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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Medindo a "graça" do preconceito


"A (des)graça desse riso: uma paródia de identidade regional" é artigo da  Doutora em História Idelma Santiago,  Professora na UFPA/Campus de Marabá, em que se desnuda as injunções por trás das piadas sobre maranhenses no sudeste do Pará. Confira: 

No sudeste do Pará, a construção de um saber ordinário - composto de estereótipos discricionários sobre o maranhense - tem tido expressão e circulação nas anedotas e rimas de histórias. Em geral, considera-se a recorrência do tema e seus conteúdos como algonormal”, porque característico de uma prática discursiva que visa provocar o riso.
A questão é que nas piadas veicula-se, geralmente, um discurso não assumido oficialmente. Os espaços sociais organizados em torno do riso podem ser usados para transmitir mensagens ofensivas disfarçadas em brincadeiras (DARIA, 2008). Assim, a piada pode ser via de expressão e socialização não ostensiva de preconceitos porque atua pelo seu encobrimento.  Por isso, ela pode e deve tornar-se objeto de crítica e vigília pública.
Em nossa região, pelas rimas e anedotas são compartilhadas designações que explicitam uma hierarquia social desejável, nas quais o maranhense deverá ocupar o mais baixo degrau: “O que é um nada dentro do nada, ouvindo nada, voltando pro nada? É um maranhense dentro de um fusca ouvindo reggae e voltando pro Maranhão”; “Deus fez o mundo em seis dias; no sétimo dia o diabo riscou o Maranhão”; “Por que cigana não mão de maranhense? Porque maranhense não tem futuro”.
Nessas rimas de histórias sobressaem representações correntemente reiteradas sobre os maranhenses migrantes e sobre o Maranhão: (i) o maranhense está na história, mas numa condição de existência humana rebaixada; e (ii), pior: é uma questão ontológica, um estigma.
Dentre as representações veiculadas nas anedotas, as mais comuns são as de que o maranhense é ignorante e culturalmente atrasado. “O maranhense estava indo para Macapá, quando chegou a Belém, ele tinha que pegar um navio. Quando o navio estava cheio, o capitão avisou pelo interfone: - O navio vai partir. Então, todos os maranhenses pularam dentro do rio”.
Apesar de as piadas envolverem um universo de representações mais ou menos delimitado, porque ocorrem pela reiteração, esses textos são inumeráveis na região e recorrentemente enunciados em contextos ordinários.
Dado o caráter social da piada e pelo seu poder formador (socializador), mesmo que inconscientemente, o público dela se torna cúmplice: participa de seus atos de agressão.  Assim, o riso das piadas sobre o maranhense que, suscitam em muitosum prazer destituído de culpas e aparentemente inofensivo” (DARIA, 2008), revela um contexto social de permissão e reprodução de imaginários sociais racistas, não no sentido que toma sobremaneira o critério de raça na classificação, mas que realiza uma discriminação que visa marcar um desprestígio (um menosprezo) sociocultural, identificando um grupo como diferente e tomando-o como objeto de riso.
De um lado, é difícil uma abordagem que conta das ambigüidades das piadas e de seu trânsito entre realidades distintas e que se enredam, como o jocoso e o sério. De outro, muitos dos interlocutores parecem resistentes a um movimento de crítica das piadas, talvez porque provocaria de deslocamento de seu lugar de brincadeira e, portanto, de interdição dessa prática de prazer.
Mas, a seriedade do tema é evidenciada quando piadas e rimas são enunciadas e reproduzidas em contextos de relações de força, portanto, podendo atuar para promover a adesão cultural à determinada ordem social ou quando o tema passa a ser utilizado como mecanismo de exercício de poder, como aparece documentado no filme “Aprisionados por promessas: a escravidão rural contemporânea no Brasil” (CEJIL et al, 2006).

