sexta-feira, 20 de abril de 2007
Velhas cartas de alforria
Fluxograma
(Ademir Braz, 1978)
Não me peçam virtudes.
Essas, não as tenho.
Não como se compreende
a virtude: coerência,
rito aceito, sensatez.
Sou insensato, eis tudo.
A cada dia sou outro:
erro com a rosa dos ventos.
Não me peçam fronteiras,
nem definições, fidelidades.
Meu olho sangra muros e o Ser
expõe-se ao tempo, tempestades.
Sou hoje aqui e o agora.
Outros serei amanhã e depois
de amanhã o sol revelará
a face que ainda não me sei.
Só quero viver o meu tempo,
consumir-me – sarsa ardente,
Porque é inútil quem não vive
o seu tempo.
A aranha e o silêncio
(Ademir Braz, 1978)
Então desperto... desperta-me
Esta sonoridade equívoca do mundo.
À janela,
o dia tece
a teia
em torno
ao tempo
morto.
A poesia é apenas isto – silêncio
na memória da carne
no vazio da raiz dos cabelos.
E como sobrevivo,
entre a face do espelho
e o gume da navalha,
atiro as palavras como pedras
ao mar.
Escrever é uma tarefa ordinária, eu penso,
Quem sabe não seria mais proveitoso
fazer uma revolução, mudar
o amanhã comum do operário vizinho
(um dia sempre igual ao dia de ontem,
ao dia de sempre)
ou atirar-me de vez ao mar...
no entanto, I am as I am. E como preciso
atender esta necessidade espiritual
de permanecer de mal com o mundo,
vou
juntando palavras ao acaso, certo de que
toda Arte possível não faz diferença
a este sentimento nem vai fazer menor a solidão.
O poeta é uma aranha
tecendo
numa fresta
do
mundo.
A arte em grãos III: Augusto Cézar Bastos
Augusto Cézar Bastos nasceu em Itaguatins, Goiás, no começo do século XX. Em 1920, iniciou seus estudos em Marabá (PA), para onde a família migrou. Em 1928, vivendo em Belém, convive com intelectuais paraenses, entre os quais Bruno de Menezes, Campos Ribeiro, Jacques Flores, dedicando-se à boêmia e à poesia. Em 1933, abandona os estudos universitários e muda-se para São Paulo onde engaja-se como soldado, na esteira do movimento constitucionalista, mas logo abandona a farda, retornando à vida desregrada até 1938. Além de soldado, foi jornalista, dentista prático, vagabundo em Santos, agrimensor no Rio de janeiro. Em 1939 retorna à casa paterna em Marabá, entregando-se de vez ao alcoolismo e quase morrendo em conseqüência disso. Em 1964 voltou a Itaguatins, onde tornou-se funcionário público municipal.
“O que restou dos sonhos” é seu único livro publicado (50 páginas, 15 poesias, Goiânia, 1981), graças a um amigo que conseguiu reunir fragmentos da sua obra, quase toda perdida para sempre. Quando dessa publicação, patrocinada pelo governo estadual, Augusto Cezar Bastos tinha 60 anos. Ignoro se ainda vive.
Alucinação
Faz tanto frio, tanto,
e eu, doido a morrer de frio e espanto,
passo a correr pela cidade morta.
Paro diante de umas velhas casas.
Ouço o bater tétrico de asas
e o rangido soturno de uma porta.
Faz tanto frio, tanto,
e eu, doido a morrer de frio e espanto,
volto a correr pela cidade morta.
Eu e minha rua
Minha rua é quase feia
Tortuosa, esburacada,
Mas nenhuma é mais bonita
Nas noites de lua cheia.
Crianças brincam de roda
Cantando “três cavaleiros,
Todos três chapéu na mão”,
Vão levantar Terezinha
Que rolou, caiu no chão.
Tem buracos onde a água
Vai brincar de se esconder.
Nas calçadas o luar
Dorme até o amanhecer.
Com cantigas nas calçadas
Minha rua é como eu:
Quase alegre olhando a lua
E no luar encontrando
Um sonho que se perdeu.
