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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Lula junta ex-prefeita expulsa do PT a um velho conhecido da Interpol

Em O Mocorongo:

´DOM SEBASTIÃO VOLTOU"
Por Marco Antônio Villa, historiador e professor.
Luiz Inácio Lula da Silva tem como princípio não ter princípio, tanto moral, ético ou político. O importante, para ele, é obter algum tipo de vantagem. Construiu a sua carreira sindical e política dessa forma. E, pior, deu certo. Claro que isso só foi possível porque o Brasil não teve ─ e não tem ─ uma cultura política democrática. Somente quem não conhece a carreira do ex-presidente pode ter ficado surpreso com suas últimas ações. Ele é, ao longo dos últimos 40 anos, useiro e vezeiro destas formas, vamos dizer, pouco republicanas de fazer política.
Quando apareceu para a vida sindical, em 1975, ao assumir a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, desprezou todo o passado de lutas operárias do ABC. Nos discursos e nas entrevistas, reforçou a falácia de que tudo tinha começado com ele. Antes dele, nada havia. E, se algo existiu, não teve importância. Ignorou (e humilhou) a memória dos operários que corajosamente enfrentaram ─ só para ficar na Primeira República ─ os patrões e a violência arbitrária do Estado em 1905, 1906, 1917 e 1919, entre tantas greves, e que tiveram muitos dos seus líderes deportados do País.
No campo propriamente da política, a eleição, em 1947, de Armando Mazzo, comunista, prefeito de Santo André, foi irrelevante. Isso porque teria sido Lula o primeiro dirigente autêntico dos trabalhadores e o seu partido também seria o que genuinamente representava os trabalhadores, sem nenhum predecessor. Transformou a si próprio ─ com o precioso auxílio de intelectuais que reforçaram a construção e divulgação das bazófias ─ em elemento divisor da História do Brasil. A nossa história passaria a ser datada tendo como ponto inicial sua posse no sindicato. 1975 seria o ano 1.
Durante décadas isso foi propagado nas universidades, nos debates políticos, na imprensa, e a repetição acabou dando graus de verossimilhança às falácias. Tudo nele era perfeito. Lula via o que nós não víamos, pensava muito à frente do que qualquer cidadão e tinha a solução para os problemas nacionais ─ graças não à reflexão, ao estudo exaustivo e ao exercício de cargos administrativos, mas à sua história de vida.
Num país marcado pelo sebastianismo, sempre à espera de um salvador, Lula foi a sua mais perfeita criação. Um dos seus “apóstolos”, Frei Betto, chegou a escrever, em 2002, uma pequena biografia de Lula. No prólogo, fez uma homenagem à mãe do futuro presidente. Concluiu dizendo que ─ vejam a semelhança com a Ave Maria ─ “o Brasil merece este fruto de seu ventre: Luiz Inácio Lula da Silva”. Era um bendito fruto, era o Messias! E ele adorou desempenhar durante décadas esse papel.
Como um sebastianista, sempre desprezou a política. Se ele era o salvador, para que política? Seus áulicos ─ quase todos egressos de pequenos e politicamente inexpressivos grupos de esquerda ─, diversamente dele, eram politizados e aproveitaram a carona histórica para chegar ao poder, pois quem detinha os votos populares era Lula. Tiveram de cortejá-lo, adulá-lo, elogiar suas falas desconexas, suas alianças e escolhas políticas. Os mais altivos, para o padrão dos seus seguidores, no máximo ruminaram baixinho suas críticas. E a vida foi seguindo.
Ele cresceu de importância não pelas suas qualidades. Não, absolutamente não. Mas pela decadência da política e do debate. Se aplica a ele o que Euclides da Cunha escreveu sobre Floriano Peixoto: “Subiu, sem se elevar ─ porque se lhe operara em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país sem avançar ─ porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições…”.
Levou para o seu governo os mesmos ─ e eficazes ─ instrumentos de propaganda usados durante um quarto de século. Assim como no sindicalismo e na política partidária, também o seu governo seria o marco inicial de um novo momento da nossa história. E, por incrível que possa parecer, deu certo. Claro que desta vez contando com a preciosa ajuda da oposição, que, medrosa, sem ideias e sem disposição de luta, deixou o campo aberto para o fanfarrão.
Sabedor do seu poder, desqualificou todo o passado recente, considerado pelo salvador, claro, como impuro. Pouco ou nada fez de original. Retrabalhou o passado, negando-o somente no discurso.
Sonhou em permanecer no poder. Namorou o terceiro mandato. Mas o custo político seria alto e ele nunca foi de enfrentar uma disputa acirrada. Buscou um caminho mais fácil. Um terceiro mandato oculto, típica criação macunaímica. Dessa forma teria as mãos livres e longe, muito longe, da odiosa ─ para ele ─ rotina administrativa, que estaria atribuída a sua disciplinada discípula. É um tipo de presidência dual, um “milagre” do salvador. Assim, ele poderia dispor de todo o seu tempo para fazer política do seu jeito, sempre usando a primeira pessoa do singular, como manda a tradição sebastianista.
Coagir ministros da Suprema Corte, atacar de forma vil seus adversários, desprezar a legislação eleitoral, tudo isso, como seria dito num botequim de São Bernardo, é “troco de pinga”. Ele continua achando que tudo pode. E vai seguir avançando e pisando na Constituição ─ que ele e seus companheiros do PT, é bom lembrar, votaram contra. E o delírio sebastianista segue crescendo, alimentado pelos salamaleques do grande capital (de olho sempre nos generosos empréstimos do BNDES), pelos títulos de doutor honoris causa (?) e, agora, até por um museu a ser construído na cracolândia paulistana louvando seus feitos.
E Ele (logo teremos de nos referir a Lula dessa forma) já disse que não admite que a oposição chegue ao poder em 2014. Falou que não vai deixar. Como se o Brasil fosse um brinquedo nas suas mãos. Mas não será?

