domingo, 8 de abril de 2007
A arte em grãos: Chagas Filho
Francisco Chagas Vitorino dos Santos Filho, o Chagas Filho, é jornalista e pedagogo, nascido e criado em Marabá, no Pará, em 1975. em 2000, venceu o III Festival de Conto da Prefeitura de Marabá com “O juiz”, uma historieta curiosa e surpreendente, mas bem representativa da sua paixão pelo cotidiano e pela loucura do dia-a-dia. O conto integra a pequena coletânea “Dez mentiras bem contadas”, ainda inédita. A seguir, dois contos de Chagas Filho.
O juiz
Nunca consegui juntar aquela segunda-feira no meu esquecimento. Era impossível a quem passasse pela Rua da Paz, logo de manhãzinha cedo, não notar o imenso cartaz, escrito as palavras “Ladrão çafado”. E ainda escreveram errado. Bem na porta do juiz Dionísio Sereno. Mas, logo ele, conhecido como Dionísio Braço de Ferro, que durante mais de vinte anos julgara com imparcialidade todos os acontecimentos na desprezada cidade de Itupiranga, aqui bem perto de Marabá. Difícil acreditar que alguém tivesse motivos para não gostar dele.
Pois é, chamar a Itupiranga daquela época de cidadezinha desprezada é o cúmulo do eufemismo. Na verdade o lugar era um buraco. Eu que nasci e fui criado lá que o diga. A única coisa boa que existia por aquelas bandas eram os pés de manga. Agora não há mais quem os encontre.
Ah, sim, o pessoal também gostava muito do juiz. Qualquer besteira, como roubo de galinha ou de porcos – os mais comuns –, era sempre levada a ele. Não passava nem pelo delegado.
É, sim senhor, ele angariou o respeito do delegado, a simpatia do prefeito e até a aceitação do presidente da câmara municipal, aquele velho rabugento. Ainda mais depois que deixou de morar na capital do Estado e comprou uma casinha na Rua 14 de Julho, passando a visitar a família em Belém somente nos finais de semana.
Pois bem, voltemos ao cartaz. Quando Dionísio acordou e viu aquele insulto pendurado na parede, retirou o pedaço de papel, olhou fixamente para o que estava escrito e até sorriu ao notar que a palavra “safado” estava com a grafia errada. Depois, olhou em volta e viu que algumas pessoas o observavam.
Então fechou a cara e seguiu para o fórum. De lá, mandou chamar o delegado Quintanilha e pediu que ele tomasse providências para descobrir quem havia colocado o cartaz difamador na porta de sua casa.
Eu ajuntei aquele episódio nas minhas lembranças e me recordo como se fosse ontem: o prefeito, o padre, alguns rábulas e até o promotor, que só aparecia de vez em quando, foram lá demonstrar apoio ao magistrado e dizer que também iriam descobrir quem foi o vândalo que tentou caluniá-lo.
Naquela mesma época, havia sido solto o fazendeiro Zé da Prata, acusado de matar o colono João Gracinha, amigo particular do vereador Jeová, presidente da Câmara e única pessoa na cidade que não morria de amores pelo juiz. Na verdade ele só o aceitava, como eu já disse antes. Aliás, dizem que ele só gostava mesmo da mulher, dona Graça. Deus a tenha em bom lugar. Santa mulher aquela, suportou durante 15 anos a convivência com Jeová, que de Jeová só tinha o nome.
Pois bem, o vereador passou a cismar do cartaz. “Alguma esse juizinho aprontou”, imaginava ele, que àquela altura já estava uma arara com Dionísio por causa da soltura de Zé da Prata.
Maquiavélico que só ele, o edil foi até o fórum conversar com o juiz, dizendo-se também chocado com o acontecido e prometendo até criar uma lei municipal que punisse praticantes de crimes como aquele, com prestação de serviço à comunidade. Mas, no fundo, Jeová queria mesmo era saber quem poderia ter colocado o cartaz na porta de Dionísio, e qual não foi sua surpresa ao ouvir do juiz um áspero pedido para ir embora. E por pouco o vereador não viu também um palavrão desatar-se da boca do magistrado. Mas, logo o juizinho, que sempre lhe fora tolerante, mesmo na época em que os dois não se cheiravam. Por que raios ele o tratara mal agora? Justamente quando o vereador lhe visitara como amigo!
- “Existe algo de podre no reino da Dinamarca”, imaginou.
Imediatamente, Jeová chamou dois capangas e montados a cavalo, como no velho Oeste, foram até a fazenda Macaxeiras, na época ainda em Marabá, onde Zé da Prata estava escondido, e lá chegando encontraram o assassino bebendo em um bar.
Ao notar a presença de Jeová, Zé ainda ameaçou correr, mas foi seguro pelos capangas do vereador, enquanto o próprio Jeová mandou que ninguém se metesse na confusão. Quem se importa. Ninguém gostava mesmo de Zé da Prata.
Cerca de dez quilômetros dali, Jeová meteu o trezoitão na cabeça de Zé da Prata e mandou ele rezar, enquanto seus capangas cobriam o infeliz de chutes. Na verdade, o vereador só queria que Zé confessasse o que fez para ser solto, já que a cidade inteira sabia que fora ele quem matou João Gracinha.
