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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Falta seriedade ao Greenpeace-Manaus

Milanez: medíocre e sem graça
Sob o título "Transando a Amazônica, essa quanretona!!", assim mesmo escrito, o blog http://gp-manaus.blogspot.com, que se diz de voluntários do Greenpeace, publicou ontem um primor de preconceito sobre as comunidades disseminadas ao longo da BR-230, estrada aberta pela ditadura militar nos anos 70.
O texto de Felipe Milanez.  que se pretende inteligente e engraçado, é só ridículo: uma aula de ignorância, estupidez e mau gosto. Leiam:


Olhando de cima, no satélite do Google, a Transamazônica parece uma série de espinhas de peixe. Essa é a cicatriz que rasgou a geografia. “Chega de lendas, vamos faturar!”, foi como o governo federal saudou, em um anúncio publicitário, “com aplauso e incentivo da Sudam”, a maneira como muitas pessoas deveriam começar a tirar proveito da Amazônia, 40 anos atrás. A Transamazônica era o caminho. De uma ponta a outra, ia domesticar a selva. Encher de gente aquele monte de terra que diziam que era vaziavazia de que, cara pálida, se estava cheia de índios? Progresso. Médici veio com tudo. E em 9 de outubro de 1970, Brasil tricampeão de bola, ele baixou em Altamira. Batia um calorão de 40 graus. Emocionou-se com a presença dos 3 mil habitantes da cidade que vieram assisti-lo—convidados ou convocados pelos milicos.
Ficou comovido ao ver uma árvore de 50 metros de altura ser derrubada por um bravo tratorver mato ou gente cair era coisa que lhe apetecia. Descerrou a placa comemorativa. E saiu nos jornais. “Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da Repúblicainício à construção da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde.” O que o sanguinário ditador não sabia era das más companhias.
Vampiros. Eles estavam escondidos nos carros, Opalas pretos da comitiva presidencial. E sem que soubesse, Médici povoou Altamira e toda a Transamazônica, começando por Marabá, de vampiros. “Vampiros. Eles vinham e pegavam as crianças pra chupar o sangue e cortar os órgãos genitais delas. Era um terror”, recorda-se uma se-nhora que viveu a época. Pouco antes da chegada do ditador, perto de Marabá, um cinema passou um filme de vampiros. Os agricultores ficaram chocados. Chupavam sangue de crianças. Depois que passaram os carros da comitiva presidencial, esses vampiros do filme vieram infestar a Transa.
Anos depois, qualquer assassinato mais brutal que ocorria, principalmente com crianças, era atribuído aos “vampiros”, como os do filme que Médici espalhou. “Gente branca vestida de preto, que anda num caminhão frigorífico preto, grandão”, conta a senhora, relembrando um momento de apariçãoum antropólogo conta que, nesse caso, era um Toyota Bandeirante azul com jornalistas franceses; mas aqui na Transa, vampiros. Ponto.
O sangue secou na maioria dos lugares por ali. Movimentos sociais se organizaram, os colonos dividiram terras, conseguiram começar a produzir (até agricultura orgânica), invadiram terras de índios e foram desalojados. Anos de agito, em que a gente da Transa conseguiu ir revertendo a história de violência onde foram lançados. Mas as histórias ficaram. Andar pela estrada com um guia que conhece a região (e, como bom conhecedor da região, ele não vai querer o nome publicado em nenhum lugar) é tentar ver, pela ótica da ironia, um pouco mais suave, a brutalidade que tem sido a conquista da Amazônia, tentando entendê-la. Nos 40 anos da Transa, nada como um turismo de conflito pelas curvas da senhora, visualizando as brutalidades do passado para conhecer os demônios do presente.
LÁBREA
Se começar por Lábrea, no Amazonas, onde a Transa termina, venha na época da seca, senão, pode não conseguir sair daqui. Não perca o memorial do seringueiro e descubra mais sobre as correrias falando com algum soldado da borracha encostado numa varanda: são as famosas caçadas de índios que eles faziam. Tente dar uma esticadi-nha para Boca do Acre, ou andar pelas matas da região; aqui é possível reviver o faroeste bangue-bangue e os conflitos por terra à moda antiga.