A cara do PT de Lula. Eles se entendem...


No Parsifal Pontes:

Sob as bênçãos de Lula, na mansão de Maluf, o PT fecha a aliança com o PP

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O PT fez hoje o último gesto para se desclassificar no espectro político partidário como um partido ideológico, tornando-se, definitivamente, uma sigla de conveniências eleitorais, como a maioria das outras no Brasil: o ex-presidente Lula foi até a mansão do deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) abençoar a aliança do PP com o PT visando a eleição à prefeitura de São Paulo.
Embora o gesto, doravante, desqualifique qualquer discurso de ética e moralidade do petismo, o movimento de Lula está correto do ponto de vista estratégico: o malufismo ainda tem estoque eleitoral considerável na capital paulista para colocar vento na vela de Fernando Haddad, além de dispor de preciosos 1m35s de tempo de rádio e televisão.
> Apoio coloca o malufismo na Esplanada dos Ministérios
Para subtrair do PSDB o apoio de Paulo Maluf, Lula providenciou para que a presidente Dilma Rousseff nomeasse o malufista Osvaldo Garcia para uma secretaria do Ministério das Cidades.
Como eu sempre digo: qualquer partido quando chega ao poder não mais mede consequências ideológicas para permanecer nele, pois o poder não tem ideologias, apenas conveniências.