Debaixo de tanta taca, o desgraçado contou tudo: assassinou João Gracinha porque este não queria lhe vender dois alqueires de terra que faziam fronteira com sua propriedade e depois da morte do desafeto, comprou facilmente as terras da viúva, que amedrontada foi embora dali, levando os 8 filhos.
Ele contou também que, para tirá-lo da cadeia e responder o crime em liberdade, o juiz Dionísio lhe pediu cem cabeças de gado e mais a metade da propriedade de João Gracinha, que há muito o interessava.
O homem até mostrou as promissórias e os recibos de compra e venda assinados pelo juiz. O negócio foi tão absurdo que não houve intermediação nem de advogado para pedir o alvará de soltura. Coisa de cidade do interior.
Mais que depressa, Jeová levou Zé da Prata direto para Marabá e de lá pegaram um ônibus e foram bater em Belém, onde o vereador, usando sua influência, entrou na sala do juiz Endelmar Melgaço, presidente do Tribunal, como quem entra num boteco, e fez o acusado repetir tudo que dissera antes.
Depois de ouvir atentamente e com os olhos arregalados, o desembargador retornou com o vereador até Itupiranga e chegou de noite, dois dias depois, ficando na casa de Jeová, de onde mandou chamar o delegado Quintanilha e deu-lhe ordem para prender o juiz Dionísio, de manhã cedo, lá mesmo no fórum de Itupiranga, sob acusação de corrupção ativa.
A cidade inteira (se bem que não era muita gente) se ajuntou na frente do modesto prédio do fórum para ver o homem saindo preso, embora não estivesse algemado, afinal de contas muitos ainda lhe deviam alguma consideração.
E lá estava ele, que sempre fora tido como um homem acima de qualquer suspeita.
Dionísio olhou para as pessoas ao seu redor e, morto de remorso e de vergonha, tomou a arma das mãos de um policial e se matou com um tiro no ouvido. Bem no meio da praça.
Eu que assisti a tudo de cima de um pé de manga, nunca me esqueci do alvoroço causado pelo gesto tresloucado do juiz. Mas tudo é coisa do passado.
Agora, Jeová estava de alma lavada. Seu desafeto foi desmascarado e ainda se matou, vingando com as próprias mãos a morte de João Gracinha, muito querido naquela cidadela; enquanto Zé da Prata voltou para a cadeia, onde foi executado sete meses depois por quatro dos filhos de João Gracinha, que invadiram a cadeia e mandaram o homem pra debaixo da terra.
Depois daquilo, Jeová passou a perder tempo todos os dias olhando para a mancha de sangue na praça, a cada dia menos visível, e se perguntando quem teve a corajosa idéia de colocar aquela bendita placa na porta do juiz.
Afinal de contas, não fosse a placa, nada teria sido descoberto.
Esse também é um dos pensamentos que mais me impressiona até hoje. Me dá friagem e me machuca as idéias só de imaginar que tudo começou no campinho de futebol. Isso mesmo, acredite se quiser.
No domingo, um dia antes do cartaz aparecer na porta de Dionísio, nosso timinho “Itupiranga Mirim” perdeu a decisão do campeonato com um gol de pênalti que não existiu. E para completar nossa desgraça, o juiz da partida, seu Arlindo alfaiate, expulsou dois colegas nossos, sem motivo nenhum. Todo mundo viu a roubalheira.
Juquinha, um dos expulsos e recém-chegado à cidade, era o mais indignado da turma. Ele até prometeu que no outro dia bem cedo iria colocar um grande cartaz na porta da casa do juiz, chamando ele de ladrão “çafado”.
E olha que a gente bem que tentou explicar para ele que “safado” era com S, mas, pelo visto, não adiantou, o menino tascou o “Ç” e, o que é pior, no endereço errado.
O minador de corpos
A caminhonete chegando àquela hora da noite não era coisa normal, mas como a polícia não tem hora pra trabalhar, ninguém deu importância.
“Que é que foi sargento?”, gritou seu Zé, lá da esquina. “Nada, não, só uma diligência”, respondeu sargento Guerreiro. “Então chega prá cá e vamos jogar um baralho”, chamou.
“Hoje não, que eu estou muito cansado, mas amanhã quem sabe…”, desconversou o policial, com a farda meio suja da poeira, e depois entrou na delegacia junto com os outros dois.
“Olha só, diz que tá cansado e vai prá dentro da delegacia”, observa seu Zé.
Tentando espiar a carta que estava na mão dele, Clementino solta uma fofoquinha: “Parece que ele tá dormindo é lá mesmo... Brigou com a mulher”, cochichou.
“De novo!”, responderam os outros em coro, para em seguida voltar ao baralho que se estenderia por quase toda a noite.
Depois disso veio o dia, outro dia, outros dias e enfim o cheiro…
O cheiro forte e podre convidava as crianças a não se aproximarem do local, mas sabe como é: criança vai aonde o passarinho está, e aí, não deu outra, acabaram encontrando um cadáver, já decomposto, irreconhecível e sem roupa.
Depois da gritaria, a carreira de volta para casa, deixando as gaiolas pelo chão. Não demorou muito e todo mundo de vila Santana foi lá só para conferir de perto o cadáver no meio do matagal.
E tinha gente querendo mexer, outros querendo jogar terra em cima. Uma “festa” só. “Chama a polícia”, gritou seu Zé. “Se o defunto num tem dono, a polícia tem que vim aqui tirá o corpo pra fazê inzame”. Pareceu ser a decisão mais acertada.
