quinta-feira, 5 de junho de 2008
Amarga lembrança
Foram os urubus em vôo espiral cada vez mais estreito sobre o terreno quase descampado que anunciaram: o corpo da professorinha estava entre arbustos e seus olhos escancarados fitavam a eternidade inútil. Era o dia 4 d fevereiro de 2001.
Na tarde morta ecoavam o chapinhar de botas sobre o capinzal encharcado do pântano, os arquejos, a fragorosa consciência de que a busca se acabara da forma que todos previam e se negavam a acreditar.
Miragem
Voltamos às pressas porque minha filha começou a passar mal, acho que pelo vatapá que comeu. Esqueci, de besta, que vatapá à noite está no mínimo requentado - tragédia para intestinos adultos, que dirá para os de criança. Felizmente tenho remédios à mão (coisa mínima, caseira mas ótima para esses desarranjos) e ela amanheceu bem. Quem subitamente passou mal fui eu, de repente só, consciente por inteiro desta minha solidão, agravada pelo fato de não lhe ter sequer pedido a chance de revê-la. E tê-la visto desaparecer entre bandeiras vermelhas, naquela multidão, me fez imaginar que nunca mais a veria, ela tinha vindo de repente e de repente fora embora, tsunami, flying saucer, rastro de perfume, cabelos lavados, frescor na pele e no hálito, os olhos mais cintilantes que já vi nesses tempos de furores e desencantos, perdidos sob estrelas vermelhas e fogos de artifício.
Revisitações
Detesto doenças, tenho um profundo desprezo pela morte e instintivamente fecho portas e janelas interiores quando se trata desses dois assuntos. Deve ser porque na minha infância tive de tudo para morrer cedo: pneumonia 8 vezes, derramamento de pleura com infecção generalizada nos pulmões, essas coisas que acabaram me deixando duro por dentro e por fora em relação a doenças. Quando vou ao cemitério, vou normalmente sozinho. É uma visita a meus pais, sobrinho, amigos, à sepultura de antigos pioneiros anônimos que tento identificar no meio de tanto abandono. A paz do cemitério, do meu cemitério, paz ensolarada que me dá sensação de liberdade e me reencontra com as coisas mais profundas que carrego no coração: o amigo de infância, o embarcadiço que descia o Capitariquara levando os grandes motores, o sujeito com quem, algum dia, esbarrei na ponta de um botequim.
Mas deixemos os mortos em paz... Por mim, estou olhando esta cidade e esta terra com um tédio cínico, desses que nos dá quando as coisas se tornam definitivamente apartadas da gente, e só nos resta, além de um sentimento de velhice, alguma consciência de inelutável perda de tempo. "Por que diabos gastei boa parte da minha vida com esta coisa sem sentido?" Alguma coisa assim...
quarta-feira, 28 de maio de 2008
“Mau uso” de mais de R$ 6 milhões
Em apenas três obras recentes realizadas pela Prefeitura de Marabá - das quais uma ainda em andamento e outra entregue ao público apenas parcialmente concluída -, a Assessoria de Obras do Tribunal de Contas dos Municípios rastreou evidências de superfaturamento que, no seu entender, caracterizam “despesas indevidas e mau uso do dinheiro público”. Essas, digamos, “incorreções” com verbas aplicadas em saúde, lazer e proteção do solo urbano ascendem a mais de R$ 6,331 milhões. Igualmente grave é o fato de a Assessoria Jurídica do TCM haver constatado “ilegalidade” nas respectivas licitações.
Os relatórios de inspeção in loco foram produzidos de 18 a 22 de setembro de 2007 pela Assessoria de Obras do TCM, e referem-se às seguintes obras:
Praça da Criança
Localizada na rotatória da VP-3 com VE-3, próximo ao Hospital Municipal, a “Praça da Criança” resultou do convênio FDE 163/2006 celebrado com a Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Finanças (Sepof), no valor de R$ 490.013,95, licitação vencida pela empresa Ecool – Pedro Sebastião Barreiro da Costa Ltda. Diz a analise técnica do Tribunal que “a soma total dos valores dos serviços juntados em desacordo com o projeto e com o executado é de R$ 105.966,45”, da mesma forma que “não foi possível identificar onde foram executados e a real necessidade de alguns serviços contratados a partir do termo aditivo”. A Assessoria Jurídica do TCM alega não haver encontrado no rol de documentos relativos à obra “o projeto básico para (sua) execução, com todas as partes, desenhos, especificações, orçamento detalhado em planilhas que demonstre a composição de todos os custos unitários”, nem o ato de designação da comissão de licitação ou o parecer jurídico sobre o edital, conforme exigido por lei. Por tudo isso, manifestou-se pela “ilegalidade” da tomada de preços “e o decorrente termo de contrato firmado com a Ecool – Pedro Sebastião Barreiros da Costa Ltda.”