Major Curió - Um mergulho no último suspiro da guerrilha



Por Gabriel Manzano,  Observatório da Imprensa

Mata!, o Major Curió e as guerrilhas no Araguaia, de Leonencio Nossa, 496 pp., Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2012 # reproduzido do Estado de S.Paulo, 10/6/2012
        
Para o soldado Cid, foi um ato banal. “Pisei em seu braço, impedindo que levantasse a arma, e perguntei: 'Qual o seu nome?' Com ar de deboche e ódio, respondeu aos gritos: 'Guerrilheira não tem nome'. Eu e João Pedro a metralhamos.”
Assim morreu, em 24 de outubro de 1974, numa obscura grota na selva, ao norte de Goiás, a militante do PC do B Lúcia Maria de Souza, ou Sônia, capturada pelo grupo do major Sebastião Curió – o homem que o regime militar havia encarregado de liquidar sumariamente a Guerrilha do Araguaia.
Sônia, Raul, Osvaldão, Arildo, Grabois, Áurea, Queixada, as duas Dinas... Os momentos finais de todos eles foram semelhantes. O registro de tudo, pelo próprio major, ficou por mais de 30 anos no fundo de uma mala vermelha guardada em um porão. Pelas mãos do jornalista Leonencio Nossa, repórter especial da Agência Estado em Brasília, esse precioso pacote de memórias está virando livro. Editado pela Companhia das Letras, Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia chega terça-feira às livrarias e deixa mais rica a bibliografia da recente história do Brasil. Em 512 páginas, que incluem um caderno central com fotos cuidadosamente guardadas por Curió, vêm à luz as caminhadas finais, pela selva, da Operação Marajoara – a ação militar que entre 1972 e 1975 acabou com a brevíssima aventura da luta armada do PC do B no fundão de Goiás.
A tarefa exigiu paciência, determinação, talento. Leonencio rodeou o assunto e o major durante longos anos. Vasculhou 32 pastas, um pacote de mapas, seis álbuns de fotos e muitos papéis soltos que o xerifão das selvas, hoje tenente-coronel reformado, guardava para escrever, ele próprio, o seu livro – cujo título seria A Selva do Araguaia.
“Meu desejo é que a narrativa agrade. É importante que isso seja conhecido, esclarecido”, afirma o autor, que antecipou no Estado boa parte desse material em uma série de reportagens em junho de 2009.
Cor local
Fato marcante dos anos 70, a aventura armada no Araguaia tem sido objeto de muitos outros autores, mas o que surpreende em Mata! é o testemunho direto dos episódios – o que só as memórias de Curió tornariam possível. Breves capítulos vão despejando, aos poucos, a cansativa caminhada, as conversas, o dia, a hora, o lugar, o ataque, o grito, a fuga, o tiro. O cerco e a liquidação dos inimigos, já exaustos e sem recursos. O resultado, para a história, é uma correção atrás da outra de muitos relatórios – falsos – que o regime divulgou sobre quem morreu, onde e como. Não há grandes surpresas sobre o destino dos corpos.
Mas sabe-se, por exemplo, que foram 41 e não 25 os fugitivos que, já detidos, foram executados quando não ofereciam mais risco. Que Paulo Roberto Marques, o Amauri, não morreu no cerco à cúpula da guerrilha no Natal de 1973, mas fugiu e dias depois se entregou. “Entrou num helicóptero com as mãos amarradas. Foi fuzilado perto do Rio Saranzal”, anunciam os papéis de Curió. Que Dinalva Oliveira Teixeira, a Dina, não caiu em combate, mas morreu na cadeia de Marabá em 26 de junho de 1974.
Serra Pelada
Na segunda metade do livro vem à tona outra grande aventura de Curió: os seus turbulentos anos no comando de Serra Pelada. Uma saga de garimpeiros esfarrapados e prostitutas valentonas, gente que ele defendia e manipulava numa área maior que Inglaterra, Irlanda e Gales juntos.
Passados 38 anos da aventura, o tenente-coronel aposentado confessa ao repórter sua nostalgia. “Em Serra Pelada eram dois objetivos: extrair o ouro para encher o cofre do Banco Central e continuar o trabalho político. Não via o tempo passar. Hoje qual é meu rumo? Para onde eu vou? Araguaia foi uma guerra, nunca esqueça.” E bate na sua tecla preferida: “Se não houvesse determinação e pulso forte na erradicação da guerrilha, teríamos até hoje um movimento semelhante às Farc.”
***