Dito e feito: cinco horas depois a equipe do sargento Guerreiro chegou ao local na velha toyota empoeirada. “Vamo disobistruino a ára!”, pediu com aquela “gentileeeza”.
Enrolaram os restos do homem numa lona preta e colocaram na carroceria da caminhonete e levaram para Marabá. “Tem um tal de ‘ML’ lá que é onde eles bota os morto que num tem dono”, explicava seu Zé para a multidão, enquanto todos deixavam o local e seguiam para a rotina de suas vidas.
Mas, como seguir para a rotina, se na semana seguinte outro corpo apareceu no mesmo lugar, desta vez encontrado por um casal de namorados que estava lá fazendo sabe-se muito bem o que.
Agora o espanto foi maior que da primeira vez e menor que da terceira. Três corpos em três semanas. O intrigante é que não era ninguém da vila. Aliás, parece que não era ninguém de lugar algum, pois nenhum dos mortos foi identificado e todos acabaram sepultados como indigentes.
A pequena vila agora vivia cercada de policiais militares e civis, revistando as pessoas nos bares, nos comércios e nas estradas ramais.
O pior não era isso. O pior era o cheiro de podridão, que impregnava o centro da vila, ali perto da delegacia e também do bar do seu Zé.
“Seu Zé, uns dois dia antes do primêro morto aparicê eu já tava sintino chêro ruim por aqui”, dizia Clementino.
“É homi, eu num quiria falá nada, prá ninguém depois num vim me chamá de doido, mas óia que eu e a muié tava prá num agüentá mais a catinga da carniça”, respondeu seu Zé.
“Até o sargento Guerreiro anda fedeno só a coisa pôde... apesar de que ele nunca foi cheroso mermo”, comentava Clementino, já caindo na gaitada com o amigo.
“Isso é bobagem minha gente”, disse Laércio, funcionário da Sucam que sempre estava por ali. “É que nós estamos todos impressionados com esses corpos encontrados aqui na nossa vila”.
Não, não foi só impressão. O cheiro era forte, sujo e seco, assim como as manchetes do jornal e o noticiário da TV e do rádio, que davam conta de um assalto ocorrido em Marabá, havia cerca de um mês.
“Ói só seu Zé! Aqui no jornal de papel tá dizeno que quatro ladrão roubaram quinhentos mil do banco e sumiram no mundo”.
“E tu num sabia não homi. Foi até a turma do sargento Guerreiro que pissiguiu eles até lá perto do porto da balsa, mas parece que os bandido era tubarão grande, pois passaram pro lado do Goiás e deixaram o sargento com a camionete no prego.
Clementino alfineta: “Eu tô achano que o sargento não ficou no prego não. Ele tava era com medo de corrê atrás dos homi, pois se eu mermo vi ele voltano com a bicha boazinha”.
Nisso, Terêncio entra correndo no bar: “Eu não quero atrapaiá a cunversa de ninguém, não, mas tem oto homi morto lá no matagal”.
Novamente cumpriria-se o mesmo ritual: polícia, IML, fotógrafos, curiosos e mais um indigente sepultado.
Não fosse um detalhe, este corpo teria o mesmo destino dos outros. O detalhe era uma foto dos restos mortais do homem, que foi tirada no local e atestou uma tatuagem em forma de estrela.
Corpo identificado: Carlos Alexandre Jaborandi, vulgo “Jaburu”, um dos envolvidos no assalto ao banco em Marabá, dias atrás. “Ah, então era bandido? Tem mais é que morrer!”, comentava-se na vila, no dia seguinte ao fato.
Lá no bar do seu Zé, finalmente o sargento Guerreiro apareceu pra tomar umas e bater um papinho – coisa que não fazia há muito tempo.
Parece que os homi morto era tudo assaltante, né sargento?”, perguntou seu Zé, puxando assunto, pra ver se o policial se animava, já que parecia triste.
“Se é o que tão dizendo...”
“Mas, autoridade, se eles era tudo caboco peitudo, cuma é que se dexaram pegá assim?”
“Isso aí eu num posso dizê, porque é segredo da profissão, mas que eles era peitudo, ah isso era. Pois morrero, um a um, sem contá onde tava o dinheiro do roubo... E deixa eu ir embora pra casa, que eu não preciso mais dormir na delegacia”.
Parece que eu perdi um pedaço da história, e o sargento perdeu uma coisinha um pouco mais... concreta.
sexta-feira, 6 de abril de 2007
Sintepp vai à greve?
Em assembléia geral realizada no último dia 23/03, diz o site do sindicato da categoria, os trabalhadores em educação das redes Estadual e Municipal, aprovaram paralisação estadual no dia 11 de abril, bem como agenda de atividades da categoria. Esta agenda foi aprovada no sentido de impulsionar o avanço nas negociações salariais com o Estado e o município.
Estamos próximos do mês referente à nossa data-base e ainda não existem propostas concretas de reajuste salarial. No Estado, apresentamos uma pauta de reivindicações em janeiro/2007, sendo que até o presente momento o governo estadual respondeu algumas questões informalmente.
No município de Belém, o governo Duciomar, não sinaliza em avançar em nada para a categoria. Precisamos dar uma resposta nas ruas para mais uma vez denunciarmos o descaso com a educação e os trabalhadores em geral na rede municipal, implementado pelo prefeito refletindo na insatisfação da população com sua administração virtual.