Hospital Materno Infantil
O projeto é de agosto de 1999 e deveria ter entrado em operação a partir de dezembro de 2007 na Marabá Pioneira. Bem antes de ser concluída, em 2002 a obra foi objeto de Tomada de Preços (nº. 010/2002/SEVOP) orçada em R$ 939.865,63, de recursos do governo do Estado (R$ 845,90 mil) e próprios (R$ 93,95 mil), para ampliação e reforma. Outra licitação, para conclusão da reforma e ampliação, deu-se em 2005 (nº. 020/2005/CPL/SEVOP). Além desses contratos, “foram licitados nos anos de 2005 e 2006 outros serviços, o que caracteriza um parcelamento de serviço realizado no mesmo local, ferindo o art. 23, § 5º da Lei 8.666/93” (das licitações), aponta a Assessoria de Obras do TCM. O total dos recursos irregulares seria de R$ 67.364,65.
Quando da inspeção do TCM, entre 18 e 22 de setembro de 2007, as obras não concluídas do hospital estavam avaliadas em R$ 1.267.139,85 e rescindido o contrato com a Construtora 2000 Ltda.
Cais do porto
Na construção da infra-estrutura portuária e de proteção das margens do rio Tocantins, as despesas com reajustes irregulares ascendem a R$ 6.021.638,26.
A inspeção da Assessoria de Obras do TCM considera que apesar do porte da obra, do volume de recursos empregados e da grande quantidade de projetos, “alguns pontos não foram bem explicados ou justificados na documentação apresentada, indicando mau uso do dinheiro público, indícios de irregularidades” e descumprimento da Lei de Licitações (8.666/93). “Não há justificativa admissível para que na licitação de uma obra deste porte, com valor orçado de aproximadamente R$ 25 milhões, não tenham sido executados os levantamentos geológicos e topográficos necessárias para sua perfeita caracterização”, diz a perícia.
O documento traz números fantásticos: do valor inicial de R$ 24.585, até agosto de 2007 foram pagos R$ 33.117 milhões (R$ 27,091 milhões do contrato original e R$ 6,025 milhões referentes a reajustamento de preços) em quatro termos aditivos celebrados.
Todos os reajustes se deram em razão de modificações no projeto como: mudança da estaca de concreto para a metálica”em vista das incertezas quanto as condições geológicas que poderiam interferir no desempenho das fundações”; serviços extraordinários na segunda etapa da obra – cerca de 360 metros do muro de contenção; aumento de 500,2% no quantitativo de aço para concreto armado pré-moldado; acréscimo na quantidade de aterro e suposto “movimento extraordinário de transporte”, que onerou o orçamento em mais de um milhão de reais – para a perícia, “um indício de irregularidade”.
O 4º Termo Aditivo provocou um uma despesa extra de R$ 6.021.638,26 (24,98% do total inicial do contrato) e se refere a “serviços extraordinários da segunda etapa da obra”.
Prática condenada
Os erros cometidos reiteradamente pela prefeitura em todos os processos licitatórios concernentes às três obras são surpreendentes: pela mesma prática, a administração municipal foi multada em 2003 pelo Tribunal de Contas da União e instada a deixar de adotar em licitações futuras “os índices de qualificação econômica restritivos da competitividade”. No caso, o TCU entendeu necessário remeter os autos (frutos de representação do Sinduscon-PA contra a prefeitura marabaense) ao Ministério Público Federal para as providencias processuais pertinentes. Concluindo, a Assessoria Jurídica do TCM se manifestou “pela ilegalidade da Concorrência Pública nº. 007/2002/CPL/SEVOP e do decorrente termo de contrato com a CMT Engenharia, se houver”. O contrato firmado com a empresa, assim como o projeto básico da obra, não foram encontrados nos 17 volumes da concorrência pública do cais de arrimo.