“Fracasso na selva sepultou radicalismo”
Na longa lista de revoltas contra o poder, no Brasil, a aventura do PC do B no Araguaia não teve grande expressão, mas seu saldo político foi importante, avalia o historiador Pedro Paulo Rufino, titular do Departamento de História da Unicamp. “Enquanto a luta armada fracassava no campo, entre 1972 e 1975, o MDB conquistava o eleitorado, intelectuais faziam pesquisas no Cebrap, o jornal Movimento desafiava a censura”, recorda ele. “A derrota da luta armada sinalizou que o diálogo político era a única saída. A ele o regime militar não conseguiu sobreviver.”

Qual o balanço, hoje, dos episódios no Araguaia? Como explicar o surgimento da guerrilha?

Pedro Paulo Rufino – Esse fenômeno toma corpo num cenário específico, o da guerra fria pós-1945. O mundo polarizado entre dois lados, guerrilhas chegando ao poder na Coreia, no Vietnã, na Argélia, em Cuba, Nas vizinhanças, grupos fortes como Montoneros, Tupamaros, Sendero Luminoso. Os radicais do PC do B imaginavam que a guerrilha poderia também vencer por aqui.

Para alguns, acabou justificando mais radicalização do regime.

P.P.R. – Num cenário de confronto, classes altas e médias sentiam-se ameaçadas e a direita fortaleceu o discurso. Mas havia vozes discordantes. O velho Partidão aliou-se à oposição moderada.

A guerrilha perdeu, mas a ditadura também entrou em declínio.

P.P.R. – Temos de ver o conjunto. O período de 1972 a 1974 é crucial. Em 1972 a repressão ainda corria solta, mas em 1973 a crise do petróleo abalou os pilares e as certezas do regime militar. Em 1974, o MDB crescia nas urnas, a Igreja reforçava campanhas por abertura democrática. Até radicais do PC do B aceitaram a via eleitoral. O fracasso na selva sepultou o radicalismo.

Passadas mais de três décadas, o que ficou da aventura?

P.P.R. – O episódio foi pequeno, mas seu subproduto, o saldo político, foi muito importante. Enquanto a luta armada fracassava no campo, entre 1972 e 1975, o MDB conquistava o eleitorado, intelectuais como Fernando Henrique Cardoso faziam pesquisas no Cebrap. O jornal Movimento desafiava a censura, arrumavam-se as bases para a ascensão dos sindicatos. O fracasso da luta armada mostrou que o caminho era o diálogo político. A este o regime não conseguiu sobreviver.

Como o sr. vê a orientação dos militares para matar mesmo presos indefesos?

P.P.R. – À parte os julgamentos morais, é preciso entender que para o Exército era uma guerra e a lógica da guerra é eliminar o inimigo para evitar riscos. A França matou cerca de 1 milhão de pessoas na Argélia. Há alguns dias, mataram o segundo homem da cúpula da Al-Qaeda. Ninguém cobrou que ele fosse levado vivo para julgamento.
***

'Atingidos pela Vale' decidem reforçar ações para 'desmascarar' mineradora


III Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale, realizado no bairro Santa Tereza, no Rio de Janeiro, acontece em paralelo à Rio+20 e definiu como prioridade "desconstruir" a imagem da empresa. A mineradora é acusada de violar direitos trabalhistas, comunitários, ambientais e sanitários em diversas regiões brasileiras e vários países, entre eles, Moçambique, Peru, Chile, Nova Caledônia e Canadá.