A nossa mobilização precisa ser construída na base, para isto, precisamos ficar atentos a nossa agenda e democratizar as informações para organizar sua escola para participar das atividades. Não podemos em nenhum momento achar que haverá conquistas sem luta. Portanto, vamos à luta para conquistar nossos direitos e conquistas. Reajustar para valorizar os trabalhadores em educação.
Diga não a terceirização dos serviços públicos.
AGENDA
A textura do real
Se isto recorda alguma situação vigente, num cenário agora regionalizado, não é mera coincidência: no Pará, a história costuma repetir-se, como farsa ou não. Enquanto isso, nossos problemas se agravam em escala planetária e não conseguimos sair da barbárie, do medievalismo, daquilo que estudioso nacional já chamara de estado do "coronelismo, enxada e voto".
Achei nos arquivos um texto meu de setembro de 2004 que, atualizado em poucos detalhes, dá bem uma idéia da mixórdia (que alguns chamam de desenvolvimento resultante dos mega-projetos minerais e pecuários) em que vivemos. Leiam a seguir:
Duas ou três razões do atraso político e econômico
A partir de 2002, oito empresas dos setores de siderurgia, frigorífico, pavimentação e combustível previam instalar-se em Marabá com investimentos avaliados em mais de 33 milhões de dólares. Com isso, quase 3,5 mil novos empregos seriam gerados na cidade, sendo que 975 apenas na fase de implantação dos projetos. Outros 2.485 surgiriam na etapa operacional, utilizando 90% da mão-de-obra marabaense, dependendo de incentivos fiscais municipais.
Exceto, entretanto, por duas siderúrgicas que foram implantadas com toda sorte de dificuldade no Distrito Industrial (DIM), e do frigorífico que para ficar obrigou-se a comprar um terreno fora daquela setor, as demais empresas desistiram de seus projetos ou migraram para regiões mais interessadas em apoiar investimentos produtivos. Representantes dos investidores, segundo uma autoridade municipal, sequer foram recebidos pela administração, onde andaram inutilmente em busca de informações e incentivos. “Aliás, nesse período, a prefeitura preferiu desativar a Secretaria de Indústria e Comércio, encarregada de viabilizar os projetos locais e vindos de fora”, acrescentou a fonte.
O Distrito Industrial de Marabá tem 21 anos de existência (hoje) – instalado no castanhal Taboquinha, desapropriado em 1986 - e continua com problemas graves de infraestrutura como falta de sistema de comunicação e malha viária decente. O governo do Estado sempre alegou tratar-se o DIM de um espaço diferenciado de outros do Brasil: é um “distrito siderúrgico”, foi imaginado, projetado e implantado para atender a produção mineral de Carajás. Ou seja, siderúrgicas, fábricas de ferro-liga, de motores, trilhos, fábricas de grande porte e pesado.
Por isso, justifica o governo estadual que o Distrito Industrial não pode ter uma estrutura detalhada com iluminação pública, comunicação, pavimentação adequada, etc., o que seria feito a cada novo empreendimento, com demanda de áreas de 40, 50 hectares. Deve ser por isso que o governo do Pará levou década e meia para instalar um sistema de abastecimento d`água bruta que não daria para atender uma demanda maior do que é exigido hoje pelas siderúrgicas existentes.
Houve um tempo, também a cerca de três anos, que em Marabá se pensou em propor ao governo definir uma área aproximada de 80 hectares e oferta de 30 lotes de dois hectares, para atender serrarias e fábricas diversas, gerando grande quantidade de empregos, uma vez que o Distrito Industrial está hoje praticamente dentro da cidade (metade dele foi incluída na zona urbana por lei municipal de 1989).
A idéia morreu no nascedouro, por falta de interesse de quem deveria levar adiante o projeto ou pelo menos negociá-lo junto à Companhia de Distritos Industriais.
Outras propostas como a criação dos pólos joalheiro e moveleiro, que incentivariam as pequenas ourivesarias e movelarias do município, igualmente tomaram o rumo do esquecimento. O joalheiro, a propósito, migrou para Parauapebas após longas e inúteis discussões em Marabá.
Avançando para trás - No Sul do Pará, o Município de Marabá é o principal agente de desenvolvimento regional. Ou era, até recentemente.
Acontece que a totalidade dos enormes investimentos públicos, originários do Governo Federal, e aplicados através do Banco da Amazônia, Banco do Brasil, Incra e outras instituições, além dos aportes privados, não vem sinalizando qualquer geração de emprego e renda mais significativa, por falta da contrapartida e da necessária vontade política que deveria animar a administração municipal. Por sua vez, o que tem marcado as relações históricas do governo do Pará com Marabá têm sido o descaso ou, no mínimo, a má vontade. Por exemplo, não há um só órgão estatal em Marabá que cumpra regularmente sua função. Todos vivem praticamente à míngua de recursos, mão-de-obra e de equipamentos.
Tecnicamente, quem de fato mantém (de forma cada vez mais precária) a atividade econômica são o comércio, o setor de serviços e a siderurgia, - esta, limitada à agregação de insumos à produção de ferro gusa para exportação, e geradora de poucos empregos em relação à grandeza dos investimentos que exige.