Violino do Diabo
Não sinto mais o odor dos tempos refloridos
e as cascatas de luz não trazem mais alento
aos frangalhos que são os meus cinco sentidos
saturados que estão de todos os tormentos.
Vão longe as ilusões dos tempos idos.
Tenho no peito temporais violentos
e nos meus olhos trago refletidos
o pensamento atroz e a dor desses momentos.
Tenho noites sem fim, de sonhos povoadas
e ao ver o sol eu sinto tristemente
a certea cruel das frias alvoradas.
Meus nervos hoje são as cordas retesadas
de um violino que o diabo fez presente
a outro diabo que vive às gargalhadas.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
Poesia faz bem
A Associação dos Poetas e Escritores de Marília (SP) está com inscrições abertas até 1º de julho ao seu concurso de poesias, cujo regulamento pode ser obtido no site www.apem.com.br. A entrega de prêmios acontece dia 4 de agosto naquela cidade.
Livre-pensar
"A felicidade é uma viagem, não um destino". (Henfil)
Metá-metá
Resultado da enquete do site Pará Negócios, do jornalista Raimundo José Pinto, até às primeiras horas de quinta-feira para a questão “Quem você acha que são os principais responsáveis pela crise no setor de ferro-gusa?”
a) Os próprios empresários - 30 %; b) o poder público - 10 %; c) os dois juntos - 60 %
Tião tenta manipular eleição sindical
Presidente do Sindicato dos Taxistas do Município de Marabá (STMM) e candidato à reeleição, Dorimar Gomes Soares denuncia: “o gabinete do prefeito Sebastião Miranda está tentando interferir, de forma escancarada, escandalosa e intolerável, no processo eleitoral e nos destinos da nossa entidade profissional”.
A eleição será por todo este sábado (21/04), com as chapas lideradas por Dorimar Gomes (1) e Adriano Gomes Soares (2)
Segundo o presidente do STMM, diariamente ele recebe de seus colegas de trabalho a informação de que eles vêm sendo assediados pelo candidato da Chapa 2, Adriano Gomes, que vai “a todos os pontos de táxi prometendo o que não poderá cumprir, inclusive o alegado apoio do prefeito Tião Miranda, caso eleito. Para provar o que diz, Adriano liga para a prefeitura e pouco depois aparece no local o chefe de gabinete Gilsin Silva, endossando as promessas eleitoreiras de Adriano e até chegando a tirar companheiros do seu serviço para levá-los a reuniões no prédio da prefeitura”.
Por toda a manhã de quinta-feira Quaradouro tentou contatar Gilsin Silva, para ouvir a sua versão, mas não foi possível: inicialmente, ele não estava no gabinete; depois, a partir das onze horas, a secretária dele encheu-se de razões para evitar que o jornalista falasse com seu chefe.
Indignado com o que chamou de “desfaçatez da administração”, Dorimar Gomes pôs-se em campo para alertar os companheiros contra essa interferência ilegal na vida do sindicato, que vem sendo feita em nome do prefeito Tião Miranda.
“Quero lembrar a todos – diz em nota pública - que os atuais promesseiros são os mesmos que se recusam a atender os pleitos da nossa categoria no combate à insegurança na questão do transporte público e na criação do táxi-lotação, bandeira de luta que o Sindicato defende há muito tempo. Quero alertá-los contra o risco de o Sindicato vir a cair em mãos indevidas, inclusive de pessoas com passado comprovadamente desonesto, pondo a perder nossa credibilidade construída com sacrifício e muita luta.”
E conclui: “Não vamos aceitar que interesses escusos e politiqueiros atrapalhem nossos objetivos coletivos e voltados exclusivamente para o interesse dos taxistas. Neste sábado, vamos mostrar a todos que não aceitamos pressões nem nos envolvemos, enquanto categoria profissional, com interesses meramente eleitoreiros.”
Encabeçada por Adriano Gomes Soares, a Chapa 2 teve 9 dos seus 12 integrantes impugnados, assim que foi apresentada, pelo sindicalizado João Batista da Silva, por um motivo bastante prosaico: do candidato a presidente a quase toda a diretoria, todos deviam mensalidades que variavam de 3 a 46 meses, não podendo votar ou serem votados de acordo com o estatuto sindical. Às pressas, todos quitaram os débitos e a Chapa 2 foi reapresentada e aceita, uma vez regularizada a situação dos candidatos.
