deputado federal Asdrúbal Bentes (PMDB).
E por falar em Giovanni Queiroz, ele chegou à tarde desse domingo em Marabá e à noite reuniu-se com meia dúzia de pecuaristas, empresários e técnicos que assessoram projetos agropecuários na região e, claro, com Sérgio Correa. Na pauta, a exigência do georeferenciamento, há dois anos uma exigência legal para a regularização de terras rurais e que o Incra de Marabá não tem a menor condição de fornecer, por falta de estrutura. Por isso, agricultores e fazendeiros estão sendo prejudicados porque, sem o reconhecimento da posse da propriedade, não podem receber financiamento bancário para investir em agricultura ou pecuária. "No Sul do Pará, não existe um único projeto certificadopela SR-27, a maior superintendência regional do Incra no Estado", reclamou o parlamentar.
Por conta da emancipação do Estado de Carajás, Giovanni Queiroz decidiu fixar residência também em Marabá (além de Redenção), e aqui vai montar um escritório de apoio à campanha.
domingo, 1 de abril de 2007
O gomo da espiga
O luar trouxe, de repente, o verão.
Toda a noite a lua anunciou no céu
a festa e a colheita do sol
desses dias de lâminas e luz,
fungos, signos e caracóis .
Na manhã da terceira manhã,
o vento ergueu da estrada à nuvem
um plástico que, leve, desfez-se no ar.
Levou-o adiante o anjo solar,
em litania aos deuses,
por esse tempo de enxugar o riso,
de pôr à janela os encardidos vasos,
e semear a luz na lona escura
que desprotege inválidos e alagados.
(Ademir Braz)
Júlio César Costa
Há algum tempo, Júlio César Costa mandou-me parte dos seus trabalhos poéticos, que juntei a outros - igualmente bons - autores locais com a intenção de publicar. Editar e dar a lume, em Marabá, é um parto doloroso: não se tem apoio (empresarial ou oficial) e só quem se dá bem são as gráficas, que arrancam o couro dos interessados.
Meses atrás, ao negociar uma possível publicação, falei entusiasmado com ele e ele pediu uma cópia dos seus escritos, ficou de pensar e decidir. E decidiu: achou toda a sua produção, compilada por ele mesmo entre 1982/1992, uma porcaria, digna da lixeira, e recusou-se autorizar a divulgação.
Bom. Júlio César é importante promotor público na nossa cidade e pode processar-me. Mas eu não posso guardar comigo o tesouro da sua poesia. Eis Júlio, por ele mesmo, e um pouco da sua verve.
“O que me proporcionou inegável contato com a poesia moderna, foi, de fato, minha ida à Belém, no início dos anos 80, para estudar na Universidade. Estudar Direito e Ciências Sociais. Certamente por diletantismo e pelo fervor da idade, já tinha me aventurado a cometer versos entre os 12 e os 14 anos, e recebido mesmo um forte apoio da Professora Ivanir Tenório Ramos, a quem agradeço. Por esta época, quando também participava do Mojumaexto, que tive contato com o Memória Tribal de Ademir Braz, exposto na praça Duque de Caxias, ali no coreto, - numa de nossas inesquecíveis “feiras de arte” - muito parecida com a poesia no varal que iria encontrar em Belém nas tardes e noites da Praça do Carmo, ou na Feira do Açaí. Assim, lá na capital, pude conhecer Age de Carvalho e Max Martins, e através do primeiro, pude também chegar até Mário Faustino com sua poesia – experiência, obra fundamental para, inegavelmente, também contactar com Ezra Pound e o seu paideuma; embora em Marabá, mesmo com as limitações literárias, políticas, editoriais e comerciais, (que hoje, com os avanços, ainda persistem), já tivera obtido conhecimento com T. S. Eliot através da tradução de Ivan Junqueira e com o famoso “Como Fazer Versos”, de Maiakovski, que adquiri em razão de uma certa “militância” política (a efervescência era maravilhosa em razão da abertura e de um certo avanço nos costumes). Mesmo assim as crises existenciais persistiram, mesmo porquê típicas da adolescência, e porque não se concebe um poeta sem crises de existência..., e numa delas rasquei