Desse conjunto de fatores resulta Marabá está perdendo a passos céleres a liderança regional no que respeita à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, e na oferta de serviços de saúde, educativos e culturais, entre outros. O efeito é drástico: a pobreza, a fome, a violência, a desagregação familiar que gera crianças de rua, estão aí com sua evidência concreta.
A tragédia vai mais além. Segundo dados da Sespa, em Marabá até 2002 o número de leitos era de 1,45 por cada mil habitante, abaixo da determinação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de pelo menos 2,5 leitos para cada mil habitante do município. De lá para cá, a situação piorou com a falência e o fechamento recentes do Hospital Celina Gonçalves, em meio a uma história confusa que envolveria também a prefeitura.
No item da mortalidade infantil, enquanto no Pará a média é de 35,83 óbitos por mil nascidos vivos e crianças até um ano, em Marabá a média chega a 65,48 mortos a cada mil crianças nascidas no município.
Essa mortalidade infantil em Marabá é causada, em 55,3% dos casos, por afecções perinatais, isto é, por deficiência relacionada ao tratamento de grávidas e nascimento de bebês – ainda segundo a Sespa.
Participação é a saída - Neste cenário, o papel do governo de Marabá seria o de agente articulador, indutor e catalizador de ações assumidas pelo setor privado, trabalhadores e entidades da sociedade civil, voltado para o aproveitamento ótimo de todas as oportunidades de crescimento social. Para isso, há muito deveria ter criado um corpo técnico – em conjunto com as representações da sociedade civil – que coordenasse a elaboração do plano de desenvolvimento, além de acompanhar sua execução. Mas isso não existe. O Plano Diretor do Município foi elaborado em 1987 e jamais posto em prática.
Para produzir um novo plano agora seria necessário elaborar socialmente um diagnóstico da pobreza e da exclusão social e propor medidas para sua superação. Neste sentido, a Lei Orgânica do Município dispõe sobre uma quantidade expressiva de Conselhos Municipais que, vitalizados ou revitalizados com a participação das entidades representativas dos distintos setores da sociedade – sindicatos, associações de moradores, universidades, associação comercial, igrejas etc –, concorreria para a discussão dos problemas e articulação das iniciativas. Mas a participação popular na administração há muito foi banida entre nós.
terça-feira, 3 de abril de 2007
Ponto de vista
Servidor de confiança do atual governo diz melancólico que o prefeito Sebastião Miranda não tem mais qualquer pretensão política.
E o que a ele, funcionário, parece uma tragédia, para a maioria pode ser o fim de prolongado pesadelo.
Carvão bandido
A produção marginal do carvão escravagista, para as guseiras sem critério do Pólo Carajás, acaba de chegar ao distante sertão piauiense. Em 19 de março último, a Procuradoria da República naquele Estado denunciou o empregador Marcos Antônio de Oliveira pelo uso de mão-de-obra escrava em carvoaria de Jurumenha (PI), onde a fiscalização da Delegacia Regional do Trabalho flagrou 34 pessoas reduzidas à condição de escravos em 2006. Os trabalhadores tinham suas carteiras de trabalho retidas, estavam com salários atrasados, trabalhavam em média 10 horas diárias, incluindo domingos e feriados.
Foi a primeira vez que o Ministério Público Federal (MPF) denuncia esse tipo de crime em carvoaria piauiense com produção vinculada a uma siderúrgica, no caso a Companhia Siderúrgica do Maranhão (Cosima), instalada em Açailândia, que pagou R$ 250 mil de verbas rescisórias.
A siderúrgica assumiu a responsabilidade civil porque ela era a consumidora beneficiada pela atividade dessa carvoaria e, segundo o procurador da República, Tranvanvan Feitosa, “ela teria obrigação de saber se os funcionários possuíam carteira assinada, isso está garantido na legislação trabalhista. A empresa que é a primeira beneficiária assume a responsabilidade solidária pela dívida."
PDT em desacordo sobre DRT?
Reunidas em Belém no final de semana, as principais lideranças do PDT decidiram, segundo o blogger santareno Jeso Carneiro, o nome que irá ocupar a Delegacia do Trabalho no Pará - que até poucos dias era naco do PCdoB. Pelo acordo, sairia o advogado Jorge Lopes de Farias e entraria o também advogado Fernando Coimbra, integrante do quadro de pessoal do TCM (Tribunal de Contas dos Municípios) e presidente do diretório do partido em Belém.
Outras mudanças previstas seriam no comando das três Subdelegacias de Trabalho existentes no Estado: Santarém, Castanhal e Marabá.Os nomes para Santarém e Castanhal não foram ainda definidos. Apenas o de Sérgio Corrêa para Marabá.
Acontece que no apagar das luzes da sua gestão, o delegado regional Jorge Lopes de Farias nomeou Fred Silveira, auditor do Trabalho, para a sub-DRT em Marabá, decisão que embolou o meio de campo do setor.
Na terça-feira, Sérgio Corrêa confirmou a Política & Desenvolvimento sua indicação ao cargo, apenas dois dias após a posse de Fred Silveira. Corrêa é o nome do deputado federal Giovanni Queiroz que, inclusive, o conduzira à direção do pólo regional do Detran, com sede em Marabá, cargo que Corrêa exerceu até início deste ano, por conta da cota do PDT na coligação do ex-governador Almir Gabriel. Com a eleição de Ana Júlia (PT) Corrêa foi substituído pelo ex-prefeito de Itupiranga, José Milesi, indicado pelo deputado federal Asdrúbal Bentes (PMDB).