“Sem competência”
Quaradouro tentou ouvir aliados do prefeito Sebastião Miranda, que jamais concedeu entrevista ao pôster desde que assumiu a prefeitura em 2002, e todos invariavelmente disseram desconhecer o assunto. Apenas um político, que não integra o grupo de Tião mas se esforça para tê-lo como interlocutor efetivo, não se esgueirou de falar. Disse ter sabido da história e até lido os relatórios técnico-jurídicos que lhe foram mostrados por um jornalista que, em vez de reportá-los, preferiu o silêncio obsequioso em troca de algum favorecimento da administração. “A questão, disse o político, é que pode até haver algum remoto fundamento na denúncia, mas nem o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) nem o Ministério Público Estadual têm competência para analisar o convênio referente à construção da orla com recursos federais.” Ele também disse que a denúncia seria “letra morta”: “Aposto o que você quiser como não sai na imprensa de Marabá”, desafiou.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Plano para o MP
O Ministério Público Estadual (MPE), cuja missão é defender a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais indisponíveis, decidiu ouvir a voz rouca e quase inaudível das ruas para a confecção de um Plano Geral de Atuação (PGE) que o instrumentalize com maior eficiência. Para esse fim, o MPE distribuiu, desde a semana passada, em várias instituições, uma boa quantidade de formulários de consulta pública visando recolher, junto à sociedade, sugestões e comentários de qualquer interessado – pessoa física ou jurídica – em contribuir com a sua campanha.
O documento indica, entre outras, onze áreas que viriam a ser de atuação prioritária para os promotores, das quais apenas três indicadas pelo consultado: controle e prevenção de conflitos agrários; defesa do consumidor; garantia do direito à educação; defesa dos idosos; defesa da infância e juventude; defesa do meio ambiente; combate à improbidade administrativa e defesa do patrimônio público; garantia do direito à saúde; combate à corrupção, combate à violência; controle externo da atividade policial. Os formulários serão recolhidos dia 26 de maio, segunda-feira próxima.
Além da consulta serão realizadas, simultaneamente, quatro audiências públicas, no dia 10 de junho, nos municípios de Belém, Castanhal, Santarém e Marabá. A portaria 1153/2008, que também autoriza as audiências, está publicada no Diário Oficial de 30 de abril.
Definição
Atual vice-presidente do Tribunal de Justiça do Estado (TJE), Rômulo Nunes será o próximo titular da instituição. A indicação é do desembargador Milton Nobre e a eleição está prevista para janeiro de 2009.
Pesos e medidas
A Secretaria de Ação Social da Prefeitura (Seasp) estaria disponibilizando cestas básicas diferenciadas aos seus usuários: as maiores iriam para seus funcionários; e as menores, para a turma do gargarejo. A denúncia foi feita por Francisco Rones Ribeiro de Sá na 4ª Promotoria de Justiça Cível, dia 19 de maio, e posta a termos para conhecimento e providências da promotora Josélia Leontina de Barros Lopes.
Reconhecimento
O biólogo Noé Carlos Barbosa von Atzingen, organizador e presidente há um quarto de século da Fundação Casa da Cultura de Marabá (FCCM), acaba de entrar para o seleto mundo dos pesquisadores cujo nome identifica espécies novas da fauna dos insetos. Em dezembro de 2007, a Revista Brasileira de Entomologia dedicou sete páginas a texto de Eunice A. Bianchi Galati, do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, que descreve, em inglês, o mais novo integrante da família dos flebotomíneos: o Micropygomyia (Sauromyia) vonatzingeni, capturado por Noé von Atzingen na Serra das Andorinhas, no município de São Geraldo do Araguaia (PA) e de Cavalcante (TO). O nome dessa nova espécie - Micropygomyia vonatzingeni - foi dado em reconhecimento do compromisso do biólogo “com a preservação da cultura popular e o meio ambiente, incluindo seus estudos entomológicos e espeleológicos”, diz o artigo da Revista Brasileira de Entomologia.
Juizado para a mulher
Desembargadores integrantes do Pleno do Tribunal de Justiça do Estado, em sessão ordinária, aprovaram à unanimidade nessa quarta-feira (21/05) anteprojetos criando 50 cargos de juiz de direito e 33 Varas para a capital e o interior. Entre essas, uma Vara de Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e mais duas de Juizados Especiais na Comarca de Marabá. Cada uma terá em sua organização os cargos de: juiz, assessor de juiz, três cargos de analista judiciário, dois de oficial de justiça avaliador, dois de auxiliar judiciário e um de atendente judiciário. Já o Juizado da Mulher terá também uma equipe multidisciplinar com quatro cargos de provimento efetivo de analista judiciário (carreira técnica, atividade finalística), com formação nas áreas de Psicologia, Serviço Social, Direito e Saúde.