e toquei fogo nos poemas que tinha escrito até então... Na verdade, hoje posso confessar, rasguei meus poemas várias vezes depois, e por vários motivos; de um lado a intensa autocrítica em conhecer os melhores e com eles não poder comparar-se (o que na verdade era pura vaidade) e de outro lado a persistente timidez, dois traços do meu caráter e de minha personalidade que me acompanham até hoje, entrado em anos (menos a vaidade, é claro, que é um pecado e tenho procurado abandonar). A passagem do tempo, porém, favoreceu a coragem de publicar estes versos tímidos, e mesmo assim à la Ungaretti, uns bem poucos exemplares; não porque queira ser cult, mas por questões financeiras e de talento, com menos exemplares fica mais fácil ser esquecido , e logo, se a poesia não for das melhores. O peso da tradição é muito forte. Nunca esqueci o axioma de T.S, Eliot para quem somente é possível fazer poesia até os vinte e cincos anos; e a história do Rimbaud que escreveu apenas até os dezenove anos, salvo engano. Estou com meus trinta e seis anos, atravessando a idade da razão, e por incrível que pareça, ainda cometo versos. Para o bem ou para o mal, devo colocar-me sob julgamento público. Por isso esse modesto livro de poesias, mais exercícios poéticos, procurando imitar meus autores preferidos, Bandeira, Leminski, Pessoa, Age de Carvalho, Maiakovski, Drumond, Neruda, e. e. cuminngs, Orides Fontela, Pagão, que necessariamente uma poesia que posso chamar de autêntica, porque ainda considero-me naquele fase preconizada por Pound, de imitação dos grandes nomes. São poemas que sobraram de minhas destruições criadoras e outros, os últimos do livro, escritos há poucos dias. Há poemas que têm mais de quinze anos e outros não mais que poucos meses. Por fim, confesso que a publicação não doeu tanto como eu imaginava, e que sinto-me imensamente feliz em continuar a fazer poesia e de gostar de poesia, com a mesma intensidade de quase dezesseis anos atrás. O que revela que consegui ultrapassar a fase preconizada pelos grandes, com relação à idade ou ainda, possa ser que não amadureci de todo... O que seria bem melhor. Mas, arre, como falo. (Marabá, janeiro de 2001)
Existencialismo
eu que andei plantando rosas
- ora, arre! -
leitmotivs,
vers libre,
sartre...
- eu quero mais é o poder da tarde!
Presságio
cada um com sua dor obscura
sua negra cavidade
cada qual com sua loucura,
sua própria verdade
e cada um de nós com sua dor oculta,
sua tristeza disfarçada
e a gruta que da alma esconde
o presságio do Nada?
fende este Sol, ao mês de dezembro
- meu coração, como arde!
Revolução
não ao amor institucional
oficial,
amor de decreto
não ao amor quieto
reto
amor de gravata
não ao amor em lata
em falta,
amor de lógica
não ao amor de loja,
em cota,
amor de régua
não ao amor de tréguas
tipo água,
amor-medida, em bulas
amor sim, como pedaços de nuvens...
by Ricardo Campos II
eu que trago o coração rasgado, em panos
que tenho sentido o passar dos anos
sem nada fazer
amar - constante palavra
malamar, sorrir e sofrer
dizer o que não sinto
às vezes esquecer
mas tenho vivido com possibilidades
e aprendido que não posso ser tanto
sou menos o que pareço
quase nunca o que penso
quero ser muito
quero o que não caiba
a solidão que se assoma
quero estar à faina,
na labuta,
a loucura possível,
no lado escuro da lua
velo pela chama acesa
a clara luz da rua
e pela raiva que quebra
o vidro da redoma
sábado, 31 de março de 2007
Corações santarenos
Lúcio Flávio Pinto é uma amizade que vem desde 1971 quando, por influência dele acabei virando jornalista - eu era operador (uma espécie de telegrafista) da The Western Telegraph Co. , em Belém, e um dia lhe mandei um texto para a coluna que ele tinha n'A Província do Pará. Sua resposta foi um texto chamado "José Baudelaire" (que guardo até hoje) em que aborda meu escrito e me convida a aparecer na redação.
Eu fui e me ferrei.