Agora, com a nomeação de um representante do PDT para o Ministério dos Transportes, pelo menos no sul e sudeste do Pará todos os cargos da área federal terão pessoas ligadas à militância da sigla e ao deputado federal Giovanni Queiroz.
Já o blogueiro Juvêncio Arruda (5ª Emenda) diz, segundo fonte, que a parada pela chefia da Delegacia Regional do Trabalho no Pará não está decidida em favor de Fernando Coimbra: “Tem chances de atropelar, na reta final, um pedetista histórico, da zona bragantina, com trânsito na coalizão estadual. Podem chamá-lo de Napoleão Braun.”
Domicílio
E por falar em Giovanni Queiroz, ele chegou à tarde desse domingo em Marabá e à noite reuniu-se com meia dúzia de pecuaristas, empresários e técnicos que assessoram projetos agropecuários na região e, claro, com Sérgio Correa. Na pauta, a exigência do georeferenciamento, há dois anos uma exigência legal para a regularização de terras rurais e que o Incra de Marabá não tem a menor condição de fornecer, por falta de estrutura. Por isso, agricultores e fazendeiros estão sendo prejudicados porque, sem o reconhecimento da posse da propriedade, não podem receber financiamento bancário para investir em agricultura ou pecuária. "No Sul do Pará, não existe um único projeto certificado pela SR-27, a maior superintendência regional do Incra no Estado", reclamou o parlamentar.
Por conta da emancipação do Estado de Carajás, Giovanni Queiroz decidiu fixar residência também em Marabá (além de Redenção), e aqui vai montar um escritório de apoio à campanha.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
A arte em grãos: Jorge Luis Ribeiro
Arremedo de biografia
Nasci em Inhapim, Minas Gerais, em 68, filho de um 25 de dezembro chuvoso. Mas fui nascer de novo, mesmo, foi em Marabá, já faz tanto tempo que fiquei antigo de Rios e sol. Este é meu lugar que acolheu meus amores, amigos, abrigos e saudades. Fiz-me advogado só para experimentar desentortar leis e tentar ajudar companheiros de sonhos a regar sementes de justiça. Andei de avião pela primeira vez e vi que somos pequenos demais para tanta arrogância.
Depois fui fazer mestrado no Sul, passei frio, saudades e fui assaltado, além de trazer um diploma que guardei longe da parede. Ah, também passei por Coimbra por uns meses, vi poesias nas paredes medievais de Portugal e visitei parentes que passam frios e fomes pela parca moeda estrangeira.
Vi que o mundo se comunica mais na dor que nas glórias. Andei um pouco e reaprendi a amar nossa casa e nosso café da manhã, voltar apaixonado pra casa e pintar juntos um armário velho e expulsar cupins, plantar uma nuvem azul na cozinha.
Mas minha maior tristeza ainda é não ter tempo de andar com os pés nelas: nas nuvens...
*****
Maneiras mineiras
Morrinha de janeiro na roça.
Biscoito de polvilho que explodia com pipoca e chuva.
Moinho de café rodando café torrado com estórias
de assombração dentro de xícaras esmaltadas.
Arreio no esteio mofando de umidade da cangalha
velha rangendo de frio. Broa de milho assando rezas
de acalmar temporal com mato bento nos mistérios
do assoalho vistoriado em segredo de cômoda branca
espiando a tia solteira com seus quebráveis sonhos de guarda-louça.
Bica de imbaúba jorrando água de enxurrada tocando moinho
d'água que passa debaixo da mosca azul na privada.
Cana assada para tosse de friagem tecendo balaio de taquara
sob guarda-chuva de cabo de chifre espiando a galocha
sentada no pilão que dorme.
A mão tira com colher de pau o cheiro de rapa de angu
na fumaça de almoço com palmito de indaiá.
Chapéu molhado do Pai cuida da cuia de milho de planta
na terra estocada para arar com a junta de boi cangada.
Tempo tecendo uma colcha de retalhos colorida
na máquina de costura cros lux, Mãe,
o pedal que roda o carretel de silêncio
de goteiras de sonhos que não têm fim,
Eu.
Como assim?
Agora perdi o encalço da palavra prometida ontem
Mas não me preocupo
A merda é que as desculpas desorganizam a gente
Para o que eu sei não há emprego
Tô na rua e vou zoar aí...
Irrito as horas mascando chicletes
Colo a goma no vidro rachado
A janela do ônibus vai dar no orifício do mundo
Onde um camaleão de chicletes escorre mole
A rosa de sua cor estaciona nos olhos do meio-dia
Minha imagem quase derretida descamufla a forma
Alguém sacaneou nosso sonho, veja os pedintes!
- mundo fodido!
E ninguém faz motim
Mas eu, de boa, não estou magoado não!
É que fico também assim,
Resistindo sem atitude, entende?
Enquanto a rua
Passa por mim...
Quando a libélula faz amor com a água
Quero te amar com a impaciência das neblinas
Que aprendem a não serem mais virgens
Ter-me preso entre suas pernas e em meu corpo domada
O mapa de sua pele navegada que viajo
Aos cantos mais secretos teus
Te ver gozar com o fremir das borboletas que encontram as asas
Nem que eu te perca em teu vôo – (por um instante só!)