Igor Ojeda, de Carta Maior

Rio de Janeiro - Desconstruir a imagem da Vale será, a partir de agora, uma das principais estratégias adotadas pelas vítimas da empresa de mineração sediada no Brasil. Tal conclusão se deu hoje (16) no III Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale, realizado no bairro Santa Tereza, no Rio de Janeiro. A mineradora é acusada de violar direitos trabalhistas, comunitários, ambientais e sanitários em diversas regiões brasileiras e vários países, entre eles, Moçambique, Peru, Chile, Nova Caledônia e Canadá.
Em janeiro deste ano, a empresa foi eleita a pior do mundo em uma votação da Public Eye Awards, “premiação” existente desde 2000 e que tem o Greenpeace como um dos organizadores. De 88 mil votos, a Vale recebeu 25 mil. A mineração e os projetos extrativistas em geral vêm sendo temas de muitos debates e atividades na Cúpula dos Povos, que acontece na capital fluminense como evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 – da qual a mineradora é uma das patrocinadoras.
Um dos diagnósticos do encontro é que as empresas que mais causam impactos sociais e ambientais estão fazendo nos últimos anos grande uso da publicidade e da chamada “filantropia estratégica”. No Brasil, por exemplo, a Vale, além dos projetos sociais apoiados por sua fundação, vêm investindo bastante em propagandas – em meios eletrônicos e impressos – que contam com artistas de renome e buscam reforçar sua conexão com o Brasil.
Além de manter o foco do enfrentamento direto – como protestos, mobilizações e ações judiciais –, o grupo pretende mostrar à sociedade “a verdadeira face da empresa”. Nesse sentido, foram sugeridas ações como a criação de um site em três ou quatro idiomas (português, espanhol e inglês, com a possibilidade de se incluir também o francês) e a produção de materiais de contrapropaganda – panfletos, folders, cartilhas, vídeos etc. Uma das prioridades é a divulgação das denúncias nas escolas, uma tentativa de contra-atacar o trabalho que a mineradora faz nessas instituições.
Estratégias
Este ano, já foram realizadas duas grandes ações de contrapropaganda. A ideia é reforçar essa estratégia. Em janeiro, ocorreu a “premiação” da empresa como a pior do mundo – fato muito divulgado mundialmente e que deve ainda ser bastante explorado no próximo período. Em abril, foi lançado pela Articulação Internacional de Atingidos pela Vale o Relatório de Insustentabilidade Vale 2012, uma contraposição ao Relatório de Sustentabilidade divulgado pela companhia anualmente.
Também conhecido como “relatório sombra”, o documento rebate ponto a ponto os eixos abordados pela Vale. O objetivo era mostrar que a realidade de trabalhadores, comunidades e meio-ambientes do entorno dos empreendimentos é bem distinta àquela apresentada pela empresa. Três momentos do ano foram apontados como propícios para ações de contrapropaganda de caráter mundial: a assembleia dos acionistas, a divulgação do Relatório de Sustentabilidade da empresa e o período de anúncio dos lucros e dividendos.
Os participantes do encontro enfatizaram que muitos dos impactos causados pela Vale são decorrentes da logística utilizada para os grandes projetos, como as ferrovias e rodovias construídas para o transporte do conteúdo extraído das minas. Assim, são frequentes casos como atropelamentos de animais e pessoas, poluição sonora e poeira e rachaduras nas casas.