Quem lucra no jogo
Uma questão que não pode passar ao largo desse seminário “Desenvolvimento sustentável do Pólo Carajás”: a quem interessa a crise sem solução aparente das guseiras? Ponto!, se você disse Vale do Rio Doce.
Pressionada pelas ongs ambientalistas e pela opinião pública internacional, cada vez mais poderosas junto aos compradores de minério de ferro, a Vale ameaça deixar de fornecer matéria-prima às siderúrgicas. Ora, a Vale tem sua própria sustentabilidade; herdou, quando privatizada, 30 mil hectares de eucalipto plantado há duas décadas ou mais (logo, pronto pro abate), que serviria para a produção de celulose no Maranhão, projeto abandonado. Assim que a Nucor começar a produzir gusa, vai também gerar seu próprio carvão, claro.
Enquanto isso, as guseiras irresponsáveis, que jamais plantaram nada desde 1986, ou, se plantaram, não dizem onde nem se dá para o gasto, essas se quiserem vão ter de comprar carvão mineral, vulgo coque, que a Vale pode trazer em seus navios ociosos no retorno da China. Seria uma possibilidade se, claro, nossas guseiras pudessem vir a usar coque, mas nenhuma delas tem estrutura para isso, segundo uma fonte de lá. Logo, para consumir carvão mineral seria preciso reformatar todos os altos-fornos, ou seja, reconstruir tudo, com altos investimentos.
Por fim, deixar a Vale de abastecer as guseiras encrencadas não é prejuízo; é, na verdade, uma forma de livrar-se de uma pedra no meio do caminho.
Efeitos colaterais
Instalado em 1989 na microrregião de São Félix do Xingu, sudeste do Pará, o município de Tucumã tem 2.523,3 km2 e dos seus 31.375 habitantes iniciais sobravam apenas 25.309 em 2000 (ou seja, menos 2,45%). Desses restantes, 21% eram analfabetos e 36% pobres. Na área urbana, serviços básicos como água encanada, energia elétrica e coleta de lixo só serviam a 31,7%, 69% e 56,7% respectivamente.
Pouco mais de seis anos depois, tudo mudou – para pior. Desde meados de março recente, Tucumã está sob estado de emergência municipal decretado pelo prefeito Alan Azevedo, em razão do início das atividades da mineradora Onça Puma (subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce, e voltada para a extração de níquel), que provocou a invasão de mais de dez mil pessoas atrás dos pouco mais de 1800 postos de empregos ofertados.
Assustado, Alan Azevedo resumiu a tragédia: degradação de ruas e avenidas, invasão e grilagem de terras públicas, precarização dos serviços de educação e saúde, aumento do tráfico de drogas e prostituição infanto-juvenil.
A Vale vai investir US$ 1,43 bilhão no projeto Onça Puma, com a geração de 4 mil empregos diretos na fase de construção e 1.300 na fase de operação, a partir de novembro de 2008, segundo a assessoria da empresa. Os depósitos de níquel das serras do Onça e do Puma estendem-se ainda por São Félix do Xingu, Ourilândia do Norte e Parauapebas. As primeiras pesquisas foram realizadas na década de 70, conduzidas pela Minerasul, subsidiária da canadense Inco, e em 2001 a Canico Resource Corp. assumiu as áreas minerais naquela região. Em dezembro de 2005, o Onça Puma foi adquirido pela Vale, que no ano passado veio a assumir o controle da Inco.
Esta semana, a Vale anunciou, em nota da assessoria, que para garantir o uso de mão-de-obra local no projeto Onça Puma adotou como um dos seus critérios de seleção de trabalhadores, a necessidade de comprovação de residência ali anterior a 2005, “justamente para evitar uma indução migratória intensa e desordenada na região”. Informou também, como prioridade sua, o Programa de Apoio Municipal, que inclui um conjunto diversificado de ações para o fortalecimento institucional e a garantia de infra-estrutura física necessária para implantação do projeto, como conjuntos residenciais e sistemas de água e esgoto, “evitando o agravamento das atuais deficiências infra-estruturais das redes de utilidade pública, tanto em Ourilândia do Norte quanto em Tucumã”.