Janela
hoje amanheceu um pombo cinza enrolado no telhado da história
... era Coimbra
Coletivo
Os trabalhadores dentro do ônibus no fim do dia
olhos de uma vida inteira parecem velhos
olhos de um dia inteiro parecem vermelhos
sono e cansaço de um dia de trabalho
que uma vida em-batalha
os olhos parecem lesados
o corpo parece pesado
olhos de uma vida de dia-a-dia
no trabalho de um dia
o que sustentaria a loucura e a mais valia
senão o pescoço e ombros adequados
mas hoje é sexta-feira e o horizonte cai embriagado
e assim vamos todos
todos enlatados na palavra POVO
até que se ouça o grito
de todos os silêncios somados.
Conspiração
Essas velhinhas que olham o tempo das janelas altas
As ruas pontilhadas de pessoas que o tempo todo passam
Eu acho que elas conjuram um pacto de parar o tempo
E os que passam com o tempo não percebem que elas ficam...
Enquanto todos passam o tempo todo
Sobre desvelocidade intemporal da solidão
Elas suspiram um cheiro de sono
Um tempo que infelizmente não pára no interior da gente
Nelas até a luz fica estacionária nas asas de moscas vacilantes
Antes de serem de um tempo museu que move ao detrás
Elas guardam um presente que perdeu seu rumo lá atrás
Ou que seguiu outro rumo por escolha
É por isso que chegam até nós
Num agora com cheiro de tempo dormido
Não sei o que segredam com o tempo...
São de um passado que moveu noutra direção
Mas que, não sei por que, nos ultrapassa
Eu queria saber de que matéria é feita
A sabedoria de silêncios que elas conspiram.
Sérgio Correa na Sub-DRT
Deu ontem no blog do santareno Jeso Carneiro, 1º de abril
PDT escolhe novo titular da Delegacia do Trabalho no Pará
O PDT bateu o martelo.
As principais lideranças do partido, reunidas em Belém neste final de semana, decidiram o nome que irá ocupar a Delegacia do Trabalho no Pará - que até poucos dias era naco do PCdoB.
Sai o advogado Jorge Lopes de Farias e entra o também advogado Fernando Coimbra, integrante do quadro de pessoal do TCM (Tribunal de Contas dos Municípios).
Fernando é filiado ao PDT. Preside o diretório do partido em Belém.
Também haverá mudança de comando das três Subdelegacias de Trabalho existentes no Estado: Santarém, Castanhal e Marabá.
Em Marabá, o nome escolhido foi de Sérgio Corrêa.
O subdelegado de Santarém ainda não foi definido. Nem o de Castanhal.As mudanças tem ligação estreita com o agrado feito por Lula ao PDT, que ganhou o Ministério do Trabalho."
Até final do ano passado, o advogado mineiro e pedetista Sérgio Correa respondia pelo pólo regional do Detran, com sede em Marabá, colocado pelo deputado federal Giovanni Queiroz (PDT), onde foi substituído na gestão Ana Júlia pelo ex-prefeito de Itupiranga, José Milesi, indicado pelo deputado federal Asdrúbal Bentes (PMDB).
E por falar em Giovanni Queiroz, ele chegou à tarde desse domingo em Marabá e à noite reuniu-se com meia dúzia de pecuaristas, empresários e técnicos que assessoram projetos agropecuários na região e, claro, com Sérgio Correa. Na pauta, a exigência do georeferenciamento, há dois anos uma exigência legal para a regularização de terras rurais e que o Incra de Marabá não tem a menor condição de fornecer, por falta de estrutura. Por isso, agricultores e fazendeiros estão sendo prejudicados porque, sem o reconhecimento da posse da propriedade, não podem receber financiamento bancário para investir em agricultura ou pecuária. "No Sul do Pará, não existe um único projeto certificadopela SR-27, a maior superintendência regional do Incra no Estado", reclamou o parlamentar.
Por conta da emancipação do Estado de Carajás, Giovanni Queiroz decidiu fixar residência também em Marabá (além de Redenção), e aqui vai montar um escritório de apoio à campanha.
domingo, 1 de abril de 2007
O gomo da espiga
O luar trouxe, de repente, o verão.
Toda a noite a lua anunciou no céu
a festa e a colheita do sol
desses dias de lâminas e luz,
fungos, signos e caracóis .
Na manhã da terceira manhã,
o vento ergueu da estrada à nuvem
um plástico que, leve, desfez-se no ar.
Levou-o adiante o anjo solar,
em litania aos deuses,
por esse tempo de enxugar o riso,
de pôr à janela os encardidos vasos,
e semear a luz na lona escura
que desprotege inválidos e alagados.
(Ademir Braz)
Júlio César Costa
Há algum tempo, Júlio César Costa mandou-me parte dos seus trabalhos poéticos, que juntei a outros - igualmente bons - autores locais com a intenção de publicar. Editar e dar a lume, em Marabá, é um parto doloroso: não se tem apoio (empresarial ou oficial) e só quem se dá bem são as gráficas, que arrancam o couro dos interessados.
Meses atrás, ao negociar uma possível publicação, falei entusiasmado com ele e ele pediu uma cópia dos seus escritos, ficou de pensar e decidir. E decidiu: achou toda a sua produção, compilada por ele mesmo entre 1982/1992, uma porcaria, digna da lixeira, e recusou-se autorizar a divulgação.
Bom. Júlio César é importante promotor público na nossa cidade e pode processar-me. Mas eu não posso guardar comigo o tesouro da sua poesia. Eis Júlio, por ele mesmo, e um pouco da sua verve.
