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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Graças à Vale, Carajás é chinês

Singela representação dos efeitos sociais locais das atividades
da Vale no Pará

O terceiro trimestre deste ano foi dos melhores da história de 68 anos da Companhia Vale do Rio Doce. A empresa bateu recordes de produção e de resultados financeiros. Faturou como nunca num único trimestre: 14,5 bilhões de dólares. Se essa média se mantivesse pelo ano inteiro, sua receita chegaria a US$ 58 bilhões.
Não chegará porque os meses anteriores foram de dificuldades, recuperando-se da crise internacional. Mas chegará ao final de 2010 como se estivesse num ritmo mais acelerado do quenunca antes”, como diria o presidente Lula, desafeto contido do presidente da companhia, Roger Agnelli, que completará 10 anos no cargo no próximo ano, se chegar a completar.
Diz-se que com a vitória de Dilma Rousseff sua saída é certa. Ciente disso, Agnelli aproveitou a comemoração dos números grandiosos para se queixar (no exterior) dos petistas, que o pressionam por empregos. Talvez se preparando para uma saída em grande estilo, que o governo, através dos fundos de pensão, tem poder suficiente para afastá-lo, mesmo com o desempenho impressionante. Oficialmente, porém, o ex-executivo do Bradesco, o maior sócio privado da antiga estatal, parece preparado para o combate que se aproxima.
No dia 26 ele mandou divulgar uma nota oficial para informar quejamais foi tratadaentre os acionistas controladores da empresanem fez parte da pauta do Conselho de Administração a substituição do diretor-presidente Roger Agnelli. As especulações na imprensa, que atribuem a ‘fontes do Conselho de Administraçãoinformações neste sentido, não retratam a posição dos acionistas controladores da empresa”. Os cotistas, que vão sacar dividendos altíssimos no atual exercício, têm motivos para querer que Agnelli permaneça onde está.
Recordes não foram na receita global da Vale, que passou de US$ 9,9 bilhões no 2º trimestre para US$ 14,5 bilhões no terceiro. O lucro líquido cresceu 63% no período, pulando de US$ 3,7 bilhões para US$ 6 bilhões, o maior de todos os tempos. Os investimentos foram de US$ 14 bilhões, o retorno aos acionistas chegou a US$ 5 bilhões e a empresa ainda aplicou US$ 2 bilhões na recompra de suas ações, demonstrando que crê no futuro. Com ou sem PT para “aparelhá-la”.
Se fosse pelos indicadores que a Vale apresentou, Roger Agnelli devia ser parabenizado e não ameaçado de demissão, caso a empresa fosse realmente privada. Ela é quase uma corporação financeira pela sua face de organização particular, mas convive com um hibridismo estatal que, no regime do PT, se manifesta mais nos bastidores do que diante da opinião pública.
De público, o PT nunca questiona os resultados da companhia, mesmo porquedireta ou indiretamentetira vantagens desses ingressos, sob todas as formas. Mas parece querer sempre mais poder para ter ainda mais. Sua divergência não interfere nos rumos dessa que é a mais acabada das multinacionais brasileiras, se não for a única, a rigor.
Mas é justamente os rumos dessa opção que precisam ser questionados. Uma mera análise contábil da prestação de contas da empresa sobre o 3º trimestre de 2010 levará à exaltação das decisões tomadas pelos seus dirigentes, que estão apresentando resultados excepcionalmente favoráveis, como poucas companhias no mundo. O problema é que a Vale, pelos erros cometidos na sua privatização, é um ser estranho: deixou de ser estatal e não é uma empresa privada convencional. Se o país fosse sério, nem poderia ser.
O tamanho e o poder da Vale lhe impunham a condição de estatal, ou então o seu porte mastodôntico teria que sofrer fracionamento, mesmo acarretando perdas de sinergia. Ela é tão poderosa quanto um governo. No Brasil, aliás, maior do que todos, exceto o governo federal, pelo controle da logística que possui em todo país (com as duas maiores ferrovias e os dois maiores portos, num acervo que excede e ignora as segmentações federativas) e a capacidade de investimento, maior do que muitos Estados somados (talvez inferior ao de São Paulo).
Como os representantes do governo na corporação se interessam mais pelo manejo dos cordões dos benefícios e o poder de mando, a análise do significado atual da Vale, às vésperas de chegar a 70 anos de existência, se empobrecem num questionamento menor ou numa negação radical. As duas posições são inócuas porque não influem no âmago da companhia. Todos vêem o gigante que ela é, mas não se apercebem do seu dedo, onde está a sua digital.
No caso do Pará, que vai consolidando a sua condição de principal unidade produtiva dessa multinacional, a marca registrada é oriental, mas especialmente chinesa. Como o principal produto da Vale ainda é o minério de ferro, o Pará tem um significado especial por causa da riqueza do minério de Carajás. Não é por acaso que enquanto representa 35% das vendas totais da Vale, computando-se as suas diversas origens (Sul, Sudeste e Norte), em Carajás a participação chinesa é de 60%.
O preço médio da tonelada de minério de ferro no 3º trimestre deste ano foi de US$ 126 (contra US$ 92 no trimestre anterior), mas o melhor minério chegou a US$ 148. Quando tem mais de 62% de hematita contida, o minério tem ganho de qualidade e mais US$ 6 por cada 1% adicional de hematita. O teor do minério de Carajás é de 66%. Essa riqueza permite à Vale um ganho de US$ 21,60 por tonelada de Carajás, margem que supera o ganho do concorrente australiano (de US$15 por tonelada de frete) no mercado asiático, por sua muito maior proximidade física.
Não surpreende que este ano, se o desempenho do 3º trimestre se repetir no último período, pela primeira vez a produção de Carajássuperar 100 milhões de toneladas, na perspectiva dos 230 milhões previstos para 2015, o equivalente a nove meses de produção total em 2010, que é recordista. O ganho marginal da Vale pelo teor do minério de ferro de Carajás, o melhor do mundo, será de US$ 2 bilhões. Esse dinheiro todo é recolhido aos cofres da empresa, que se abarrotam. Nada é repartido com o Estado no qual essa riqueza existe, mas está sendo transferida para o outro lado do oceano em velocidade que corresponde a verdadeira sangria desatada. Mais três décadas e nos restará chorar no fundo do buraco, no qual ficaremos.
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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).
Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

6 comentários:

Anônimo disse...