Se não tivesse ido e virado jornalista, como virei, teria me casado com uma abaetetubense cheia do dinheiro e estaria igualmente podre de rico (ou morto de tanto beber cachaça com camarão seco). Então fui e me ferrei. Como? Bem, digam aí o nome de um jornalista que esteja bem de vida sem ter vendido a alma ao diabo e ao dono do jornal (dono de jornal é jornalista? Rá!)
Mas os ganhos pessoais foram incalculáveis. Através do Lúcio, conheci os demais da família - Luís, Raimundo, Elias, mãe Iracy (que me deu um guia e rumo à minha mediunidade), e os outros filhos e filhas e amigos e amigas. A amizade do Lúcio e seus familiares dignifica qualquer um. Mesmo este menor dos seus amigos.
Se ainda não deu para o leitor perceber, explico que esse intróito todo é talvez para justificar o texto generoso com que Lúcio Flávio Pinto referiu-se a este blog no seu Jornal Pessoal n. 388, 2a. quinzena de março:
A voz de Marabá
Nasci em Santarém, com muito orgulho. Mas meu segundo lar, adotivo, é Marabá. Talvez tenha estado mais vezes lá, nestes últimos anos, do que na terra natal, por motivos outros, que independem da minha vontade (se ela pudesse prevalecer, estaria no Tapajós constantemente). Afeiçoei-me aos marabaenses, que sempre me trataram muito bem. E sou um apaixonado por seus temas, que contêm a essência do drama amazônico.
Em 1971 eu escrevia uma coluna diária (Quark) em A Província do Pará, quando fui surpreendido por um texto de primeira: “Marabá: terra mesopotâmica do sol”. Publiquei a crônica, de acento poético, e fui atrás do autor, que se escondia atrás de um cargo burocrático na empresa de telefonia e telegrafia Western (de cuja importância, naqueles tempos, as pessoas mais jovens não podem ter idéia).
O autor daquele texto encantador era Ademir Braz, “o pagão”, um outsider que navegaria entre Lima Barreto e Rimbaud se não tivesse voltado ao seu sítio, no “Cabelo Seco”, que o Tocantins encharca nas suas enchentes semestrais, em algumas delas exagerando na dose. Voltou, de certa forma se amansou um pouco, mas continuou um observador agudo da cena local e um inspirado escritor, mais inspirado do que produtivo.
Dele já podiam ter nascido páginas mais numerosas e profundas sobre a saga dessa região, se ele não se tivesse sedimentado a tal ponto que a mobilidade dos dedos não dá conta da volúpia da inspiração. Ainda mais porque, com família, precisa dar conta dos encargos, que, antes, quando era gauche na vida, mandava para os quintos dos infernos (que são os outros, conforme sartrianamente aprendemos).
Agora vejo que Ademir criou seu blog, sugestiva e poeticamente batizado por Quaradouro. Uma página digital bem nascida promete bons frutos. Da primeira safra colho uma nota, pequena e profunda, que diz muito sobre o desperdício e a dilapidação dos talentos da terra. Observa Ademir:
“Ex-prefeito, ex-deputado estadual e federal e ex-secretário de Estado, o engenheiro sanitarista Haroldo Bezerra tem seu nome ajuntado ao do ex-prefeito Nagib Mutran Neto e da ex-vereadora e ex-deputada estadual Elza Miranda numa suposta disputa à Câmara Municipal. Em algum lugar desta biboca tem alguém lidando com vudu”.
Grande Marabá. Triste Marabala. Como profetizou Caetano, o Haiti é ali – e aqui. Saravá, grande Ademir.
Sugado do blog Insanus
Maria do Rosário em chamas
Em discurso sobre turismo sexual na Câmara de Vereadores de São Paulo na terça-feira, o cantor, evangélico, seguidor do Maluf, mais novo apoiador de Lula e vereador, Agnaldo Timóteo (PR) resolveu enfiar o pé na jaca.
"Agora, ela [Marta Suplicy] assume e a primeira proposta é para acabar com o tal do turismo sexual. Pelo amor de Deus, minha gente, vai prender um turista porque ele levou pro motel uma menina de 16 anos? É brincadeira!"
