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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma crônica

Diante da surpreendente e lisonjeira reação do distinto leitorado, sinto-me estimulado a trazer-lhes mais um escrito, desta vez uma crônica. Espero que gostem:


A nostalgia dos velhos amores
Quando me entendi por gente, na cidade havia um único carro: o caminhão do seu Pedro, o Fon-fon. Era bastante velho, tinha o volante no lado direito, e o dono dizia que era de fabricação inglesa. Como veio parar aqui, não sei. Não havia estradas e entrar ou sair da cidade era uma aventura entre cachoeiras e pedrais, e até me lembro que na primeira vez em que vi de perto um avião aterrissar no aeroporto, corri de medo.
Ainda hoje me indago se o caminhão do Fon-fon teria vindo peça a peça desmontado em barco e remontado na cidadezinha empoeirada. Certo dia apareceu um circo com um gigante que puxou o caminhão, cheio de meninos, por uma corda amarrada nos cabelos. Enquanto arrastava aos trancos a pesada tralha na praça principal, eu via as veias engrossando no seu pescoço de búfalo.
Assim como a balança de ferro fundido do mercadão, o Fon-fon e seu caminhão mágico dissolveram-se no ar, para sempre. Hoje, Marabá tem 17 mil carros e nenhum gigante capaz de puxá-los pelos cabelos.
Durante muitas décadas, a cidadezinha continuou a mesma com seus fogões a lenha e geladeira a queroseneprivilégios de casas raras. Luz, entre seis da tarde e onze da noite, quando seu Pedrinho, Piston e Nicandro conseguiam acordar o Caterpillar amarelão da usina de força e luz, e a energia precária faiscava em lâmpadas comuns sobre postes de madeira.
Em regra, éramos todos muito pobres, mas não faltava o quilo diário de carne em nossas mesas e dos rios pescadores traziam uns peixes enormes.
Foi assim que, menino ainda e sufocado de saudade e angústia, larguei essas coisas e fui aprender um pouco mais fora, num mundo que me ensinou o jejum forçado e a solidão. Foram décadas de ausência e seguidas vezes vim e fui e vim, nessa ainda agora dolorosa e mal-resolvida paixão por Marabá. Aqui amei, sofri, fui profundamente amado e decerto fiz involuntariamente alguém sofrer. Agora, essas lembranças afloram e Marabá faz amanhã (cinco de abril) 90 anos de cidade e, em julho, 105 de fundação.
Há 18 retornei decidido a ficar de vez, ter filhos, continuar a sonhar e lutar por um futuro mais digno para minhas crias e as dos conterrâneos, e depois deixar, quem sabe, embranquecer, pelos 88 anos, meus ossos juntos aos ossos de meus pais, tia, sobrinho e amigos nas campas de São Miguel.
tempos, contudo, me dou conta que, se avançamos, foi para trás. Quanto mais nos modernizamos, mais tornamo-nos insensíveis, perdemos a solidariedade.
Enquanto estradas foram abertas e a cidade inundou-se de trabalhadores, empresários e bandidos, videogames, antenas cancerígenas e telefones celulares, computadores internetados, parabólicas e bancos, e uma industrialização capenga acampou no inimaginável distrito industrial, há gente passando fome, morrendo de fome, e não era isso que eu sonhava para minha terra. A industrialização não é, eu sei, necessariamente um processo que torne a vida mais humana, porém nada custava iludirmo-nos com as possibilidades de outros horizontes.
Pois agora, com uma esquisita sensação de impotência, de sonho sonhado em vão, de vez em quando me pego assim olhando o tempo, a curva do rio, os aviões enormes que cruzam os céus, e torna essa impressão de que, apesar dos meus 50 e muitos anos e dessa pobreza crônica, a qualquer hora volto a pegar a estrada e ir para bem longe viver uma outra história (talvez desta vez para sempre, como o caminhão inglês e o gigante com pescoço de touro). (04.04.2004)

7 comentários:

Anônimo disse...

isso poeta, a nostlgia é revolucionária! (segundo Alfredo Bosi, eu acho).
JC

Maricotinha disse...

Desse jeito, vais ganhar o Nobel de Literatura, meu bem. Que desenvoltura com as palavras, a construção da narrativa bem cuidada. É de uma beleza fantástica! Já me vejo na noite de autógrafos, os flashs estourando, o champgne, todos em volta aguardando a dedicatória. Ai, já me sinto a própria senhora Ademir Braz. Posso...? Bjs e bom dia pra ti.

Quaradouro disse...

Ora, que menina mais folgada!

Gilvandro Oliveira disse...

Pô Ademir,

É verdade cara ninguém sabe que fim levou o caminhão velho do Zé Pedro. Parabéns pelas crônicas, passa um filme na cabeça de quem viveu esses momentos reais e maravilhosos de nossas infâncias e adolescências em nossa Marabá querida.

Sou mais novo que você poucos anos, mais recordo bem dos personagens, cenário e bastidores da tua narrativa.

Valeu meu velho um grande abraço.

Maricotinha disse...

Aaaahh, não corta meu barato...

Quaradouro disse...

Beicinho, Aric... Que gracinha!

Dr. Valdinar Monteiro de Souza disse...

Ademir, mano velho!...

Puxa, vida! Quanta vida, quanta nostalgia, quanta poesia neste texto em prosa de paixão malresolvida!

Mano velho, amei reler essa tua crônica. Aliás - como já disse e escrevi tantas vezes -, a crônica é o meu gênero literário preferido. E sabe por quê? Exatamente porque é essa mistura amável e gostosa de literatura e jornal. A crônica, por ser a realidade narrada jornalística e literariamente ao mesmo tempo, tem o poder de inebriar, de extasiar o leitor a partir do relato das coisas aparentemente mais simples.

Vamos fazer uma vaquinha, sim, como sugeriu o Dr. Júlio César, para edição do teu livro de crônicas e do de contos. Eu topo.