Boa Tarde Pagão!
A Vale é uma empresa privada, visa lucros, uma das que mais emprega no Brasil. Não sou advogado da Vale, nem tenho benefício nenhum, mas tenho sim um respeito e reconheço a relevância da mesma para com a região.
Sabemos também do quanto é retirado da nossa terra, e dos ganhos diga-se de passagem "grandes ganhos R$" que a Vale retira daqui, mas o que falta mesmo são políticos preparados e entidades sérias para debater, argumentar e exigir investimentos na região.
Sabemos que muitos cargos são ocupados com interesses maiores (bolso de cada), utilizando assim como forma de barganha o poder que se tem na mão para apenas enxerem os seus cofres particulares, ao invés dos interesses de toda população.
É notório e vergonhoso tds os movimentos que já foram feitos contra a mineradora, movimentos inflamados, mas que nada que uma boa "jogada de interesses" não resolva. Negócios com suas empresas...internet, frotas de veículos, combustível, e por aí vai...
Marabá só irá pra frente quando tiver uma renovação verdadeira nesse cenário político, que acaba refletindo no empresariado e autoridades em geral, estas formadas por irmãos, tios, cunhados, compadres, que ocupam cargos de prefeito, vereador, presidente de associações e cia ltda... e o mais triste de tudo.
Pessoas que enchem a boca para falar que são Filhos de Marabá, mas na verdade são um bando de Filhos da Puta!

Aproveito o gancho para falar dessa vergonhosa imprensa local que temos, que é do mesmo bando... quando tá do lado da "TETA" só falam maravilhas (o negócio é o R$ na conta), mas quando não estão, tudo fica turvo, e isso é geral do impresso a TV!

Êta Mundão!

Abs Ademir! Continue firme com seus idéais. Eu ainda acredito!

João Sem Braço.

Quaradouro disse...

Sem braço, é? O meu se chama MarcAntônio - assim mesmo! rsrsrsrsrsrs
Bom. Eu me lembro sim duns acampamentos de prefeito, vereadores e empresários nos rilhos da Companhia Vale do Rio Doce ali na cabeceira da ponte do Tocantins, onde o governador Hélio Gueiros e sua PM mataram inúmeros garimpeiros rebelados em 1987.
Tinha churrasco e o uísque corria à solta nas noites frias (nem falo nas corridas à moita próxima para uma cagada ou uma trepadinha). A desculpa era a luta pelo projeto Salobo, que deveria ter sua usina metalúrgica no Distrito Industrial de Marabá. Nosso DIM está aí: falido e caricatural como peça de museu do século passado.
Quem lucrou com isso? Quem?
A cidade é que não foi...

Anônimo disse...

Demir, a ACIM e CMM às vezes, encenam brigas com a Vale, quando os interesses financeiros pessoais de seus integrantes são contrariados. Sendo esses, contratos de terceirizações de serviços e/ou fornecimento materiais etc...(ACIM)com empreiteiras da empresa, e din-din para campanhas políticas(CMM). Há a mobilização/grita veiculados na mídia escrita, falada e televisada, visando chamar atenção da Vale e coloca-la como vilã. Movimento esse, que logo acaba quando os "cala-bocas" financeiros são executados, favoraveis aos reclamantes. Em 10.11.10, Marabá-PA.

Anônimo disse...

é por aí...
o movimento é esse, e a finalidade é exatemante essa. Interesses particulares.
Esses "cala a bocas" são os objetivos principais de tds que estão envolvidos, infelizmente.


João Sem Braço

Quaradouro disse...

Vocês sabem por que a vereadora Vanda Américo é contra a construção da Hidrelétrica de Marabá?
Não é por causa de ribeirinhos porra nenhuma. Ela invadiu e ocupou uma área de marinha logo acima do porto do Espírito Santo, onde passa os finais de semana no mais alto astral.
Mateus, primeiro os teus...

Anônimo disse...

Rs. Uma verdadeira FDP, como eu disse antes... mas é Filha de Marabá!
Sei lá, vai ver que tem uma lei aqui, que para esse pessoal tudo é permitido.
Essa notícia, que eu desconhecia, mostra exatamente o que eu escrevi no post acima.
A maioria das "autoridades" dessa nossa rica Marabá só quer uma "beradinha" de tudo.
O desenvolvimento da cidade é muito menos importante que uma propina de leve nos seus bolsos!

As eleições estão chegando, vamos eleger os mesmos pois fazem muito alsfalto, praças, defendem os ribeirinhos, brigam contra a vale, e ainda são filhos de marabá!

Filhos de Marabá Já!

João Sem Braço (.. com dois olhos)

Obs: Em Marabá existem muitos filhos desta terra dignos. Portanto os que não se enquadram me desculpem e desconsiderem.