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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Um conto

Conclui um livro inédito de contos, que não tenho a menor idéia de que será publicado. 
É a velha história do escritor sem dinheiro.
Dou-lhes uma amostra do conteúdo. 


Dona Neusa

Os meninos tinham quase todos a mesma idade – nove e dez anos. Moravam na rua à margem do rio, do campinho de peladas junto às olarias. Artistas e bandidos, eles trocavam tiros em duelos de faz de conta sobre o descarte da palha de arroz da usina jogada na ladeira que levava à grota das traíras. À noite iam para frente do Cine Marrocos ver cartazes de filme e trocar gibis. O pai de dois deles, Walter, ficava insuportável quando bebia. Brigava com a vizinhança, um dia tocou fogo na casa e foi muito difícil apagar as chamas na cobertura de palha. Dizem que nunca mais bebeu, depois disso. Aí, quem resolveu dedicar-se aos tragos foi a mãe, dona Neusa, uma senhora baixinha e clara que passava os dias na máquina Singer a costurar calças e camisas de carregação para os comerciantes de castanha.
Foi numa noite de reprise e de pouca gente à entrada do cinema que o fato aconteceu. O filho da lavadeira já desistira de trocar as revistinhas lidas e relidas do Dr. Robledo, que virava o Cavaleiro Negro quando a ordem periclitava ante o assédio de assaltantes e pistoleiros, realidade distante do povoado, e guardava as revistas sob a camisa quando uma mulher de vestido negro e longo, com uma rosa vermelha sobre o seio esquerdo, aproximou-se. Ele sentiu o cheiro de bebida e demorou algum tempo para reconhecer dona Neusa com os cabelos negros soltos, os lábios carmins, pequeninas argolas douradas na orelha esquerda. Eram quase da mesma altura. Ela sorriu e pegou-lhe a mão. Preciso de um homem que me leve ao Cabelo Seco, disse, era tarde e tinha medo de passar debaixo da ponte, a centopéia de madeira e pernas de tijolos fincados no pântano atrás da igreja de São Félix. Ele sentiu-se homem, a mãozinha dela aninhada na sua luva de Cavaleiro Negro. A Rua Grande vinha de longe, do fim da cidade, e se estreitava de repente entre as colunas sem reboco e depois seguia adiante, no leito de areia fina onde um cajueiro enorme a tornava mais sombria. Pois ali, sobre a terra nua, dona Neusa puxou-o de encontro à rosa do seio, beijou-o na boca, ele sentiu um calor bom no corpo e o pinto a latejar entre as pernas finas. Espojaram-se como animais insaciáveis, enquanto a lua crescente andava ao acaso no céu. Era tarde quando se desvencilharam. Caminharam juntos em silêncio pela rua do cinema, entre as casas de portas e janelas fechadas. Separaram-se na esquina da rua à margem do rio. O coração em sobressalto, ele a viu passar debaixo da luz rala do poste e entrar em casa. Na ponta dos pés ele evitou acordar pai e mãe e mergulhou silenciosamente no tambor de água das plantas do quintal. Boa parte da noite revirou-se inquieto na rede, a carne em chamas a despedir-se do menino de dez anos.
O pai olhou-o pensativo no dia seguinte quando ele pediu uma calça comprida e algum dinheiro. Foram ambos à Casa Pernambucana e ele animou-se com uma calça azul, de linho, e duas camisas mangas curtas com bolso na frente. Na Casa Andrade, compraram uma caixa de lenços, um espelhinho redondo, um vidrinho de óleo de mutamba para os cabelos, e um pente Flamengo.  O pai nada dizia, só olhava. Ao anoitecer, mal acabou o jantar, um rapazinho cheiroso e penteado ganhou as ruas. Foi direto à casa dos amigos, no outro quarteirão. Dona Neusa abriu a porta, examinou-o da cabeça aos pés. Na cozinha, Walter e os meninos ainda jantavam Então ela falou de uma vez:
-  Vá embora. Eu não me responsabilizo pelas loucuras que a outra faz.

16 comentários:

Anônimo disse...

Caro Ademir,

Escritor é aquele que escreve todo dia, e fazes isso, é o nosso poeta maior, aquele que se dedicou e de dedica em fundar a nossa literatura, só quem não o leu, nunca poderá mensurar as distancias que nos ensinou a percorrer em letras, mas reconheço é o nosso poeta canone, também fundador do nosso poema sentimental, trágico até, mas sempre a frente do tacanho tempo da fronteira. Diria que o texto acima é o conto do não lugar! Prossiga, um dia desses, haverá politica literária?

Abraços

Charles Trocate

Anônimo disse...

Ademir
Lí e viajei.Todo o cenário é claro na minha lembrança.Devia ser antes das 11 o retorno dos amantes,pois a luz do poste o velho motor de luz(tinha nome francês)só garantia até a esta hora.Muito Marabá,Granito,Ponte atrás do campo de futebol.Saudade.
Pinheiro

Quaradouro disse...

Charles Trocate, sinto sua falta. Ando demasiado sozinho, na verdade. E melancólico, sem perspectivas. Lua de Jade anda ocupada demais, não lhe sobra tempo sequer para o amor.
Que fazer?

Quaradouro disse...

