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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Discussão sobre aborto é hipocrisia

Adolescentes se prostituem na beira da estrada e ninguém faz nada 

Relatório da Federação Internacional de Planejamento Familiar, divulgado em maio de 2007, estimava que 19 milhões de abortos clandestinos serão realizados no mundo naquele  ano, provocando a morte de 70 mil mulheres, além de deixar seqüelas em milhares de outras. O estudo dizia que mais de 96% das gestantes que perdem a vida ou sofrem danos à saude por causa de abortos inseguros vivem nos países mais pobres do planeta, a maioria na África.
De acordo com a federação, em 2007 o Brasil era responsável por um milhão de interrupções de gravidez de forma insegura a cada ano e, segundo a ex-coordenadora de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde Maria José Araújo, os abortos ilegais eram responsáveis pela morte de 180 a 360 mulheres por ano no país.
O relatório "Morte e Negação: Abortamento Inseguro e Pobreza" acrescentava  que no Brasil, as mulheres pobres, jovens e nordestinas, eram mais vulneráveis aos abortos inseguros. E acrescentava que a população pobre é principal vítima porque não tem acesso a clínicas particulares nem remédios abortivos de menor risco do que práticas medievais como a introdução de agulhas de tricô que perfuram o útero, atingindo muitas vezes a bexiga ou o intestino da gestante. "O abortamento inseguro atinge, de maneira desproporcional, as mulheres mais pobres nos países onde ocorre", dizia o texto.
“As meninas de 10 a 14 anos são as que têm menos informações e menos recursos para evitar uma gravidez e menos recursos para se submeter a um aborto mais seguro”, afirmou a diretora da federação, diretora da IPPF, Carmem Barroso, destacando disse que o número elevado de abortos no Brasil é sobretudo um problema socioeconômico e que o aborto é um problema coletivo e não individual.
Segundo ela, outro fator de preocupação é que as mulheres brasileiras engravidam cada vez mais cedo, o que aumenta o número de abortos entre as meninas e as adolescentes. De acordo com o estudo, em 2005 foram registrados 2.781 atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) de meninas de 10 a 14 anos para tratamento de complicações pós-aborto. Entre as mulheres de 15 a 19 anos, foram 46.504 atendimentos.
Ainda segundo o relatório, 46 milhões de abortos intencionais são realizados no mundo a cada ano, dos quais 78% em países em desenvolvimento e 22% em países desenvolvidos. Outros 31 milhões de gestações são interrompidas espontaneamente ou resultam em fetos natimortos. Ou seja, 77 milhões de bebês deixam de nascer por causas naturais ou induzidas. Ao todo, 211 milhões de mulheres engravidam por ano, das quais 87 milhões de forma involuntária. A América Latina concentra 17% dos casos de aborto mundiais, atrás apenas da África, que responde por 58%.
Os abortos clandestinos são a quarta causa de morte materna no Brasil, segundo o estudo. Em 2006, 230.523 mulheres fizeram curetagens pós-aborto em hospitais do SUS. O procedimento é indicado tanto para mulheres que sofreram aborto espontâneo quanto para quem sofreu complicações decorrentes da interrupção induzida da gravidez.
Para Carmem Barroso, nenhuma mulher morreria ao abortar, caso tivesse acesso a métodos seguros. “Uma morte materna é demais, porque seria totalmente evitável, se fossem adotadas políticas adequadas. No mundo industrializado, não existem mortes maternas. Em condições seguras, não morreria nenhuma. A diferença é drástica, brutal, de 0 para 70 mil”.
NoBrasil, foi o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que propôs a discussão pública sobre a realização de plesbiscito no país acerca da legalização ou não do aborto. Para o ministro, o debate deveria considerar que o assunto é de saúde pública. E para Carmem, a proibição do aborto e a consequente falta de serviços de interrupção de gravidez no SUS não afeta a vida particular dos parlamentares brasileiros e de suas famílias, uma vez que são pessoas de maior poder aquisitivo e têm acesso a clínicas particulares.
Hoje, segundo o Grupo de Mulheres Arco Íris da Justiça, no Brasil se praticam cerca de três milhões de abortos clandestinos por ano.
Se o problema do aborto nessa escala tornou-se um problema de saúde pública, toda a presente discussão em torno dele, e nos termos em que é posta como campanha eleitoral, é pura hipocrisia. Porque, como diz o jornalista Alberto Dines, “descriminalizado ou não, o aborto continua sendo praticado aberta e impunemente na vasta rede informal de atendimento médico. O que deve sair imediatamente do debate eleitoral é esta fingida religiosidade que leva Deus aos palanques, macula as mais íntimas opções espirituais do eleitor e abala gravemente os fundamentos da nossa democracia – teoricamente isonômica, tolerante, aberta, inclusive aos agnósticos, descrentes e ateus.”

2 comentários:

Ulisses Silva disse...

Essa história de "fulano é a favor do aborto" e "fulano não é", já tá enchendo o saco.

Ora, quem é firme em suas crenças religiosas não vai fazer ou induzir ninguém a praticar aborto só porque tem uma lei que permite.

Estão dando um sentido que não existe.

A lei não vai obrigar. Portanto, faz quem quer. E mais, com lei ou sem lei as pessoas praticam aborto do mesmo jeito.

Se só a lei foi o suficiente, no Brasil não teríamos esse número alarmante de homicídios, afinal, está previsto punição para quem mata alguém (art. 121 do Código Penal).

Também não teríamos tantos políticos metendo a mão no erário, afinal há o Código Penal, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Ação Popular, a Ação Civil Pública, e a Lei de Improbidade Administrativa, além, é claro, da Constituição.

Lei, por si só, não faz absolutamente nada.

E só pra citar mais um caso: se só a lei bastasse, não teríamos tantos casos de pessoas dirigindo embriagadas, afinal, há a "famosa" Lei Seca.

Portanto, É LAMENTÁVEL QUE O DEBATE POLÍTICO TENHA DESCAMBADO PARA ESSE NÍVEL.

Mural de Marabá disse...

A hipocrisia é o nosso problema.