Entre os impactos mais diretos citados pelos atingidos, figuram a perda de soberania sobre as terras, assassinatos de lideranças comunitárias, prostituição, aumento do custo de vida nas comunidades próximas de onde um empreendimento é instalado, chegada de um grande número de população flutuante e até doenças psíquicas, neurológicas e físicas, como de respiração, de pele e cânceres.
Segundo as vítimas da Vale, diante das denúncias de violações, a mineradora responde com mais violações. Frequentemente promove assédio moral sobre os funcionários, quando não os demite, tenta cooptar lideranças, cria ONGs e movimentos sociais de fachada e “compram” órgãos governamentais.
Nem mesmo a segurança de seus funcionários estaria garantida. Dados citados durante o encontro dão conta de que em 2012 já aconteceram 16 mortes nas instalações da Vale no Brasil, Canadá e Indonésia, diante de 11 em 2010, 10 em 2009, 9 em 2008 e 14 em 2007, nos mesmos países. A estimativa é que até o final deste ano o número chegue a 25.
Para João Trevisam, da Confederação Nacional de Trabalhadores na Mineração, a mineradora “ainda está na época do capitalismo selvagem. Não quero que a Vale seja nossa desse jeito”, disse durante o encontro, fazendo referência à campanha pela estatização da mineradora, privatizada em 1997 numa operação suspeita de fraudes.
Vale em Moçambique
Os moradores da província do Tete, na região central de Moçambique, país da costa oriental africana, conhecem bem o modo de atuar da mineradora. “A Vale não tem respeito algum pelos mínimos direitos e hábitos culturais das pessoas”, protesta Fabio Manhiça, de 52 anos, da Associação de Assistência Jurídica às Comunidades, em entrevista à Carta Maior.
“Os salários são baixíssimos. Durante o acordo coletivo de trabalho, a empresa não respeitou a vontade expressa dos trabalhadores. Eles tiveram que assinar com o joelho em cima deles. Tanto que a maior parte dos trabalhadores da Vale não conhece o acordo coletivo. As comunidades foram evacuadas, foram tiradas pelo governo de suas zonas de origem e levadas a uma que não escolheram. Não sabemos com quem negociar. O governo diz que é com a empresa, a empresa diz que é com o governo. O povo fica no meio”, resume.
Segundo Manhiça, um problema grave é a falta de conhecimento de trabalhadores e comunidades sobre seus próprios direitos. Outro, o poder da mineradora de “corromper tanto os dirigentes o governo quanto os dirigentes sindicais” do país. Nem mesmo os líderes sindicais não cooptados encontram espaço para atuação. “Se você for até as comunidades, os moradores não vão falar consigo. Temem represálias. Seguranças da Vale e a força policial do governo andam pelas ruas, semeando medo e pânico. As pessoas não te dizem nada. Tanto que as informações sobre a Vale a gente encontra nesses fóruns; lá não temos acesso a nenhuma informação. Tu não entras lá dentro, é barrado.”
Em 12 de junho, outro moçambicano que participaria do encontro foi impedido de entrar no Brasil pelo aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Jeremias Vunjanhe, da ONG Justiça Ambiental e da Federação Internacional Amigos da Terra, teve seu passaporte retirado e foi obrigado a voltar ao Moçambique. A Polícia Federal não informou as razões desse tipo de tratamento – Vunhanhe tinha visto de entrada no país. 