A instalação dessas Varas, bem como o provimento dos seus cargos, obedecerá a cronograma de prioridades e necessidades definidas pelo TJE e a disponibilidade de recursos do Judiciário.
Esta informação vem desde a tarde de quarta-feira causando entusiasmo em Marabá, no meio dos operadores locais do Direito. É que na terça-feira (20/05), durante encontro de advogados e juizes da comarca para uma discussão sobre a melhoria necessária dos serviços da Justiça, o desembargador Milton Nobre, ex-presidente do TJE, prometeu ao advogado Haroldo Júnior, presidente da Subseção da OAB em Marabá, incluir no anteprojeto a questão do Juizado de Pequenas Causas. Haroldo Júnior ponderou que o Juizado Especial vem, desde sua instalação, funcionando de forma precária, dependente da disponibilidade de juízes titulares das Varas regulares, todos de si assoberbados pelo acúmulo de outras Comarcas, e de serventuários dos respectivos cartórios. Por isso, está com audiências marcadas desde agora, à altura dos cinco primeiros meses deste ano, para 2009.
O anteprojeto ainda depende da aprovação dos deputados estaduais, o que pode levar integrantes da administração da subsecional a ir até Belém fazer lobby junto aos parlamentares, principalmente os desta região.
Também no encontro de terça-feira, Milton Nobre elogiou a atuação de Haroldo Júnior à frente da Subsecional da Ordem, para ele comprometido com os interesses da entidade representativa dos advogados e com a prestação jurisdicional eficiente. No que respeita aos problemas estruturais do prédio do Fórum, em reforma há mais de ano embora tenha sido inaugurado a menos de três, Nobre garantiu que será apurada a responsabilidade pela obra mal feita e também pela reforma sem fim.
Quem também assegurou apoio ao Judiciário foi o prefeito Sebastião Miranda Filho, presente ao encontro. Ele disse que vai disponibilizar mais seis servidores e nove estagiários (bolsistas pagos pela prefeitura) para o nosso Judiciário, onde cerca de 23 servidores municipais trabalham há muito tempo.
Ao largo
Ademir Braz
Para Charles Trocate, no seu caminho)
Já não te amo mais, cidade minha.
Quando, nas dobras da minha lembrança,
tange solitário um tropeiro a tropa
ruidosa dos meus desenganos,
sinto que não te amo mais, cidade minha.
Assim, desgosta-me o suor-nectar que exalas
por entre as pernas, se me enlaças e roças
no rosto teus seios imaturos de vestal.
Assim, trinco os dentes se me acenas doce,
etérea e sedutora, dentre as aves de rapina
que se fartam em tuas entranhas.
Já não te amo mais.
Um gigantesco mar nos põe ao largo
e singro, em velames, a esquecer teu cais.
Aborrecem-me tuas ruas ensolaradas
ou noturnamente desertas e melancólicas.
Ralam-me o cristal das chuvas de dezembro
e o odor de frutas claras na água de verão.
Se navego teus rios, ouço vozes afogadas
de crianças e o canto deslembrado de pássaros;
vejo encantarias apanhadas em tarrafas
e garimpeiros presos ao farracho de sonhos
cravejado de diamante e turmalinas;
ouço adiante o canto sombrio da aldeã ilhada
em balsa de buritis a descer sem timoneiro
a voraz correnteza da memória, e o estrondo
infindo de um avião a retorcer-se em chamas,
facho imenso aceso sobre águas negras,
farândola insana para um deus insano.
Sinto-os ainda, e tanto!, cidade minha... Já,
em tuas ruas não anda mais a triste e doida
Zabelona a cavalgar ao luar sua porca de bobs,
nem sobre as casas ressoa, pela madrugada,
o agourento presságio do rasga-mortalha.
Invés, na calha dura avulta a gosma rubra
de teus pobres, catados à margem de trilhos
e soltos na veia líquida de março. São pobres
peixes tangidos da sombra insalubre dos brejais.
Sujos de ferrugem e fuligem, vomita-os o dragão
chinês na gare de abandonos na periferia.
São lambaris que no mormaço vagam. Cegos, vagam.
Famintos, comem o paul do paiol apodrecido.
Para onde irão a seguir (além da cerca do latifúndio
e da cova anônima de indigentes sem luto)?
(Abril, 2008)
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