APUÍ
Aqui tem aquele mito do Eldorado bombando, um grande garimpo, a nova Serra Pelada que não vingou. Juma, ilegal, que foi fechado, mas, todo mundo sabe, garimpo não fecha, garimpo esgota. que esse era blefe. A terra foi salgada” de ouro, dizem por ali. No mato, o pau ainda está comendo como por Lábrea: assassinatos e escravos desmatando a floresta, e dá pra ver aquelas brigas pela madeira que depois chega a São Paulo e ao Sul como coisa ecológica. Procure por Manoel Cumprido, um simpático sujeito do Maranhão, fugido de Colniza (dizem que ele não pode voltar). Ele era dono de um garimpo, mas se desentendeu com garimpeiros e mandou queimar três—a história chegou na cidade por causa da quantidade exagerada de combustível que ele mandou comprar no garimpo vizinho.
ITAITUBA
Aqui é bom parar e curtir. Pelo menos um banho no Tapajós, um dos rios mais lindos da Amazônia. Não perca o promenade pela Transgarimpeira, irmã caçula da Transa, hoje uma bonita rodovia de terra que corta a floresta, mas que deu o que falar. Pare em um bar e se delicie com as histórias de pistolagem que rolavam nos anos 80. E tente entender como foi que o Exército acabou com tudo, com toda essa violência, em poucos dias. Talvez seja aquele velho papo de que os milicos desembarcaram atirando e sumiram com uns 50 pistoleiros rapidamente.
RURÓPOLIS
Demos uma volta na praça, depois de passar pelo Hotel Médici—que foi construído para receber o ditador mais barra pesada da história do Brasil, cara do AI-5, a pior lembrança da nossa história. Antes dele chegar, o Exército limpou os pobres que se amontoavam, empilhados em barracões que foram arrasados por trator. Em frente à rodoviária mataram um antigo prefeito da cidade, no meio da praça.
URUARA
Tente ficar no Dallas Hotel, tomar um chimarrão (quente, sim) em alguma das casinhas de madeira antigas para sentir o clima de Velho Oeste. Não, não são temáticas. São assim mesmo. Aquipra bater um game na X Games—as marcas na parede não são de balas, pode ir na boa. Se der para esticar para o Rio Iriri, dobrando em um dos travessões (as estradas vicinais), visite os índios Araras. A estrada passou no meio da aldeia deles e matou quase o povo inteiro, uma história de genocídio provocada pelo governo brasileiro que não foi bem contada ainda.
Daqui em diante, siga devagar, curtindo o visual—é o trecho mais preservado, envolto pela Terra Indígena Arara. Pode ter alguns cemitérios clandestinos da época que os araras atacavam os colonos—e os próprios colonos se matavam na disputa por terra com fazendeiros. Por aqui vivem os vampiros! Se não vir nenhum por aqui, na periferia de Altamira a chance é grande.
ALTAMIRA
teve o apelido de Alta Miséria, mas isso é passado. Vá pra beira do Xingu. Peça uma cerveja e um tucunaré. Olhe o riozão. É um dos mais bonitos que existem. Se tiver no boteco frequentado por gente mais de esquerda, pode começar a descer o pau na usina de Belo Monte, que vai destruir tudo o que você está vendo. Se tiver no bar dos fazendeiros, curta a bebida, o peixe, e limite o comentário: “Ê riozão bonito.” Nesse dá para tomar uma com Taradão, o fazendeiro que mandou assassinar a irmã Dorothy, e anda num entra e sai da cadeia.
Visita obrigatória ao Afonsinho da Funai. O grande sertanista que salvou os araras da extinção. Nasceu na região, teve o pai assassinado por índios, tomou duas flechadas enquanto ia trabalhar retirando os corpos dos peões que construíam a Transa, e sabe história.
Na periferia de Altamira, onde tem aquelas casas de palafita, nada de saneamento básico, e onde crianças foram assassinadas por seitas e por um serial killer, é possível encontrar vampiros. Ou demônios. Volta e meia eles aparecem e aprontam uma por ali.
BELO MONTE
Aqui é uma balsa cruzando o Xingu. Água verde. Lindo. Olhe bem. Fotografe. Na próxima vez que vier aqui, isso não vai mais existir.