Já o prefeito Alan Azevedo, de Tucumã, não parece satisfeito: "Precisamos ser compensados pelos impactos econômicos, sociais e ambientais", defendeu.
Refém
Indicado como presença já definida, o jornalista santareno Lúcio Flávio Pinto poderá não vir ao seminário “Desenvolvimento sustentável do Pólo Carajás”, que a Câmara Municipal promove nas próximas quinta e sexta-feira (26 e 27 de abril) no auditório da Secretaria Municipal de Saúde.
Em contato com este redator, Lúcio Flávio disse que a juíza da 7ª Vara Penal vai sentenciar, na próxima semana, dois dos vários processos que os donos das Organizações Rômulo Maiorana (ORM) tentam condená-lo, e ele precisa ficar em Belém por conta da eventualidade de uma apelação.
Espírito armado
Mandaram-me, gostei, deu um trato no estilo e resolvi socializar este humor finíssimo com meus leitores. E não me venham com ram-ram-ram que eu sou preto e sei como é a barra. Vamos lá:
Dois amigos – um preto e ou branco – conversavam e andavam por uma rua quando o primeiro resolveu entrar numa loja e ver preço de armas. O outro ficou fora, à espera, fumando um cigarro.
- O senhor tem revólver 38?
- Não, respondeu o vendedor atrás do mostruário com todos os tipos de armas.
- E pistola automática ?
- Também não, respondeu secamente o vendedor.
Lá fora o frustrado cliente queixou-se ao amigo:
- O vendedor fiidumaégua não quis me atender. Acho que é racista.
Disposto a esclarecer a parada, o branco entrou na loja:
- Que tipo de arma você tem aí?, indagou.
- Qualquer tipo e calibre, nacional ou importada, e lhe vendo por preço à vista em até três vezes no cheque ou cartão.
- Tudo bem. Agora me diz o que você tem contra preto?
- Contra isso tenho bazuca, metralhadora, AR-15, um canhão de última geração.
quarta-feira, 18 de abril de 2007
Cuíra política dá nisso
Lançado pelo PT como bucha de canhão no pleito passado à Câmara, o obscuro morador da Folha 33 acabou se tornando o vereador eleito Zezito da 33 – para desgosto e danação da legenda, que dele queria apenas os votos para eleger, entre outros, a professora Toinha, presidente do Sintepp em Marabá e pelega de Tião Miranda.
Zezito tomou gosto pela coisa mas ficou pouquíssimo tempo no partido: “Porque fiz pedido de informações sobre o diretório, que eu tinha o interesse de integrar através de chapa, e do destino do dinheiro que eu pagava todo fim de mês, descontado na folha, os caras ficaram danados da vida e até iniciaram um processo pra me expulsar. Pra não dar esse gosto, saí por conta própria e fiquei sem partido”, explicou, certa vez, a este blogueiro. Um dos “caras”, segundo ele, era o presidente do diretório e hoje secretário-adjunto de Planejamento, Luis Carlos Pies.
Pois não é que agora, com esse entendimento que o mandato pertence ao partido e não ao político, Zezito vai ter que retornar ao PT, que quer vê-lo pelas costas? Tá lascado! Tudo indica que vão ferrá-lo e dar a vaga à Toinha.
Situação melindrosa vivem também Sebastião Ferreirinha, hoje PSB, mas eleito pelo PTB, do Tião Miranda. Ferreirinha saiu do PSB, onde quem mandava era Vanda Américo, hoje PV (Partido da Vanda) e que o hostilizava por contrariar Tião Miranda. Vai ter de voltar ao berço esplêndido, ao ninho ancestral, para não perder o mandato, assim como Vanda, que terá de chegar-se ao PSB. Leodato Marques é outro que mudou de sigla e vai ter de voltar ao PP, de Miguelito.
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