domingo, 17 de junho de 2012

Crime de lesa pátria em Carajás


Foto: Salviano Machado, IG

Recentemente passei quase três semanas no Pará, viajando pelo estado. Notei, nas bancas de Belém, a presença sempre destacada do Jornal Pessoal, do repórter Lúcio Flávio Pinto, que também tem versão digital.
Comprei o dossiê que ele preparou sobre a Companhia Vale do Rio Doce, sobre o qual o Viomundo tinha publicado um texto, reproduzido da Adital.
Dias depois, tive um breve encontro com o repórter na praça da República, onde fica o lindíssimo Teatro da Paz, herança dos tempos do ciclo da borracha.
Há, é importante frisar, um paralelo entre o ciclo da borracha e o ciclo do minério de ferro, que sai de Carajás, no sul do Pará, ao ritmo de 100 milhões de toneladas por ano: nenhum deles enriqueceu o estado.
Em nossa conversa, Lúcio Flávio confessou que sentiu um nó no peito toda vez que viu o trem carregado de minério partindo de Carajás em direção ao porto da Ponta da Madeira, no Maranhão, onde é embarcado para exportação.
Ele se sente tão indignado com o assunto que, além do dossiê, lançou um blog, no qual pergunta: a Vale é mesmo nossa?
O que mais deixa o repórter preocupado não é o fato de que a Vale engorda, enquanto o Pará emagrece. Nem o fato de que as ações preferenciais da empresa, aquelas que têm prioridade para receber dividendos, são controladas majoritariamente por norte-americanos. Ou seja, um novaiorquino dono de ações da Vale ganha muito mais com o minério de Carajás que o paraense que vive em Marabá ou Parauapebas.
O que deixa o jornalista indignado é o ritmo das exportações de minério de ferro de Carajás, nas palavras de Lúcio Flávio “o melhor do mundo, com o dobro de teor de hematita que o minério da Austrália”, outro importante fornecedor da China e do Japão — que compram 80% das exportações brasileiras.
Quando a exploração de Carajás começou, em 1984, a previsão é de que a mina duraria 400 anos. Ao ritmo de 100 milhões de toneladas por ano, que devem crescer para 230 milhões em 2016, a previsão agora é de que Carajás dure mais 80 anos, diz Lúcio Flávio. “Um crime de lesa Pátria”, “um crime que viola a soberania do país”, afirma.
O jornalista traça um paralelo com a exportação de manganês da Serra do Navio, no Amapá. Durante 50 anos, os Estados Unidos importaram 1 milhão de toneladas anuais do Brasil. E até hoje guardam estoques estratégicos do minério brasileiro, de altíssima qualidade, que misturam ao minério de baixa qualidade para garantir a siderurgia local, dependente em 90% das importações.
A mina do Amapá se esgotou em 2002. Qual foi o legado principal para o estado? Quando se descobriu que o manganês fino tinha uso industrial, foi implantada no Amapá uma usina de pelotização, que usou grandes quantidades de arsênio no processo. O arsênio hoje contamina o porto de Santana em doses muito superiores às recomendadas pela saúde pública.
Para Lúcio Flávio, os chineses estocam o minério de ferro brasileiro de forma estratégica, além de transformá-lo em bens de imenso valor agregado.
No dossiê, pergunta: “Temos algum controle sobre o processo de formação de preços? Quem estabelece a escala da produção, que está duplicando, para incríveis 230 milhões de toneladas, em 2015, a atual produção de Carajás? Atraídos pelo canto da sereia dos preços altos, estamos renunciando a uma ferramenta poderosa de futuro e, com ela, à possibilidade de agregar mais valor ao processo produtivo?”.
“A Vale é boa para si e os seus grandes clientes. Mas não — ao menos na mesma medida — para o Brasil”, conclui. (Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo)

sábado, 16 de junho de 2012

'Economist': salário de servidor no Brasil é 'roubo' ao contribuinte'


 No Blog do Noblat

Uma reportagem na edição desta semana da revista britânica Economist afirma que altos salários pagos a parte dos funcionários públicos do Brasil são um "roubo ao contribuinte". Os dados sobre a remuneração dos servidores foram revelados recentemente por meio da Lei de Acesso à Informação.
"A presidente Dilma Rousseff está usando a lei sancionada no mês passado, originalmente criada para ajudar a desvendar atrocidades cometidas pelo regime militar, para expor os gordos salários de políticos e burocratas", diz a revista.
A Economist cita como exemplo de abuso o fato de mais de 350 funcionários da prefeitura de São Paulo ganharem mais que o presidente da Câmara, cujo salário líquido é de R$ 7.223, segundo a Economist.
A publicação compara o salário de uma enfermeira-chefe da prefeitura do município, de R$ 18.300, com a média salarial da iniciativa privada, e conclui que o salário da servidora é 12 vezes mais alto que o pago pelo mercado.
A reportagem lembra que, por lei, nenhum funcionário público pode ganhar mais que R$ 26.700 - a remuneração dos juízes de instâncias federais superiores.
Porém, um terço dos ministros e mais de 4 mil servidores federais teriam rendimentos superiores a esse teto. Incluindo o presidente do Senado, José Sarney, cujo salário chegaria a R$ 62 mil, devido a um acúmulo de pensões.
A revista também classifica como um "roubo ao contribuinte" o fato de membros do Congresso receberem 15 salários por ano, enquanto a maioria dos brasileiros recebe 13.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ajuruteua

Ilustração do suíco Erik Johansson


                            Ademir  Braz
Como pássaros, as ondas buscam em bando
a placidez d’areia e sobre ela tecem ninhos
de folhas, talos, conchas, destroços náufragos.
Na praia infinda, coqueiros bailam ao sol
sob a carícia incessante dos ventos.