“O que me proporcionou inegável contato com a poesia moderna, foi, de fato, minha ida à Belém, no início dos anos 80, para estudar na Universidade. Estudar Direito e Ciências Sociais. Certamente por diletantismo e pelo fervor da idade, já tinha me aventurado a cometer versos entre os 12 e os 14 anos, e recebido mesmo um forte apoio da Professora Ivanir Tenório Ramos, a quem agradeço. Por esta época, quando também participava do Mojumaexto, que tive contato com o Memória Tribal de Ademir Braz, exposto na praça Duque de Caxias, ali no coreto, - numa de nossas inesquecíveis “feiras de arte” - muito parecida com a poesia no varal que iria encontrar em Belém nas tardes e noites da Praça do Carmo, ou na Feira do Açaí. Assim, lá na capital, pude conhecer Age de Carvalho e Max Martins, e através do primeiro, pude também chegar até Mário Faustino com sua poesia – experiência, obra fundamental para, inegavelmente, também contactar com Ezra Pound e o seu paideuma; embora em Marabá, mesmo com as limitações literárias, políticas, editoriais e comerciais, (que hoje, com os avanços, ainda persistem), já tivera obtido conhecimento com T. S. Eliot através da tradução de Ivan Junqueira e com o famoso “Como Fazer Versos”, de Maiakovski, que adquiri em razão de uma certa “militância” política (a efervescência era maravilhosa em razão da abertura e de um certo avanço nos costumes). Mesmo assim as crises existenciais persistiram, mesmo porquê típicas da adolescência, e porque não se concebe um poeta sem crises de existência..., e numa delas rasquei e toquei fogo nos poemas que tinha escrito até então... Na verdade, hoje posso confessar, rasguei meus poemas várias vezes depois, e por vários motivos; de um lado a intensa autocrítica em conhecer os melhores e com eles não poder comparar-se (o que na verdade era pura vaidade) e de outro lado a persistente timidez, dois traços do meu caráter e de minha personalidade que me acompanham até hoje, entrado em anos (menos a vaidade, é claro, que é um pecado e tenho procurado abandonar). A passagem do tempo, porém, favoreceu a coragem de publicar estes versos tímidos, e mesmo assim à la Ungaretti, uns bem poucos exemplares; não porque queira ser cult, mas por questões financeiras e de talento, com menos exemplares fica mais fácil ser esquecido , e logo, se a poesia não for das melhores. O peso da tradição é muito forte. Nunca esqueci o axioma de T.S, Eliot para quem somente é possível fazer poesia até os vinte e cincos anos; e a história do Rimbaud que escreveu apenas até os dezenove anos, salvo engano. Estou com meus trinta e seis anos, atravessando a idade da razão, e por incrível que pareça, ainda cometo versos. Para o bem ou para o mal, devo colocar-me sob julgamento público. Por isso esse modesto livro de poesias, mais exercícios poéticos, procurando imitar meus autores preferidos, Bandeira, Leminski, Pessoa, Age de Carvalho, Maiakovski, Drumond, Neruda, e. e. cuminngs, Orides Fontela, Pagão, que necessariamente uma poesia que posso chamar de autêntica, porque ainda considero-me naquele fase preconizada por Pound, de imitação dos grandes nomes. São poemas que sobraram de minhas destruições criadoras e outros, os últimos do livro, escritos há poucos dias. Há poemas que têm mais de quinze anos e outros não mais que poucos meses. Por fim, confesso que a publicação não doeu tanto como eu imaginava, e que sinto-me imensamente feliz em continuar a fazer poesia e de gostar de poesia, com a mesma intensidade de quase dezesseis anos atrás. O que revela que consegui ultrapassar a fase preconizada pelos grandes, com relação à idade ou ainda, possa ser que não amadureci de todo... O que seria bem melhor. Mas, arre, como falo. (Marabá, janeiro de 2001)
Existencialismo
eu que andei plantando rosas
- ora, arre! -
leitmotivs,
vers libre,
sartre...
- eu quero mais é o poder da tarde!
Presságio
cada um com sua dor obscura
sua negra cavidade
cada qual com sua loucura,
sua própria verdade
e cada um de nós com sua dor oculta,
sua tristeza disfarçada
e a gruta que da alma esconde
o presságio do Nada?
fende este Sol, ao mês de dezembro
- meu coração, como arde!
Revolução
não ao amor institucional
oficial,
amor de decreto
não ao amor quieto
reto
amor de gravata
não ao amor em lata
em falta,
amor de lógica
não ao amor de loja,
em cota,
amor de régua
não ao amor de tréguas
tipo água,
amor-medida, em bulas
amor sim, como pedaços de nuvens...
by Ricardo Campos II
eu que trago o coração rasgado, em panos
que tenho sentido o passar dos anos
sem nada fazer
amar - constante palavra
malamar, sorrir e sofrer
dizer o que não sinto
às vezes esquecer
mas tenho vivido com possibilidades
e aprendido que não posso ser tanto
sou menos o que pareço
quase nunca o que penso
quero ser muito
quero o que não caiba
a solidão que se assoma
quero estar à faina,
na labuta,
a loucura possível,
no lado escuro da lua
velo pela chama acesa
a clara luz da rua
e pela raiva que quebra
o vidro da redoma
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