"As meninas com um popozão desse tamanho, os peitos como uma melancia e rodando bolsinha, aí o turista pega e passa a ripa. Tenha piedade. O cara [turista] não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto.”
A vereadora do PT Claudete Alves surtou e exigiu que as declarações fossem retiradas das notas da sessão que seriam publicadas no Diário Oficial. Tréplica de Timóteo: "com quantos anos a senhora teve a primeira relação sexual?"
Matérias na Zero Hora e no Estadão, que também colocou um trecho do áudio em que Timóteo, enlouquecido, diz que não retira nada do que disse.
Por Walter Valdevino - 29.03.07 08:00 - comentários (20)
Leiam nossos blogs
O Hir0shi Bogéa foi ao encontro da Grande Senhora com o Baronato local e voltou uma arara. Decepção pura. Consciente que tudo é embromação. E lhes digo, já, porque: é que se se juntar o PIB marabaense interessado nas migalhas que caem do ágape de Nossa Senhora Vale do Rio Doce, não dá para bancar um refrigerante. As compras da Vale são megas e os fornecedores do Pará liliputianos. Se a Vale precisar de 100 mil sacos de cimento, por exemplo, quem em Marabá, poderia atendê-la? Vindo de Belém, via estradas esburacadas, os fornecedores tomariam prejuízo com o custo do transporte, ou seja, pagariam para fornecer o produto, dada a distância, custo de frete, impostos, etc.
Talvez a saída fosse a formatação de consórcio de empresas, mas nossos empresários nunca ultrapassaram a fase da gestão doméstica, em que nos negócios são gerenciados pela família (os filhos, a sócia mulher, o sogro, o cachorrinho de raça).
Quando a Vale, que não precisa do comercio local nem regional, fala em cadastro de fornecedores está dizendo: "olhaí, o cavalo está passando com sela e tudo. É pegar ou largar!" Pegar como, com fornecedores como os nossos, incapazes de entregar a contento trilhos de carbono, explosivos, combustíveis a granel, alimentos em larga escala?
A verdade é dura, mas precisa ser dita. Felizmente a internet está nos possibilitando a fazer esses questionamento, antes impossíveis por falta de uma imprensa comprometida com a região, independente no seu ponto de vista, e corajosa para dizer aos empresários de qualquer porte que a questão envolve mais do que seus imediatos interesses econômicos.
A título de provocação, transcrevo abaixo as últimas postagens do Hiroshi sobre o que ele pensa desse assunto Vale/empresários. Acessem o blogo dele porque há comentários de leitores também.
IDH chinfrin
O índice nacional de Desenvolvimento Humano Municipal, mediano, é de 0,76. No Pará, Belém aparece como município de melhor valor, com 0,80 -, enquanto o IDH de Marabá é de 0,71.Estudos da Vale do Rio Doce apontam para os próximos dez anos um índice marabaense não superior a 0,80 – o que convenhamos, torna-se bastante discutível a compreensão desse extratosférico índice de crescimento em torno de 20%.Sabemos que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida comparativa de natalidade, esperança de vida, educação, alfabetização, pobreza, e outros fatores para os diversos países do mundo. Seu valor mede o bem-estar de uma população, especialmente bem-estar infantil.Uma década de pesados investimentos na implantação de mega-projeto para exploração de cobre, com as diversas oportunidades que ele oferece aos empreendedores e geração de empregos, é um período onde uma geração estará buscando se firmar na vida. Se nessa faixa de tempo, o municípiop com invejável taxa de cescimento não consegue ser incluído no grupo de IDH alto (a partir de 0,800), mais uma vez se evidencia a convicção de que o crescimento não caminha de mãos dadas com a melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Postado por hiroshi em 16:00 2 comentários
Processo migratório
Chegando atrasado ao encontro da CVRD com os empresários, este poster não teve tempo de fazer alguns questionamentos aos palestrantes, principalmente no que se refere a questão do processo migratório inevitável. Irracional imaginar criar muralhas para impedir a ida e vinda de pessoas, mas é necessário discutir com profussao ações estratégicas voltadas para acompanhar essa movimentação nos municípios inseridos na área de influencia do Salobo.Enquanto do solo de municípios do Sul e Sudeste do Pará afloram riquezas, a maioria dos prefeitos de municípios maranhenses e piauisenses procura amenizar seus baixos valores de IDH “exportando excluídos”. É comum às secretarias de assistência social de muitas cidades daqueles estados organizar nas estações rodoviárias ou nos terminais de trem levas de famílias desamparadas que vivem perambuladas pelas ruas com destino a Marabá, Parauapebas e Canaã. Descobriu-se agora a extensão dessa rota até Ourilândia e Tucumã, com o início do projeto Onça-Puma.