Lá distante, barcos surreais que, no dia,
arranham a costa plúmbea das águas,
luzem à noite como vagos pirilampos.



A 2ª morte dos guerrilheiros do Araguaia



Os documentos do Exército sobre a Guerrilha do Araguaia - uma das
principais promessas para a elucidação do conflito - foram todos destruídos. É o que informou o Ministério da Defesa à reportagem da Agência de Notícia Floripa, em resposta a um pedido de consulta feito baseado na Lei de Acesso à Informação, que entrou em vigor mês passado.
Foram solicitados materiais produzidos entre 1970 e 1985 sobre ações do Exército contra a guerrilha, o maior foco armado contra a ditadura (1964-85), no sul do Pará e hoje norte de Tocantins. O conflito, organizado pelo PC do B, ocorreu entre 1972 e 1974.
Na resposta do Serviço de Informação ao Cidadão do Exército, criado para atender as demandas da nova lei, a instituição diz que um decreto de 1977 "permitia a destruição de documentos sigilosos, bem como dos eventuais termos de destruição".
De acordo com a resposta, a destruição dos documentos foi feita de tal forma que é impossível identificar os responsáveis pela eliminação, como desejam alguns dos membros da Comissão da Verdade.
Historiadores e familiares das vítimas do conflito especulam que os documentos tenham sido destruídos para apagar vestígios de eventuais crimes de oficiais.
O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim já havia dito, em 2011, que documentos relacionados à repressão haviam "desaparecido". Mas é a primeira vez que o Exército admite a destruição após entrar em vigor a Lei de Acesso --que impede o bloqueio de qualquer informação relacionada aos direitos humanos.
Ainda assim, pesquisadores afirmam ser possível que existam documentos em poder de ex-militares guardados em arquivos privados.
Cerca de 70 militantes foram executados na Guerrilha do Araguaia, alguns sumariamente e após se entregarem. Até hoje, só foi possível identificar os restos de duas vítimas. O paradeiro dos demais nunca foi comprovado. O combate provocou uma movimentação de militares comparável à da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial (1939-45). A atuação deu expertise para o Exército agir em regiões de floresta. A guerrilha, ainda hoje, é citada como exemplo nos cursos de formação militar.

Super juíza



A juíza de Direito Elaine Neves de Oliveira está respondendo pela 1.ª, 2ª e 3ª Varas Cíveis e Juizado Especial no Fórum de Marabá, além da Comarca de Jacundá, que não tem magistrado desde fevereiro passado. Em Marabá, os titulares estão de férias ou de licença. O Tribunal de Justiça conhece a gravidade da situação mas faz cara de paisagem.


Unifesspa


R$ 3,52 milhões em 2013; R$ 32 milhões em 2014; R$ 30 milhões em 2015; e R$ 7,06 milhões em 2016. Este, segundo o Jornal da Câmara, o cronograma de investimentos para criação da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, com sede em Marabá. Serão criados 5 campi nos municípios de Rondon do Pará, Santana do Araguaia, São Félix do Xingu, Xinguara e Parauapebas.
A Unifesspa contará com 47 cursos de graduação e a estimativa é de atender 12.830 estudantes. Serão criados 506 cargos de professor, 238 cargos técnico-administrativos de nível superior e outros 357 cargos técnico-administrativos de nível médio e também um cargo de reitor, um de vice-reitor e outros 552 cargos de direção e funções gratificadas. Todos os cargos e funções só poderão ser providos a partir de janeiro de 2013.
e ago! s � ை � indo R$ 3 mil”, diz.