Dr. Pinheiro:
a matéria precária com que lido nos escritos são fatos reais, muita lembrança e alguma ficção.
É tudo tão recente!
Mas escrevo como posso: a intenção é resgatar de dentro para fora o lado humano de nossa história pisoteada por "desbravadores", "colonizadores", e tantos outros heróis contemporâneos.
E quem sabe dar algum perfil a essa cambada de marabaenses aqui nascidos nos últimos 30 anos e que não conhecem um pingo sequer de suas origens.
Colossal besteira da munha parte, né? Eu sei...

Dr. Valdinar Monteiro de Souza disse...

Literatura da boa. Claro, mano velho: é nota dez!
Insignificância literária? Colossal besteira? Coisa nenhuma! É dez mesmo! Bom... pelo menos, eu penso assim. Não sei (nem me importa saber, claro) os outros não poetas.

Anônimo disse...

Finalmente, Ademir, concluiste a tua prosa. Escritor sem dinheiro pra mim é quase um pleonasmo. Qual a idéia para conseguir publicar? Sabes os custos? Vamos fazer uma "vaquinha"?
Júlio César

AFLUENTE disse...

Meu caro García Marquez tupiniquim, seus contos me fazem voltar a um passado em que não vivi. Eles têm o estilo, a narrativa típica que nos envolvem do começo ao fim. quantos contos são? Já tem orçamento?
Guarde-os, com cópias de segurança, para que possamos um dia vê-los publicados, ou este ano ou no próximo.


Ulisses Pompeu

MARICOTINHA disse...

Muito bom o texto, merece ser publicado. Espero ser convidada para a noite de autógrafos. Me reconhecerás pelo vestido longo, preto, rosa no seio esquerdo, batom vermelho e algumas gotas de Chanel nº5. Bjs.

José Coruja da Silva disse...

Cadê a nossa Secretaria de Cultura? Será que só serve para trazer cantor de fora para homenagear a Santinha? Ou para fazer festa em praça pública? Não o conheço pessoalmente, ilustre e magnífico escritor, jornalista, poeta e contista Ademir Braz, mas sei que você tem um livro pronto para ser publicado e outro que já está escrevendo, mas cadê o patrocínio? Com a palavra o professor Melquíades Justiniano da Silva. Este sim, deve conhecê-lo bem de perto, assim como a outros talentos da terra, igualmente preteridos pelo poder público!
Triste Marabá!

Quaradouro disse...

Muito bem, Inha. Mas não esqueça dos brincos de argolas...

Quaradouro disse...

Caro Júlio:
O livro dá umas 200 páginas, um pouco mais talvez, porque aguardo a promessa do Antônio Morbach de fazer ilustrações.
Mil exemplares em Goiânia giram em torno de R$ 6 mil, fora o transporte.
Em Marabá, achei orçamentos que variam de 11 mil a 13 mil, é mole?
Se eu tivesse essa grana, arrumaria meu casebre rsrsrsrsrs

Quaradouro disse...

Caro Ulisses Pompeu:
Vê acima resposta dada ao nosso Júlio César Costa.
Há outros trabalhos: "O cacho verde e ácido do murici", Crônicas insensatas e outras malvadezas", "Terra mesopotâmica do Sol" (uma coletânea defotos e poesias sobre a "terra bendita",com dizem o hino e o blog do Chagas Filho. E outros.
Se der, publico. Se não, continuo escrevendo...

Quaradouro disse...

Mano Valdinar, você, como sempre, me comove. Obrigado pelas palavras e pela amizade.

Quaradouro disse...

Seu José, o exercício crítico da minha outra profissão, a de jornalista, há 38 anos, sempre me colocou em lado oposto à maioria dos nossos administradores municipais.
Isso explica a falta de apoio que, aliás, nunca pedi...
Foi a gigantesca generosidade do prof. Noé Atzingen que permitiu a publicação de um livro, o segundo (Antologia Tocantina)da trilogia sobre Marabá.
O primeiro saiu porque os amigos encomendaram e pagaram, assim no escuro, o livro que seria publicado justamente com a arrecadação.
O terceiro, contou com patrocínio da Usimar Cultura, (projeto que infelizmente deixou de existir) sendo, na verdade dois: Rebanho de Pedras e Esta Terra, reedição do primeiro)lançado em 2003.
A falta de uma política pública para as atividades culturais em Marabá é histórica e notória. Sabendo que de onde menos se espera daí mesmo é que não sai nada, nunca esquentei com isso: toco minha escuna arcaica a remo e vara de batelão.

Eleutério disse...

Concordo e reforço cada palavra e cada vírgula do José Coruja da Silva. Afinal, Cultura não é só festa, como muitos querem e pensam... Vê-se a prefeitura e empresários apoiando até miss que sequer representa legitimamente a cidade, escolhida "nas coxas", mas raramente - e muito raramente mesmo - se vê o apoio público ou privado a nomes como o de Ademir Braz e outros que representam, estes sim, a rica cultura marabaense!
Tenho dito!

Anônimo disse...

de 6 para 11, a diferença é grande; e aqui por Belém, ou mesmo no Brasil, não haveria um jeito de concorrer nalguns destes concurso que publicam as obras vencedoras? Mande logo para o prêmio Jabuti, na categoria contos; e não esqueça que ninguém é profeta em sua própria terra. JC