ANAPU
Visita obrigatória ao túmulo da irmã Dorothy Stang. Aqui, passado e presente se unem. Dá para saber história de violência que aconteceu no passado e presenciar alguma que ainda esteja rolando. Embaixo do Hotel Banban tem uma churrascaria cuja carne é muito bem servida por uma bela moça, digamos assim, de forma respeitosa para não dar problema para ninguém. Afinal, a gente sabe onde está.
PACAJÁ
Se der problema no carro, vai no Negão. Com o que tiver na mão, reconstrói o que quebrou. Pra arrumar o amortecedor da picape, juntou um monte de ferro, soldou e fez outro, descolando a borrachinha de um pneu. Atrás da oficina tem uma Kombi pichada, que algum hippie que se aventurou por aqui nos anos 70 esqueceu. Papo com os caminhoneiros que encostam ali é diversão gratuita. Mas ouça mais do que fale. Papo vai, papo vem, um deles solta: “E a mulher que o marido contratou um pistoleiro para matar ela, e ela deu pro pistoleiro e o marido teve que fugir depois? Aconteceu dia desses”. O papo surgiu assim, como se a gente tivesse falando do tempo ou de futebol pra quebrar o tédio.
NOVO PROGRESSO
Não teve nem o antigo Progresso, esse tal que diz que vai vir e nunca chega. Dá pra pegar carona em cima de um caminhão lotado de toras de madeira. Experiência única. Surfe de trem é coisa dos anos 90.
MARABÁ
Também conhecida por Marabala. Apelido singelo de um antigo hábito de resolução das coisas na região. Foi aqui que chegaram os vampiros, num cinema na periferia da cidadeantes de entrarem na comitiva de Médici e se espalharem ao longo de toda a Transa.
Marabá são três. Pode ir na Pioneira, a parte antiga da cidade, na margem do Tocantins, que alaga. Ou ficar na Cidade Nova, ou Nova Marabá. Na hora que passar de uma para a outra, vai estar sempre na Transamazônica.
Vale um tempo. Procure os velhos. Eles podem contar as histórias da guerrilha do Araguaia, como foram massacrados, torturados e talvez até mostrar algum cemitério clandestino com restos dos guerrilheiros
Se subir à esquerda na estrada, vai passar por Serra Pelada, a mina famosa nos anos 80. É, ainda rola, sem o charme de antigamente, nem rende mais fotos do Salgado. Continue rumo Norte pela PA-150 até chegar numa curva em “S”. Os 19 tocos de castanheiras enfiados no chão representam os 19 sem-terra que foram assassinados pela polícia em 1996, no massacre de Eldorado dos Carajás. Mas, se comentar com alguém, não se assuste se o sujeito disser: “Para se defender das foices, a polícia teve que matar 19”.
Daqui em diante, a Transa perde o charme da Amazônia. Dá para tomar um banho de cachoeira em Carolina, no Maranhão. Tente passar por Barra do Corda e visite os restos da Missão que tinha por ali, onde em 1901 os índios guajajara se revoltaram contra a catequização e mataram cerca de 200 pessoas da cidade, no que ficou conhecido comoMassacre de Alto Alegre”—dizem que depois os fazendeiros revidaram e mataram mais de 500 índios. Daqui em diante o sertão que passa pela janela do carro é o sertão nordestino. E são outras histórias, outras lendas, outros conflitos para descobrir e se aventurar.




4 comentários:

Felipe Milanez disse...

Prezado autor deste blog. Nada contra sua opinião a respeito de meu texto. Apenas é preciso citar as fontes corretas: essa reportagem foi escrita para a revista Vice e reproduzida, com a fonte mencionada, pelo blog que você cita.
A fonte correta é essa:
http://viceland.virgula.uol.com.br/br/v2n9/htdocs/transando-a-amazonica-537.php
Eu não possuo vinculos com o greenpeace. Sou jornalista independente.
Agradeceria se pudesse fazer a revisão.
Atenciosamente
Felipe Milanez

Ulisses Silva disse...

Concordo Ademir. É um texto de péssimo gosto.

Quaradouro disse...

Tudo certo, Sr. Milanez. Então o título do post passa a ser:
FALTA SERIEDADE AO JORNALISTA INDEPENDENTE FELIPE MILANEZ.

Dr. Valdinar Monteiro de Souza disse...

kkkkk... "SE lascou-se!"
Te mete!...