Postado por hiroshi em 15:54 0 comentários
Tema relevante
O que fazer com todas essas gentes inundando a região? Inicialmente, tratamento humano digno a todas elas, párias de um sistema político incapaz ainda de oportunizá-las. Ocorre que esse tratamento não pode ser assistencialista, e como inserí-las no processo produtivo se todos carregam as digitais como único instrumento de comprovação de sua cidadania?Junte-se a essa fabulosa âncora de fomento migratório que será o Salobo, o aumento populacional estimulado agora pelo garimpo de Serra Pelada, cujos trabalhos de exploração mecanizada deverão começar este ano.Está engatilhada aí a receita para o aumento da violencia mais do que estamos experimentando, o crescimento do número de garotos cheirando cola nas praças e portas de supermercados, o bate-pronto na parada de onibus com os roubos relâmpagos, e uma geração de jovens-velhos perdidos e esturricados zanzando que nem alma penada.Não aceito argumentos de que toda regiao com alto índice de crescimento está fadada a experimentar seus dissabores. Correto é discutir a questão não apenas como responsabilidade da Vale do Rio Doce ou das prefeituras. E encontrar soluções. O governo do Estado e demais agentes públicos, em parceria com a iniciativa privada, necessitam olhar isso com prioridade.Antes de se discutir qualquer postura no set de filmagens, recomenda-se estudar cuidadosamente os efeitos do processo migratório. É ele quem acrescenta a miséria e reproduz bêbados e ladrões pelas esquinas das cidades.
quinta-feira, 29 de março de 2007
Para meditar
Blog do Hiroshi pegando fogo com a questão das guseiras e o carvão picareta. Cá pra nós, mano velho, e que ninguém mais me ouça: qual é mesmo a importância, para a economia marabaense, da produção de gusa no distrito industrial, mera atividade agregadora de energia a um produto exportado "in natura"?Quantos desses "paladinos do desenvolvimento" investem, de fato, na sociedade local e não simplesmente aqui atuam como garimpeiros sem raízes?Comparativamente, o garimpo de Serra Pelada juntou num buraco só entre 80 mil e 100 "garimpeiros", (aí computados do “formiga” ao financiador que nem sequer pôs os pés no melechete), é o que ficou de positivo? Nada. O saldo negativo está em primeiro plano até hoje.
Pois muito bem. Fechadas as guseiras,as carvoarias clandestinas, as madeireiras que restam na região (até meados de 1980 chegavam a 240 apenas em Marabá), perderíamos alguma coisa?
Por mim, passa-se a régua neste Distrito Industrial até aqui inútil para a coletividade,apenas veículo de enriquecimento para alguns - mesmo à custa da depredação da natureza.
Estou disponível para o embate. A escolha das armas é de quem quiser terçá-las.
Ironias da vida
Foi no último dia 22 – Dia Mundial da Água – que a prefeitura de Paragominas escolheu para iniciar suas obras de abastecimento - a construção de uma Estação de Tratamento de Água (ETA), no valor de R$ 17,5 mil, em parceria com a Vale do Rio Doce.
Um dia antes, na sexta-feira 21, o prefeito Davi Passos, conselheiros da cidade e do campo, secretários de governo e vereadores visitaram as instalações da Saneatins, a companhia de saneamento do vizinho Estado do Tocantins, em busca de parceria para resolver o problema da falta d’água em Xinguara.
Do Dia Mundial da Água até à madrugada desta quinta-feira (29/03), os moradores de vários bairros da Nova Marabá ficamos sem o líquido cada vez mais precioso, porque raro, graças à ineficiência da Cosanpa.
Bem que o governo Ana Júlia poderia nos livrar dessa praga pública, privatizando-a.
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