Articulando elementos de classe social, étnico-cultural e de procedência geográfico-regional, a nomeação do maranhense como o Outro, num contexto em que a maioria da população é migrante, pode ser entendida em duas dimensões:
1.       Uma atitude de defesa numa perspectiva racista, porque a preocupação é como não se deixarcontaminar com esse Outro, íntimo e numeroso, e que perturba com sua pobreza, sua suposta ignorância, seudestino singularmente punitivo” (SAID, 2007).
2.      Afora uma situação de insegurança, devido às formas precárias de territorialização físico-econômico e cultural da maioria dos migrantes na região, também atuam nesse processo que constrói o maranhense como categoria étnica na identidade regional, uma intenção de domínio das relações sociais. Como dispositivo de dominação simbólica, o ato de designação do maranhense se constitui comoum ato de tomada de poder, de apossamento sobre o outro” (ALBUQUERQUE Jr., s/d) e visa um processo formador.
O processo de reterritorialização de migrantes, principalmente em cidades como Marabá, tem ocorrido associado a uma perversa divisão e segregação social. As piadas e rimas de histórias com o tema do maranhense possibilitam reconhecer manifestações culturais e ideológicas dessas di-visões sociais.
Assim, o maranhense, como categoria étnica, no sudeste do Pará não inclui todos os oriundos daquele Estado, principalmente aqueles da denominada frente pioneira, e nem exclui outros migrantes, especialmente nordestinos. O maranhense é a construção de uma alteridade referenciada em critérios e índices atribuídos aos migrantes maranhenses, mas que instituído como categoria (operacional) tem atuado no sistema de classificação hierárquica entre os migrantes, passando a nomear, difusamente, qualquer indivíduo ou grupo social considerado desqualificado.
 Por um lado, socialmente são percebidos como despossuídos econômicos e comomão-de-obra a ser usada e descartada pela porta dos fundos” (PACHECO, 2007). Portanto, nesta perspectiva, desqualificados como sujeitos de direitos. Doutra parte, são alvo de atribuições identitárias étnico-culturais construídas sob bases discricionárias
Enfim, o que está sendo construído é um racismo como dispositivo social de dominação. Além disso, no caso do sudeste do Pará, porque esse Outro, representado pelo maranhense, coloca em xeque as pretensões de identidade regional, inclusive aquela elevada discursivamente como justificativa da criação de uma nova unidade político-administrativa (o Estado de Carajás). Se fosse para discutir seriamente a questão da identidade regional nas pretensões separatistas, dever-se-ia começar pelo reconhecimento e crítica dos processos de segregação social e discriminação cultural que se reproduzem atualmente entre nós. Disso deveríamos fazer nosso compromisso com a construção de uma “outraordem social e não apenas de mais um Estado para manter o mesmoestado” de coisas

6 comentários:

Anônimo disse...

Lembrem do filme James Bond, agente 007, o Estado do Tapajós é 77.


ATENÇÃO ELEITOR, O “SIM” PARA O ESTADOS DO TAPAJÓS É 77.


O Supremo Tribunal Eleitoral sorteio os número para o SIM e para o Não.

SIM 77 e o NÃO o 55.

AS CÉDULAS DO TAPAJÓS SERÁ AMARELA E O CARAJÁS BRANCO.


VOTE 77 AMARELO PARA O ESTADO DO TAPAJÓS,

VOTE 77 BRANCO PARA O ESTADO DO CARAJÁS.

Anônimo disse...

ELEITORES TEM APENAS 1 MÊS PARA REGULARIZAR SEU TÍTULO

DE ELEITOR, ATUALIZE A MUDANÇA DE ENDEREÇO.


Eleitores devem tirar o título com urgência, até 11 de setembro, regularize sua

situação na cidade em que vive. Não deixe para última hora. Quem for de outro

estado deve transferir o título. Inclusive a população do MST também deve tirar o

título para apoiar essa causa.

Os jovens, acima de 16 anos também podem apoiar o movimento de emancipação

votando pelo SIM, 77 .


Lembre-se do James Bond 007 , o Tapajós é 77.

Anônimo disse...

Pagâo eu nâo concordo, que seja préconceito, nem piadas inventada com nome de Maranhense, até porque muitos deles, entre nós é acabam criando istorias ilariantes, cito essa: um empresario bem sucedido na época em Marabá, foi até Brasilia lançar um livro, pasmem, no senado federal, titulo do livro: do alto do coco ao SENADO, o Maranhense nunca foi escritor, e nem Senador. PODE.

Anônimo disse...

Olha que trágico: agora os superiores querem que os Outros transfiram o mais rapidamente seus títulos, para votar no sim. Nunca na história de Marabá, maranhense teve tanto valor.

Leo Gomes disse...

Agora o maranhense virou a "Geni" da canção do Chico Buarque: no dia a dia ela era uma mulher desprezível, mas, diante do perigo, quando só ela poderia salvar a cidade, virou a grande redentora... Concordo plenamente com o Anônimo das 18h53, agora, na hora do pega pra capar, "clamamos aos nossos irmãos maranhenses que transfiram seus títulos para cá e votem no 77". Pode?

Anônimo disse...

Um dos grandes, senão o maior culpado por essa ojeriza de que são vítimas nossos irmãos maranhenses, chama-se José Sarney. Que privatizou (vendeu/concedeu) a imensa maioria do território maranhense deixando sem terra seus conterrâneos menos favorecidos. Ele próprio (Sarney) é proprietário de 1 (huma) ilha de grandes dimensões. Salvo engano, chama-se Curupú. Pode ? Parece que sim. Motivo principal, pelo qual, deslocam-se do estado vizinho para cá em busca de terras. Como a maioria mal é alfabetizada, ocupam a maioria dos subempregos. Em 12.08.11, Marabá-PA.